Solidariedade que transforma: da inquietação à ação

impacto social em comunidades vulneráveis

Uma reflexão sobre o impacto social em comunidades vulneráveis e a experiência de quem transformou inquietação em ação concreta

No dia 27 de fevereiro foi celebrado o Dia Mundial das ONGs, organizações que, muitas vezes, são o coração pulsante das comunidades onde atuam. 

Em um mundo marcado por profundas desigualdades, são elas que trabalham em territórios onde o poder público não chega e onde o mercado não enxerga oportunidades, promovendo impacto social em comunidades vulneráveis.

As ONGs, sigla para Organização Não Governamental, são instituições sem fins lucrativos que atuam em defesa de causas sociais, ambientais, culturais, assistenciais e de direitos humanos. Não distribui lucro à sua diretoria ou fundadores e sobrevive, em grande parte, da força do voluntariado, doações, parcerias e editais públicos ou privados.

A ideia de reconhecer o papel dessas organizações ganhou força nas últimas décadas, com a consolidação do chamado terceiro setor. Embora não haja um criador oficial do Dia Mundial das ONGs, a data passou a simbolizar o reconhecimento da sociedade civil organizada como agente fundamental de transformação social. 

Movimentos globais de incentivo à doação e ao voluntariado também contribuíram para fortalecer essa cultura de valorização.

As ONGs ocupam espaços onde o Estado não atua com eficiência ou sensibilidade e desempenham um papel essencial na proteção dos direitos humanos, na inclusão social, no apoio a populações vulneráveis, na preservação ambiental, na promoção da cultura, no incentivo à educação e na inovação social. Muitas vezes, são a diferença entre a exclusão e a oportunidade.

No Brasil, o terceiro setor tem papel expressivo. Levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) apontam a existência de centenas de milhares de organizações da sociedade civil em atuação no país. Esse número revela não apenas a dimensão do setor, mas também a força da mobilização social brasileira.

Quando a inquietação vira ação

Mas os números não contam toda a história. Por trás de cada iniciativa social, formal ou informal, existe uma motivação, uma inquietação, uma decisão que muda realidades.

A minha começou em setembro de 2000, em uma comunidade da Zona da Leopoldina, no Rio de Janeiro, quando levei meu filho a um baile local, por insistência dele. 

O que vi naquela noite me causou profunda angústia: homens armados circulando com naturalidade, consumo de drogas ilícitas, luzes piscando, funk em volume ensurdecedor fazendo apologia à violência e ao sexo sem responsabilidade.

Nesse ambiente, estavam também adultos, adolescentes e crianças, pessoas comuns, todos dançando e se divertindo como se fosse algo normal.

Em um primeiro impulso, pensei, cheia de preconceito: “Como essas mães podem deixar essas crianças aqui?”. Em seguida, me ocorreu: “Claiton também está aqui”. E então veio a resposta: não havia outra opção na localidade.

Não era apenas sobre o baile, que faz parte da cultura de muitas favelas, mas sobre a ausência de alternativas. A maioria das pessoas não tinha condições de oferecer lazer ou cultura fora do território, inclusive eu.

Decidi fazer algo com foco nas crianças e adolescentes. Não para afastá-los do baile, mas para oferecer outras oportunidades, ampliar horizontes e possibilitar um olhar sob outro ângulo.

Foi assim que, em setembro de 2000, realizei a primeira ação que daria origem ao Centro Integrado de Apoio a Crianças e Adolescentes de Comunidades (CIACAC), formalizado em 2004.

A atividade inicial foi simples: uma visita com oito crianças ao evento “UERJ Sem Muros”, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Para todos, era a primeira vez dentro de uma universidade e, com exceção do meu filho, também a primeira experiência fora da comunidade. Foi transformadora.

A segunda ação foi assistir ao filme Tainá, durante o Festival de Cinema Nacional. Na terceira, levei o grupo à inauguração do Piscinão de Ramos. Todas essas atividades foram realizadas com as mesmas oito crianças. 

O passeio seguinte foi uma visita ao Centro Cultural Casa França-Brasil para ver a exposição “Rei Pelé”. Desta vez, eram 49 crianças e adolescentes, que estavam enlouquecidas, assustadas e felizes com a experiência.

Depois disso, não parei.

Esses passeios e visitas a centros culturais e instituições de lazer receberam o nome de “Um Olhar Sobre Outras Coisas”. Foi essa proposta que guiou a ONG por 15 anos. Ao ampliar repertórios e oferecer novas experiências, o projeto consolidou um trabalho consistente de impacto social em comunidades vulneráveis, mostrando que transformação começa pelo acesso.

Durante todo esse tempo, me esforcei para ampliar repertórios, proporcionar experiências, apresentar opções diversificadas, estimular ambições positivas e mostrar que era possível sonhar com um futuro diferente daquele que a sociedade, historicamente, projeta por meio da exclusão e invisibilização.

Ao longo desse período, mais de 2 mil crianças, adolescentes e alguns adultos foram atendidos pelo CIACAC.

Não posso deixar de agradecer o apoio de mais de 300 voluntários estrangeiros, além de brasileiros, e as parcerias com instituições europeias, de 2011 ao final de 2015, que foram fundamentais. O voluntariado doou tempo, energia e afeto. Sem eles, nada teria sido possível. Viabilizaram oficinas, atividades culturais, passeios, experiências educativas e, principalmente, presença constante.

Mas nem tudo foi vitória. Perdi quatro jovens para mortes violentas e precoces e cerca de dez meninos para o comércio ilegal de drogas. A maioria, porém, seguiu outros caminhos: ingressaram no ensino superior, viraram confeiteiros, um foi para a Marinha. Enfim, encontraram novas perspectivas profissionais, formaram famílias e seguem a vida. Ampliaram seus horizontes e passaram a acreditar que podiam escrever a própria história.

As perdas, no entanto, não diminuem o trabalho realizado, mas evidenciam a complexidade dos territórios onde se constrói o impacto social em comunidades vulneráveis, um processo que exige constância, políticas públicas e oportunidades reais.

É importante reconhecer que a vulnerabilidade não se resolve apenas com boa vontade ou assistencialismo. São necessárias políticas públicas estruturadas, segurança, educação de qualidade e oportunidades reais de inserção econômica.

Talvez a maior missão de uma ONG seja fazer alguém acreditar que pode ser mais do que aquilo que a sociedade lhe impõe.

Hoje, o CIACAC não está mais ativo, mas o legado permanece nas trajetórias transformadas. Permanece também em mim,  como prova de que uma inquietação pode se transformar em ação concreta. É dessa vivência que nasce o meu olhar para cada projeto que apresento aqui na Coluna da Neuza.

O Dia  Mundial das ONGs não é apenas uma data comemorativa. É um lembrete de que a sociedade civil tem poder de mobilização, de que cidadãos comuns podem provocar mudanças extraordinárias e de que solidariedade não é discurso, é prática.

Celebrar essa data é reconhecer cada voluntário, cada doador, cada educador social, cada fundador que decidiu agir.

Que possamos, cada um à sua maneira, encontrar uma causa, oferecer tempo, contribuir com recursos ou simplesmente apoiar iniciativas que acreditam em um país mais justo. Toda transformação começa com um questionamento e com a coragem de agir diante dele.

Ao olhar para trás, reconheço que nem todas as histórias tiveram o desfecho que eu sonhava. Houve perdas, limitações e momentos de profunda desesperança e impotência. Mas também houve conquistas silenciosas, horizontes ampliados e vozes que ainda ecoam na minha memória, pedindo por mais um passeio, mais uma aula, mais uma oportunidade. É nelas que escolho me ancorar. Porque, apesar de tudo, eu fiz. E quando fazemos com verdade, algo sempre permanece.

Para conhecer a história do CIACAC, visite o perfil no Facebook

A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.

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