Instituto Guatá fortalece mulheres e atua no enfrentamento à violência de gênero em Cubatão

Violência de gênero: Instituto Guatá fortalece a autonomia feminina

Criada por seis mulheres, uma organização da Baixada Santista promove rodas de conversa, orientação sobre direitos e iniciativas voltadas à autonomia feminina

Fundado em 2024, no município de Cubatão, na Baixada Santista, litoral de São Paulo, o Instituto Guatá atua no enfrentamento à violência de gênero e no fortalecimento da autonomia de mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica. A organização desenvolve projetos educativos, rodas de conversa e outras atividades voltadas à defesa de direitos.

O trabalho acontece em um cenário em que a violência contra a mulher continua sendo um dos grandes desafios do país. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, o Brasil registrou 1.571 feminicídios em 2025, uma média de 4,3 mulheres assassinadas por dia. No mesmo período, outras 4.189 mulheres foram vítimas de tentativas de feminicídio.

Em Cubatão, o enfrentamento à esse violência contra a mulher também mobiliza o poder público. Em 2025, a prefeitura promoveu ações de capacitação para profissionais da saúde e da assistência social, além de fortalecer a rede municipal de atendimento a mulheres em situação de violência.

Uma das fundadoras do Instituto Guatá é Carolina Bovo, de 45 anos, paulistana, formada em Educação Física e pós-graduada em Saúde Mental. Durante 12 anos, trabalhou em uma instituição pública do estado de São Paulo, onde atuou com jovens em cumprimento de medidas socioeducativas com privação de liberdade. Começou como educadora física e, ao longo da trajetória, também assumiu funções de gestão.

Sua experiência no terceiro setor teve início como diretora executiva do Instituto Jurema. Em 2024, fundou o Instituto Guatá ao lado de outras cinco mulheres e, atualmente, ocupa o cargo de diretora-geral da organização.

Para conhecer melhor os projetos desenvolvidos, os desafios e as estratégias para fortalecer a autonomia feminina, a Coluna da Neuza conversou com Carolina Bovo. Saiba mais sobre o trabalho dessa instituição na entrevista a seguir.

Coluna da Neuza: O que é o Instituto Guatá e quem é o público atendido?

Carolina Bovo: Somos uma organização sem fins lucrativos que atende majoritariamente mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica de Cubatão, com foco na defesa de direitos e no enfrentamento às violências de gênero. Além desse público, temos uma parceria com a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP), por meio da qual desenvolvemos atividades em unidades prisionais, como por exemplo a Penitenciária de Tremembé.

Coluna da Neuza: Qual é o projeto mais atuante do Instituto no momento?

Carolina Bovo: Em Cubatão, é o Semeando Saberes, projeto formado por 12 encontros que abordam temas como saúde mental, resgate ancestral, ginecologia natural, violência contra a mulher e sexualidade. As atividades acontecem por meio de rodas de conversa. Dependendo do público e do espaço onde são realizadas, o número de encontros pode ser reduzido para cinco ou seis, com temas selecionados de acordo com as necessidades de cada grupo.

Coluna da Neuza: Como o projeto contribui para a autonomia das mulheres participantes?

Carolina Bovo: Nossa intenção é ajudar as mulheres a reconhecer diferentes formas de violência, que não se limitam à agressão física, mas também podem ser psicológicas ou envolver controle financeiro. Além de apresentar canais de apoio e proteção, procuramos fortalecer as redes de apoio nas comunidades. Para conseguir trabalhar, muitas mulheres precisam de alguém que ajude a cuidar dos filhos ou buscá-los na escola, por exemplo.

Essas redes podem contribuir para que tenham mais oportunidades de trabalho e geração de renda.

Coluna da Neuza: O Instituto também desenvolve projetos voltados para os homens?

Carolina Bovo: Sim. Atualmente, atendemos homens em privação de liberdade por meio do projeto Masculinidades em Transformação. Também utilizamos rodas de conversa, mas com o objetivo de refletir sobre os padrões de masculinidade impostos pela sociedade e como eles influenciam nos comportamentos e relações.

Coluna da Neuza: Como vocês ajudam as mulheres a enfrentar situações de violência?

Carolina Bovo: Procuramos criar um espaço onde elas possam falar e compartilhar suas experiências. Muitas vezes, ao ouvir o relato de uma participante, a outra percebe que está vivendo uma situação semelhante.

A partir dessa identificação, trabalhamos com orientações e mecanismos de proteção, oferecendo informações sobre canais de ajuda e instrumentos jurídicos. Isso pode envolver o registro de um boletim de ocorrência ou a solicitação de uma medida protetiva.

Coluna da Neuza: Você comentou sobre a importância de as mulheres conseguirem se abrir e compartilhar suas experiências. Por que isso é importante no processo de enfrentamento à violência? 

Carolina Bovo: É no sentido de conseguir se abrir, se expor. Ao longo dos anos, percebemos que muitas vítimas de violência sexual ou de outras formas de agressão sentem vergonha e acreditam que a culpa é delas. Algumas não conseguem contar nem para os próprios familiares o que estão vivendo.

Tentamos deixar claro que a vergonha não é da vítima, mas do agressor, que é o responsável pela violência.

Esse “se vulnerabilizar” significa ajudar a mulher a deixar de carregar essa culpa e encontrar coragem para falar. Contar o que aconteceu pode ser o primeiro passo para iniciar um processo de recuperação.

Quando começa a falar, muitas vezes ela se recorda de situações que estavam guardadas e a partilha dessas experiências pode trazer memórias à tona e ajudá-la a compreender melhor o que viveu.

Coluna da Neuza: Qual é a importância do projeto Semeando Saberes para as participantes?

Carolina Bovo: Quando iniciamos esse projeto, uma das primeiras coisas que explicamos foi: “não estamos aqui para dar palestras”. Nada contra; ações nesse formato podem ser maravilhosas, mas essa não é a nossa forma de trabalhar. Procuramos criar um ambiente horizontal, onde cada pessoa chega com sua história, sua família, sua cultura, o lugar onde cresceu, sua trajetória profissional e suas experiências.

Daí o nome. Todas nós deixamos um pouco de nós naquele espaço e levamos conosco o que foi compartilhado. A partir dessas trocas, buscamos ferramentas para lidar com situações como sobrecarga emocional, desigualdade de gênero, dificuldades de acesso ao mercado de trabalho, desigualdades sociais e raciais e questões relacionadas à população LGBTQIA+. 

São diferentes experiências que se encontram e procuram compreender as estruturas sociais que produzem desigualdades, buscando caminhos para mudar essas realidades.

Coluna da Neuza: Quais são hoje os maiores desafios do Instituto Guatá?

Carolina Bovo: Um deles é a captação de recursos, uma dificuldade que não é apenas nossa, mas do terceiro setor como um todo e até das organizações mais antigas.

Outro desafio é manter uma estrutura organizacional que permita às pessoas se dedicarem exclusivamente ao Instituto. Nem sempre conseguimos garantir a quantidade e a continuidade das atividades que gostaríamos, porque a limitação financeira dificulta a contratação e a manutenção de profissionais com dedicação exclusiva.

Coluna da Neuza: Como pessoas e empresas podem apoiar o Instituto Guatá?

Carolina Bovo: No nosso site existe um espaço para quem deseja se associar à instituição. Temos três modalidades de associação, incluindo a possibilidade de contribuir por meio do voluntariado, em áreas como advocacia, psicologia e outras, de acordo com a disponibilidade da pessoa interessada e algumas atividades podem ser realizadas de forma online.

Também aceitamos contribuições financeiras mensais de R$35, R$50 ou qualquer outro valor a partir de R$10, conforme a possibilidade de cada pessoa.

Estamos abertos a parcerias com empresas privadas interessadas em atuar como patrocinadoras. Também buscamos cooperação com outras organizações sociais e com o poder público para fortalecer nosso trabalho.

Coluna da Neuza: Para finalizar, de onde veio o nome Guatá?

Carolina Bovo: Guatá é uma expressão do tupi-guarani que significa caminhar, seguir e ir adiante.

Informação e diálogo no enfrentamento à violência de gênero

O trabalho do Instituto Guatá reforça a importância da informação e do diálogo para que mulheres possam reconhecer situações de violência, conhecer seus direitos e encontrar apoio para ir em busca de novos caminhos.

Promover reflexões sobre masculinidade, a instituição amplia essa discussão, mostrando que o combate às agressões e à discriminação de gênero exige a participação de toda a sociedade.

Para conhecer melhor ou apoiar a instituição, acesse o site do Instituto Guatá e acompanhe as atividades pelo Instagram, LinkedIn e YouTube.

Siga a Lupa do Bem no Instagram, Facebook e LinkedIn.

A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.

Compartilhe esse artigo
Facebook
LinkedIn
X
WhatsApp
Telegram
Threads