Como a Toti Diversidade conecta refugiados ao mercado de trabalho em tecnologia no Brasil

 A diretora executiva, Bruna Amaral, explica como a organização transforma educação gratuita em inclusão produtiva e impacto social.

A inclusão produtiva de refugiados e imigrantes no Brasil ainda enfrenta desafios estruturais, mas iniciativas da sociedade civil têm mostrado que é possível transformar acolhimento em autonomia financeira. É o caso da Toti Diversidade, organização que atua na formação profissional gratuita e na conexão de migrantes com o mercado de trabalho, especialmente na área de tecnologia.

Fundada em 2017 como um projeto universitário, a Toti nasceu dentro do programa global Enactus e começou como uma iniciativa voluntária. “Eu sou uma das fundadoras e diretora executiva, Somos três cofundadores.”, explica Bruna Amaral. Segundo ela, a organização surgiu da combinação entre estudos em relações internacionais, pesquisa sobre empregabilidade de migrantes e a crescente chegada de pessoas vindas da República Democrática do Congo, Angola e Venezuela ao Brasil. 

Segundo dados do Censo do IBGE, de 2010 a 2022 houve um crescimento expressivo de imigrantes estrangeiros no Brasil, saltando de 592 mil para 1 milhão de pessoas. Dentro do mesmo período, a parcela de imigrantes latino-americanos foi de 183 mil em 2010 para 646 mil em 2022, com grande influência dos imigrantes nascidos na Venezuela (272 mil). 

Nos primeiros anos, o projeto funcionou como um laboratório social. A primeira turma, voltada à comunidade congolesa no Rio de Janeiro, teve oito participantes e uma formação de quase dez meses em introdução à tecnologia e desenvolvimento web. Parte dos alunos foi contratada após a conclusão do curso. Já na segunda turma, com pessoas de diferentes nacionalidades, todos os participantes conseguiram emprego em menos de 45 dias.

A escolha pela tecnologia foi estratégica. “Era uma área com alta demanda de contratação no mercado brasileiro e sem exigir  diploma universitário”, afirma Bruna. Muitos migrantes já possuíam formação superior, mas enfrentavam barreiras como a não validação de diplomas. A valorização do conhecimento técnico e das competências comportamentais abriu portas.

Com o amadurecimento da organização a partir de 2020, a Toti passou a estruturar sua atuação considerando dois perfis principais: migrantes recém-chegados, com até 12 meses no Brasil; e aqueles com mais tempo de residência. 

“A demanda de emprego para esse perfil é totalmente diferente”, explica Bruna. Enquanto os recém-chegados precisam de orientação básica sobre direitos trabalhistas e primeiro emprego, o segundo grupo busca crescimento de carreira e aumento de renda.

Hoje, além da tecnologia — com formações em desenvolvimento web, UX, análise de dados e linguagens como Python — a Toti também atua em áreas como marketing, vendas, teleatendimento e administração. A trilha educacional é combinada com mentoria de carreira, preparação para entrevistas, revisão de currículo e até apoio psicológico, conforme a expertise das empresas parceiras.

O modelo de sustentabilidade financeira da Toti está baseado na criação de produtos voltados às empresas. “Os programas são 100% gratuitos para refugiados e imigrantes. Para que isso seja sustentável, precisamos cobrar de alguma forma”, afirma a diretora. Assim, a ONG desenvolveu soluções que contribuem para relatórios de sustentabilidade e metas ESG corporativas, ao mesmo tempo em que geram impacto social mensurável.

Entre as iniciativas está o voluntariado corporativo, no qual colaboradores das empresas atuam como mentores. “Nós treinamos os colaboradores para serem mentores técnicos e de carreira, e avaliadores de currículo”, explica Bruna. O impacto é medido tanto no desempenho dos estudantes quanto no desenvolvimento dos próprios funcionários voluntários.

Apesar dos avanços, preconceitos ainda persistem. Um dos principais mitos diz respeito à documentação. “Muita gente acha que a pessoa não pode ser contratada porque não tem documentos. Mas com o CPF já é possível tirar carteira de trabalho”, esclarece. Segundo ela, a política migratória brasileira permite acesso a serviços públicos e formalização do emprego mesmo durante o processo de solicitação de refúgio.

Outra barreira comum é o idioma. No entanto, os dados internos da organização mostram o contrário do que muitos imaginam,  “73% da comunidade é trilíngue e mais de 50% fala inglês além do idioma nativo”, destaca Bruna. Para muitas empresas em processo de internacionalização, essa diversidade linguística se torna, inclusive, um diferencial competitivo.

Além da formação profissional, a Toti passou a investir também em projetos culturais por meio de leis de incentivo. O programa Acelera Toti promove feiras de talentos, workshops e manifestações culturais em diferentes cidades, conectando empregabilidade e valorização das identidades. A iniciativa já teve edições em Salvador e no Rio de Janeiro.

Olhando para o futuro, a meta é ambiciosa: impactar 10 mil pessoas até 2028. Após realizar sua primeira captação internacional com um fundo dos Estados Unidos, a organização planeja ampliar sua estrutura tecnológica e seus processos de mensuração de impacto. 

Para ela, o Brasil já demonstra potencial como país acolhedor, mas ainda há lacunas a enfrentar, como o combate ao racismo, à xenofobia e ao emprego informal entre comunidades migrantes. “Existem espaços de melhoria, e eu fico feliz que a Toti consiga ajudar nesse avanço”, conclui.

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