ONG criada por mulheres lésbicas no Rio de Janeiro oferece acolhimento, formação e oportunidades para a população LGBT em situação de vulnerabilidade
Sempre que escuto histórias de resistência que nascem da dor e da exclusão, fico tocada pela capacidade que algumas pessoas têm de transformar sofrimento em oportunidade coletiva. Assim, foi inspirador conhecer a história da Casinha, ONG criada em 2017 a partir da união de amigos indignados com a violência contra a população LGBT+.
Estive presente também, no dia 20 de agosto, na formatura de uma das turmas do projeto da instituição, o Curso Cozinha Diversa. Era possível ver, em cada beijo trocado, sorriso e abraço, o impacto que a instituição tem na vida de seus beneficiários e fiquei encantada. A seguir, compartilho um pouco dessa trajetória em forma de conversa com pessoas que fazem parte desse espaço de acolhimento, formação e transformação. Confira!
Coluna da Neuza: Quem está por trás da criação da Casinha?
Natalia Pazetti, fundadora: A Casinha nasceu de um grupo de mulheres lésbicas que recebia meninas entre 16 e 18 anos expulsas de casa. E que sofriam violências, inclusive dentro da própria família. Eu mesma cheguei a acolher uma dessas meninas na minha casa.
Daí, sentimos a necessidade de criar um espaço seguro, um lugar de conforto e pertencimento e em 2018 nós nos formalizamos como ONG. Desde então seguimos oferecendo acolhimento, formação e oportunidades para pessoas negras, trans, homossexuais e travestis.
Coluna da Neuza: O que significa acolhimento dentro da Casinha?
Natalia: Aprendemos que o acolhimento vai muito além de um teto para dormir. É sobre saúde, empregabilidade e a chance real de sair da vulnerabilidade. O nome Casinha vem exatamente desse sentido: a criação de um lar simbólico para quem muitas vezes não encontra esse espaço dentro da própria família.
Coluna da Neuza: Onde vocês atuam?
Douglas Lacerda, presidente em exercício: Não temos uma sede própria. Hoje, a Casinha funciona em parceria com o Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio). Nossa forma de atuar é descentralizada, criando redes de apoio. Já acolhemos cerca de 500 pessoas ao longo de oito anos.
Coluna da Neuza: Quais projetos vocês oferecem?
Douglas: O mais conhecido é o Cozinha Diversa, um curso de capacitação em gastronomia. Em seguida, temos o Rolezinho,que promove atividades culturais para acolhides, com visitas a cinema, teatro, museus e até o Rock in Rio.
Outro destaque é o programa de inclusão no mercado de trabalho, que, desde 2019, realiza a inserção dos beneficiários no mercado formal de trabalho. Também oferecemos a orientação social, que é o encaminhamento conforme necessidades individuais realizada pelo Grupo de Trabalho de Serviço Social.
Há ainda o atendimento às famílias, que consiste na integração do atendimento social e atividades específicas formuladas a partir de diagnósticos preliminares. Além disso, mantemos a distribuição de 90 cestas básicas mensais, destinadas a famílias LGBTI+ no Rio de Janeiro e Baixada Fluminense, desde maio de 2020.
Por fim, prestamos serviços para empresas com oferta do nosso banco de talentos LGBTI+ e realização de palestras educativas com foco sobre diversidade. A Casinha é mais do que aprendizado técnico: é abraço, é escuta, é esperança.
Coluna da Neuza: Pérola, como foi sua experiência no Cozinha Diversa?
Pérola Schumacher, 30 anos, beneficiária: Eu sou atriz e bartender, e o projeto me deu novas possibilidades. Foi um prazer enorme participar. Desde o início me senti respeitada e bem-quista, como se fosse um conto de fadas, mas na vida real.
Hoje, trabalho como auxiliar de confeiteira, que sempre foi meu sonho e, para mim, é só o começo de uma nova trajetória.
Coluna da Neuza: Jéssica, qual é o seu papel dentro da ONG?
Jéssica Ribeiro, assistente social: Sou a porta de entrada da Casinha. Atendo quem chega em situação de vulnerabilidade, identifico as necessidades e encaminho para nossa rede de projetos ou para serviços públicos. Também oriento sobre políticas públicas, como acesso ao Bolsa Família. Meu trabalho é garantir que cada pessoa tenha apoio adequado.
Coluna da Neuza: Douglas, qual o impacto do curso para os alunos?
Douglas: Muitos nunca tiveram uma formatura antes. Aqui eles estudam sem sofrer transfobia, sem violência. Recebemos relatos como: “a coisa que mais espero na minha semana é a aula do Cozinha Diversa”. Isso mostra o quanto a Casinha é um espaço de pertencimento.
Coluna da Neuza: Quais foram as maiores vitórias nesses oito anos?
Douglas: Só o fato de a Casinha ter resistido até hoje, já é uma conquista. Passamos por momentos de quase fechar, mas conseguimos apoio de artistas e da comunidade. Outra vitória é ver que as pessoas consideram o dia do curso o melhor da semana, que dizem que mudou suas vidas. Recebemos até presentes, como um bordado feito por uma aluna, gesto que simboliza carinho e pertencimento.
Coluna da Neuza: E quais são os principais desafios?
Douglas: Nossa dor maior é o recurso financeiro e a falta de voluntários. Queremos ampliar a atuação, oferecer bolsas de estudo em gastronomia, apoiar quem deseja cursar faculdade ou empreender. Nosso sonho é ser catapulta para que essas pessoas possam alçar voo, realizar conquistas
Coluna da Neuza: O que a Casinha representa para vocês?
Natalia: Para mim, é um lugar de transformação de vidas. Não só transformamos as vidas das pessoas, transformamos as nossas também.
Douglas: A sociedade muitas vezes nos desumaniza, não nos enxerga como gente. A Casinha é o contrário disso: é reconhecimento, é prova de que nossas vidas importam.
Pérola: Para mim, é magia na vida real, um espaço de acolhimento e de sonhos possíveis.
Jéssica: É um ponto de afeto, mas também de potência política. Acolher é cuidar das pessoas e lutar por direitos.
Coluna da Neuza: Quais são os projetos futuros?
Douglas: Queremos continuar expandindo. Cada pessoa que passa pela Casinha leva consigo não apenas aprendizado técnico, mas também dignidade. Nossa meta é lançar essas pessoas para o mundo, mostrar que podem sim estudar, trabalhar e realizar seus sonhos.
Coluna da Neuza: Para encerrar, como as pessoas podem apoiar a Casinha?
Douglas: Seguindo nossas redes sociais, divulgando nosso trabalho, sendo voluntário e contribuindo financeiramente. A cada ajuda, conseguimos ampliar nosso alcance e transformar mais vidas.
A Casinha é construída por muitas mãos, e toda mão amiga é bem-vinda.
Gostou dessa iniciativa?
Para doar, clique aqui.
Para mais informações, visite o perfil da Casinha no Instagram, no LinkedIn e Facebook. Ou escreva para o e-mail contato@casinha.ong
A Coluna da Neuza é parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência Sherlock Communications.





