O Instituto de Pesquisas e Culturas Negras celebra 50 anos de resistência com o IPCN Festival, no dia 30 de novembro, na quadra do Império Serrano, em Madureira, berço do samba
Neste mês da Consciência Negra, a Coluna da Neuza publica mais uma matéria dedicada à data. Para isso, fui até a sede do Instituto de Pesquisas e Culturas Negras (IPCN) para conversar com representantes da instituição, incluindo a presidenta em exercício.
Com a matéria abaixo, quero apresentar o Instituto e destacar a festividade que acontecerá no dia 30, em homenagem aos 50 anos de luta, glória e resistência da organização, um marco para o movimento negro brasileiro.
Ao entrar na sede do IPCN, no Centro do Rio de Janeiro, senti a presença dos ancestrais que habitam aquele espaço. O ambiente é acolhedor e carrega o cheiro da história. As paredes contam vidas de quem abriu caminhos para que pessoas negras, como eu, pudessem estar ali escrevendo, existindo e sonhando. As fotos revelam rostos conhecidos, alguns da época em que participei do Movimento Negro Unificado (MNU).
A seguir, convido vocês a caminhar comigo por essa história, em forma de conversa, com quem mantém viva essa chama de resistência.
Coluna da Neuza: O que é o Instituto de Pesquisas e Culturas Negras (IPCN)?
Márcia Glória, presidenta: O Instituto de Pesquisas e Culturas Negras é uma casa preta de resistência. Existimos desde 1975, foi fundado em plena ditadura militar, enfrentando um sistema que até hoje tenta negar direitos ao povo negro.
Se hoje conquistamos espaços na universidade, na política, na arte e no mercado de trabalho, isso tem muito a ver com os militantes que ajudaram a construir este lugar. Seguimos firmes para garantir dignidade, memória e condições reais de cidadania.
Não celebramos só o passado. Celebramos o movimento, o IPCN é vivo. Aqui é um espaço de luta política, educacional e cultural. Nosso público é formado majoritariamente por militantes e intelectuais do movimento negro em geral, mas o espaço é aberto a todos. E nosso objetivo é combater todas as formas de racismo existentes.
Coluna da Neuza: Quem fundou o IPCN?
Márcia Glória: Figuras como Abdias Nascimento, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento e outros nomes essenciais do pensamento negro brasileiro. Eles se insurgiram em um tempo perigoso para ser negro e ousado. Muitos militantes viveram perseguição política, tiveram que se esconder e alguns até saíram do país. Só essa história já diz o quanto este lugar é grande.
Coluna da Neuza: Hoje, que atividades a casa desenvolve?
Márcia Glória: Nossa atuação é ampla e intergeracional. Temos Capoeira Angola com a Mestra Cristina; grupos de teatro que ocupam nosso salão; o pré-vestibular social André Rebouças, projeto que já abriu as portas da universidade para centenas de estudantes; a Feira de Empreendedores Negros, que movimenta renda e valoriza saberes afro-brasileiros; e nossa Feira Literária, onde escritores negros e indígenas ampliam sua voz.
E lançamos recentemente o Curso de Letramento Racial, em que as aulas começarão em março do próximo ano. As inscrições estão abertas. Seguimos com pesquisas em parceria com professores, pesquisadores e universidades públicas.
Aqui, cultura e educação caminham juntas. A luta contra o racismo tem muitas frentes.
Coluna da Neuza: O que significa o Dia da Consciência Negra para o IPCN?
Márcia Glória: Durante décadas, o único marco oficial relacionado ao povo negro era o 13 de maio, uma data que romantiza uma falsa libertação. O 20 de novembro nasce das nossas mãos, da luta do movimento negro organizado.
Foi uma conquista suada. Primeiro foi feriado em alguns estados, hoje é uma data nacional. Mas não é dia de festa. É dia de lembrar que pagamos com sangue o direito de existir. Dia de reflexão, fortalecimento e compromisso com o amanhã.
“O Brasil, sem o povo negro, não seria nada”
Conversei com alguns participantes da organização, como Luana Dias, jornalista e colaboradora, que afirmou que o Instituto “faz parte da estrutura histórica do movimento negro no Brasil. É alicerce, é chão. Quem deseja uma sociedade mais justa precisa conhecer esta casa.”
Para Jurema de Araújo, professora aposentada, poeta e associada, “o IPCN é luta, vitória e memória. O Brasil precisa enxergar que, sem o povo negro, não seria nada.”
O diretor cultural Marcelo Dias, militante desde 1978, conta que entrou para a organização aos 17 anos, quando participou de uma peça de teatro em homenagem a Martin Luther King.
“De lá para cá, nunca mais saí. O IPCN esteve presente na Constituinte de 1988, lutando para incluir a criminalização do racismo, o reconhecimento das culturas afro-brasileira e indígena e o artigo 68, sobre direitos quilombolas.”
“O IPCN sempre uniu pensamento e rua. Denunciamos violações de direitos, construímos projetos de educação popular, pautamos políticas públicas. E seguimos porque ainda é necessário. O racismo está vivo e nós estamos mais vivos ainda.”
Ele ressalta que o sentimento pelo aniversário de 50 anos da instituição é de orgulho e responsabilidade. “Cada parede desse prédio tem suor, lágrima e esperança de quem lutou para que o povo negro tivesse direito de ser gente. Mas não ficamos presos ao tempo, agora estamos preparando os próximos 50 anos.”
Por fim, Márcia Glória dá mais detalhes sobre o IPCN Festival: “Será no dia 30 de novembro, a partir das 10h, na quadra do Império Serrano, território do samba e da negritude. Teremos MV Bill, Resenha Black Bom, Grupo Afro Agbara Dudu, Roda de Samba Cafofo de Iaiá, grupos de afoxé e samba de raiz, feira cultural de empreendedores negros e homenagem aos nossos mais velhos e às lideranças que fortalecem a educação e a cultura preta.”
Confira o endereço do festival
Quadra do Império Serrano — Rua Edgard de Romero, 114, Madureira, Rio de Janeiro.
Entrada gratuita.
Interessados em expor na feira cultural podem entrar em contato pelo telefone (21) 9 7978-8088 e falar com a Márcia Glória.
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Há vagas de voluntariado em áreas como biblioteconomia, contação de histórias, oficinas culturais, capoeira e para professores/oficineiros de danças africanas. Apoio financeiro também é sempre bem-vindo.
O IPCN fica na Av. Mem de Sá, 208 — Centro do Rio.
Para mais informações, siga o IPCN no Instagram e envie uma mensagem no direct.
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