Entre memórias e futuro: como o Cultura Urbana transforma o Curupaiti

protagonismo juvenil

No antigo espaço de isolamento do Curupaiti, projetos de educação, esporte e arte promovem inclusão, fortalecem o protagonismo juvenil e criam novas trajetórias para a infância e juventude da Zona Oeste carioca

Quando você atravessa os portões do antigo Hospital Colônia Curupaiti, em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro, percebe que ali convivem passado e futuro. O espaço que, em 1928, recebeu 53 pacientes com lepra, hoje chamada hanseníase, e se tornou referência nacional no tratamento da doença, atualmente abriga o Instituto Estadual de Dermatologia Sanitária (IEDS) e uma força viva de transformação social: o Instituto Cultura Urbana.

Instalado na comunidade formada no terreno que pertence ao hospital, o Cultura Urbana é uma organização da sociedade civil (OSCIP) que atua com crianças, adolescentes e jovens, promovendo educação, esporte, cultura, lazer, cidadania e fortalecendo o protagonismo juvenil nos territórios onde está presente.

A Coluna da Neuza esteve no local para conhecer a iniciativa e conta, nesta matéria, um pouco da história do projeto.

Do isolamento ao protagonismo juvenil

À frente do Instituto está Anderson Motta, 51 anos, produtor cultural e ator, cofundador da iniciativa ao lado de Guida Martins e Fabrício Silvestre. Ele ocupa a presidência da instituição desde de 2023.

Anderson conta que o projeto nasceu a partir de um grupo de teatro do qual fazia parte. “Ensaiávamos com crianças na comunidade do Jordão quando fomos convidados a ocupar um cine teatro abandonado no Curupaiti. A partir dali, ampliamos para oficinas de teatro, audiovisual e esporte. Quando buscamos formalização jurídica, entendemos que já éramos uma organização social.”

“Quando recebi o convite para a presidência do Cultura, foi a lembrança do meu pai, Adalberto Motta, que fez com que eu aceitasse. Ele desenvolvia ações sociais na comunidade do Jordão, ajudava crianças com reforço escolar e lazer. Quando formalizamos o Instituto, o primeiro endereço foi a nossa casa. Ali percebi que era uma missão de vida”.

A atuação do Instituto se concentra no contraturno escolar, no esporte, na arte, na formação cidadã e no fortalecimento comunitário. Anderson explica que são atendidas crianças e adolescentes entre 7 e 19 anos. “Entre eles, também temos participantes com deficiência cognitiva diagnosticada. Em menor número, atendemos jovens e adultos”.

Protagonismo que nasce no território

Foto: reprodução

Entre os principais projetos está o Jovem Visando o Futuro, voltado para reforço em português e matemática, além de oficinas de informática, empreendedorismo, saúde da mulher e arte e cultura.

Já o Pra Ellas utiliza o futebol feminino como ferramenta de empoderamento. O projeto trabalha não apenas o esporte, mas também a saúde feminina e a autonomia econômica.

Na área cultural, o Bora Batucar promove oficinas de percussão, dança afro e cultura urbana, em Jacarepaguá e no Morro da Babilônia, no Leme, Zona Sul do Rio.

“Nossas maiores conquistas estão na transformação de trajetórias, temos meninas que começaram no futebol conosco e hoje atuam profissionalmente. Uma delas joga na Grécia e outras seguiram carreira em diferentes estados brasileiros,”afirma Anderson

Aline Motta, irmã de Anderson, vive essa realidade de perto. Começou como voluntária, atuou como mobilizadora social e hoje também é percussionista do projeto Bora Batucar, além de coordenar todas as unidades do instituto.

Ela conta que o alcance da instituição vai “dos beneficiários diretos às suas famílias e à comunidade em geral”.

“Mesmo com dificuldades internas e externas, é muito gratificante fazer parte desse ciclo do bem, afirma ela.”

Anderson explica que os depoimentos de moradores e mobilizadores ajudam a medir o impacto concreto do projeto na vida das pessoas atendidas.

Eleonora da Silva, 66 anos, filha de ex-interno do antigo hospital, criada em orfanato e hoje voluntária, ajuda a dimensionar esse impacto: “O Cultura Urbana representa muito para mim. É uma instituição que ajuda e dá oportunidade. Sou muito grata.”

Marli Silva, moradora há 40 anos e conselheira consultiva, reforça: “Quando o Cultura chegou aqui, tirou muitas crianças da rua. Hoje, representa alegria.”

Entre os jovens, a percepção é semelhante, como relata Nalanda, 22 anos, mobilizadora:  “Meu papel aqui é mobilizar as crianças, apoiar professores e ajudar na parte administrativa. O Cultura Urbana é um transformador de vidas.”

O mobilizador social e futuro professor de jiu-jitsu Marco Vinícius, 30 anos, completa: “Dou oficinas para gerar confiança e segurança. A ideia é formar crianças para atuar dentro e fora do tatame. Aqui eu não só ensino, aprendo também. É uma troca. E a instituição, para mim, representa mudança de vida.”

Projetos como o Favela Ativa ampliam essa presença com atividades de recreação, futebol, vôlei, queimado e jiu-jitsu, de acordo com o interesse dos moradores.

O Instituto também promove ações pontuais, como o Sarau Cultural, o Boteco Cultural e o Cine Clube Urbano, fortalecendo a convivência comunitária e a expressão artística.

Formalizado em 2011, o Instituto atua hoje no Tanque (Curupaiti), na Praça Seca (Bateau Mouche) e no Morro da Babilônia, no Leme, sempre em parceria com lideranças locais.

Além disso, oferece acompanhamento psicológico, com encaminhamento à rede pública quando necessário.

Mas como o Cultura Urbana se sustenta? A resposta passa por criatividade e resistência. Um dos pilares de sustentabilidade é o Bazar Social, baseado na economia circular. A iniciativa vende, de forma online e presencial, roupas e objetos a preços populares, promovendo reaproveitamento, consciência ambiental e geração de recursos para atividades não contempladas por editais.

Os desafios, porém, são constantes. “Enfrentamos dificuldades na mediação de conflitos nos territórios onde atuamos e na sustentabilidade financeira”, explica Anderson.

“Os editais têm prazo, mas as necessidades da comunidade são permanentes. Isso exige reinvenção constante. E quando há situações de risco, as atividades são suspensas temporariamente, o que compromete a continuidade dos projetos. Ainda assim, o trabalho segue”, diz Anderson.

No fim das contas, o que sustenta o Instituto não é apenas o recurso financeiro, mas o propósito. “A essência da organização faz parte da nossa família e nossa família faz parte dela”, termina Anderson.

O Cultura Urbana se tornou uma ponte entre a história de isolamento que marcou o Curupaiti e uma nova narrativa baseada em oportunidade, dignidade e protagonismo juvenil.

Quer fazer parte? Saiba como ajudar!

Você pode se oferecer como voluntário nas áreas administrativa e financeira, comunicação, assessoria jurídica, serviço social, marketing ou no apoio à organização das doações captadas pelo bazar.

O horário é flexível, e a atuação pode ser presencial ou on-line, de acordo com a sua disponibilidade.

Siga o Instituto no Instagram e no Facebook e compartilhe essa ideia.

Acesse o Portal do Bazar Cultura Urbana e o Instagram.

Clique aqui para doar e, para mais informações, acesse o site.

A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.

Compartilhe esse artigo
Facebook
LinkedIn
X
WhatsApp
Telegram
Threads