Tema dos Direitos Humanos ganha destaque na Conferência Ethos de 2025

Evento teve inscrição gratuita pela primeira vez e fez parceria com a cozinha da Ocupação 9 de Julho, do Movimento Sem Teto do Centro de São Paulo 

As empresas precisam assumir sua responsabilidade para acabar com a desigualdade social no Brasil. Esta foi a principal mensagem debatida no Festival Mais Direitos Humanos, da Conferência Ethos, que aconteceu nos dias 12 e 13 de agosto, em São Paulo. 

Em sua primeira edição, o festival reuniu professores, ativistas, organizações sociais e representantes do setor público e privado para refletir sobre governança corporativa e questões de equidade, meio ambiente e justiça.

Com painéis que abordaram desde o custo da desigualdade social até as implicações do trabalho do cuidado e a proteção dos defensores do meio ambiente, o festival mostrou como o empresariado afeta e é afetado pelas condições socioeconômicas da sociedade. 

Como apontou o professor e pesquisador do Insper, Michael França, “quanto maior a desigualdade social de um país, menor seu crescimento econômico”. Ele explica: “em uma sociedade desigual, a maioria das pessoas não consegue desenvolver suas potencialidades, dependendo cada vez mais do Estado. Isso tem um custo”. 

Pesquisador do tema, Michael reforça que o empresariado precisa se informar melhor sobre a importância das políticas públicas de inclusão e distribuição de renda. “Noto que ainda há muito preconceito contra essas políticas, como o programa do bolsa-família, por exemplo. Mas são elas que contribuem com o desenvolvimento da nação”, avisa. 

Os dados sobre desigualdade divulgados para a plateia são desanimadores. Segundo relatório da OXFAM Brasil, 63% da riqueza nacional está nas mãos de 1% da população. O levantamento também aponta que os 50% mais pobres detêm apenas 2% do patrimônio do país. 

No debate sobre as implicações do trabalho do cuidado, que acaba tirando muitas mulheres do mercado, e como as empresas podem contribuir para equidade de gênero, o professor Helio Santos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), lembrou que a pobreza no Brasil é feminizada e racializada: “as mulheres negras e indígenas são as grandes avós do Brasil e devem ser reconhecidas como tal. É preciso olhar para esta pauta como uma reparação histórica”, defende.

Cozinha da Ocupação 9 de Julho, do MSTC de São Paulo. Imagem: Maíra Carvalho.

Para Glaucia Marinho, diretora-executiva da Justiça Global, ONG de defesa e promoção dos direitos humanos, “as empresas vêm colocando os lucros acima da vida”. Ela também ressalta que precisamos fazer um debate honesto sobre democracia no Brasil. “A cidadania e o direito devem ser garantidos para todos. A democracia precisa ser plena.” 

A pergunta que se colocou repetidamente é: “Que sociedade queremos construir?”. Segundo Glaucia, não podemos mais continuar aderindo à narrativa do fim do mundo que se popularizou por conta das mudanças climáticas. “Se anunciamos o fim do mundo como certo, passamos a mensagem de que não adianta fazer mais nada. Mas acredito que ainda dá tempo de fazer alguma coisa.”  

Os especialistas convidados mostraram que nem tudo está perdido. Já existem, por exemplo, políticas corporativas que colocam a responsabilidade social no centro da governança empresarial para serem seguidas. “As empresas precisam devolver à sociedade todos os benefícios que usufruem dela”, ressaltou Luciana Nicola, do Itau-Unibanco.  

Rafael Miranda, da FECAP (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado), também defendeu que as empresas deveriam adotar indicadores-chaves de desempenho (KPI) focados em direitos humanos. “É preciso fazer a checagem dos riscos, escolhas mais responsáveis dos fornecedores, combater o assédio, implementar políticas de inclusão, etc.”  

O Festival Mais Direitos Humanos mostrou que existem meios para superar esses desafios, mas é preciso comprometimento para executá-los. Em sua 26º. edição, a Conferência Ethos deu um bom exemplo: ao garantir inscrição gratuita, popularizou o acesso e democratizou o debate. Além disso, o evento foi livre de plásticos e fará compensação de carbono. 

A parceria com a cozinha da Ocupação 9 de Julho, do Movimento Sem Teto do Centro de São Paulo (MSTC), também disseminou práticas de Responsabilidade Social Corporativa, mostrando que as escolhas fazem diferença. Os caminhos para a transformação foram apresentados. Agora, resta saber qual será a postura do empresariado daqui pra frente. 

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