Em sua 23ª edição, a Festa Literária Internacional de Paraty quebrou recordes de participação e destacou debates sociais, políticos e ambientais
A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) acontece desde 2003, reunindo grandes nomes da literatura nacional e internacional. Em sua 23ª edição, realizada de 30 de julho a 3 de agosto, o evento alcançou um número recorde de público: cerca de 34 mil pessoas participaram das atividades espalhadas pela cidade histórica. A edição deste ano homenageou Paulo Leminski, poeta, jornalista e escritor brasileiro, já falecido, cuja obra atravessa gerações com irreverência e lirismo.
Passaram pelos palcos da Flip nomes como Valter Hugo Mãe, Alice Ruiz, Marília Garcia, Sérgio Vaz, Cristina Rivera Garza, Ilan Pappé, Rosa Montero e Nei Lopes, trazendo reflexões profundas sobre literatura, política e sociedade.
Além da programação principal, o evento contou com casas parceiras, oficinas educativas, atividades para crianças, ações paralelas e estandes voltados a editoras independentes e negócios da economia criativa local.
As atividades aconteceram no centro histórico, mas também se espalharam por outros territórios da cidade. A Casa da Favela é uma das casas parceiras e que em seu terceiro ano de participação, foi um grande destaque, atraindo tantas pessoas que suas programações chegaram a lotar até a rua.
Há 25 anos, André Fernandes, idealizador e fundador da Agência de Notícias da Favela, sonhou com esse projeto. Ele acompanhou e vivenciou violações de direitos humanos e a ausência do Estado de perto, na favela onde morou, no Rio de Janeiro.
Desenvolvida a partir de vários parceiros, “o sonho da Casa Favela é um espaço onde a gente possa agregar editoras e autores das periferias brasileiras num local que é a maior festa literária do país. (…) A periferia tem o direito de estar aqui também. A favela tá contando sua história, ela deixa de ser só leitora para ser narradora.”
André lançou o livro Perseguindo um Sonho, onde conta a história da idealização da Agência de Notícias da Favela. Em entrevista ao Lupa do Bem, ele destacou que “estar na FLIP é isso, é dar visibilidade para a periferia.”

A organização do evento, em parceria com a Prefeitura de Paraty, adotou uma série de medidas para incentivar a participação da população local. Foram disponibilizados ônibus e barcos gratuitos saindo de 19 bairros e comunidades, além da instalação de bebedouros públicos, coleta seletiva de resíduos e substituição de plásticos por embalagens mais ecológicas.
Nos bastidores da festa, um programa de formação é significativo para cada edição: o Jovem Repórter da Flip, que capacita adolescentes e jovens para atuarem durante o evento como fotógrafos, editores, mediadores, auxiliares de produção, entre outras funções. Miranda, participantes do projeto há dois anos, compartilhou sua experiência, já que neste ano mediou uma conversa com os autores Raphael Montes e Mariana Salomão:
“A gente está numa festa literária então é difícil a gente não adquirir muito conhecimento ao longo disso. E no [programa] Jovem Repórter a gente aprende muita coisa: sobre vídeo, fotografia, áudio, marketing, redes sociais e como trabalhar com elas. Temos acesso à muitas mesas do auditório e de casas parceiras, sempre temos um estudo sobre o autor homenageado, então aprendemos muita coisa. Às vezes, eu vou na escola pós FLIP e estão falando de um assunto que eu aprendi na FLIP, então eu vou falar com convicção. Também me ajudou a perder a vergonha, porque eu era muito tímida.”

A força das articulações locais
A Flip também se consolida como um espaço de encontro entre diferentes territórios e coletivos, dando palco aos movimentos locais. A Casa de Poéticas Negras, organização que nasceu a partir de uma edição do evento, marcou presença promovendo debates e intervenções culturais. A iniciativa levou ao centro da programação autores negros, representantes de comunidades tradicionais e caiçaras, com o objetivo de promover o letramento racial, missão central do projeto.
Em relação às pautas ambientais, o Coletivo AMA (Ativistas pelo Meio Ambiente) garantiu ingressos para acompanhar o painel com a Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e participou da coletiva de imprensa.
Na ocasião, o coordenador de comunicação do coletivo, que atua em defesa das juventudes frente aos recentes conflitos territoriais e retrocessos ambientais, questionou como a Flip pode fortalecer, nas próximas edições, os debates sobre meio ambiente localmente.
Em resposta, o diretor artístico da Flip, Mauro Munhoz, afirmou:
“É uma questão muito delicada. Qualquer cidade que vive mais de 40% da sua receita do turismo gera problemas graves para o meio ambiente, e principalmente para o meio humano e cultural, não existe separação entre essas duas coisas. (…) Paraty não tem nem saneamento básico ainda. (…) A Flip foi inventada para dar visibilidade para isso. Mas a gente não vai parar de lutar, não vai deixar de fazer a nossa parte.”
Outro coletivo que esteve presente foi o Ocupa Paraty, formado por pequenos negócios locais. Os comerciantes montaram estandes com venda de comidas típicas, artesanatos, roupas e outros produtos que valorizam o território e fortalecem a economia da cidade.
Painéis e debates que importam
A 23ª edição da Flip foi marcada pela centralidade das questões políticas e sociais, com painéis que abordaram desde o racismo estrutural e as violências contra as mulheres até conflitos armados, disputas políticas e a agenda socioambiental.
O painel mais aguardado ocorreu na sexta-feira (1º), com a presença da ministra Marina Silva e mediação da jornalista Aline Midlej. Durante a conversa, foram destacados pontos importantes com relação à defesa das pautas climáticas. Marina foi aplaudida diversas vezes de pé e trouxe elementos da sua vida que emocionaram todo o público. Ela ainda revela a influência que a literatura teve em seus caminhos, começando por cordéis.
O lugar da floresta foi o tema da conversa, onde lamentou sobre os avanços do conhecido PL da Devastação (projeto de lei que enfraquece regras de proteção ambiental e pode facilitar o desmatamento) e dos ataques que recebeu recentemente, defendendo que é possível desenvolver sem destruir.
“Quando você mostra que o desmatamento caiu 46%, o agronegócio cresceu 15%, a renda per capita aumentou 11% e o emprego aumentou para uma situação de quase pleno emprego, qual é a conclusão que você chega? Não precisa destruir para crescer e se desenvolver.”
Por fim, ela defendeu que a COP 30 precisa resultar em um mapa de ações concretas voltadas a três temas principais: transição energética, acabar com combustíveis fósseis e financiamento climático.
Marina destacou que já sabemos o que precisa ser feito, mas que é necessário garantir uma transição justa e planejada. “Quando a gente não se prepara para mudar, a gente é mudado. E já estamos sendo mudados pelas mudanças climáticas. Emergências no sul, ondas de calor, queimadas.”
Diante da ameaça de construção de um hotel de luxo em uma área de proteção ambiental pertencente a comunidades caiçaras, a presença da ministra e a abertura para esse debate foram fundamentais para fortalecer a luta local e levá-la a instâncias mais altas de decisão.
Para ampliar essa mobilização, o Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT) organizou não apenas rodas de conversa, mas também um canoaço simbólico. A ação reuniu as comunidades locais de quilombolas, caiçaras e indígenas, para gerar visibilidade às pautas socioambientais e a luta pelos territórios, diante das milhares de pessoas presentes na cidade durante o evento.
[foto painel Marina]






