Associação em São Paulo combate bullying com ações de prevenção e acolhimento

Combate ao bullying

Fundada após a experiência de uma mãe com o bullying sofrido pela filha, a Poderia Ser Seu Filho oferece palestras gratuitas e atividades socioemocionais para escolas e comunidades

O bullying escolar continua sendo um desafio no Brasil. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 27,2% dos estudantes de 13 a 17 anos relataram ter sofrido provocações repetidas de colegas que os deixaram magoados, ofendidos ou humilhados. Em 2019, esse percentual era de 23%. Entre as meninas, o índice chegou a 30,1%, enquanto entre os meninos foi de 24,3%.

Celebrado em 20 de outubro, o Dia Mundial de Combate ao Bullying, reforça a importância da conscientização e do envolvimento de famílias, escolas e comunidades na prevenção dessa violência. 

Nesse contexto, a Associação Contra o Bullying na Idade Escolar Poderia Ser Seu Filho, sediada em Mairiporã, São Paulo, desenvolve ações de prevenção ao bullying, conscientização e acolhimento. O trabalho envolve estudantes, famílias, educadores e outros integrantes da comunidade.

A iniciativa foi criada por Cintia Rachas Ribeiro, cirurgiã-dentista que trabalhou durante 12 anos no Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP), onde atendia crianças e adolescentes com traumas dentários. A experiência profissional contribuiu para ampliar sua percepção sobre situações de violência contra crianças.

No entanto, foi a experiência da própria filha, vítima de bullying aos sete anos, que levou Cintia a buscar conhecimento sobre o tema. Após participar de uma capacitação oferecida por uma universidade na Finlândia, ela decidiu transformar a vivência familiar em uma iniciativa de apoio a outras crianças.

Para conhecer a trajetória da associação, seus projetos e os desafios no enfrentamento da violência escolar, a Coluna da Neuza conversou com a fundadora. Confira.

Coluna da Neuza: Como surgiu a associação Poderia Ser Seu Filho?

Cintia: Tudo começou com reclamações de mães da escola da minha filha. Algumas crianças apresentavam sintomas como dores de cabeça, problemas de estômago e resistência para frequentar as aulas. As famílias procuravam ajuda, mas nem sempre eram ouvidas.

Minha filha também começou a sofrer bullying. Ela era uma criança alegre, gostava de dançar, mas passou a ser isolada pelos colegas. Um dia, me contou que uma criança havia dito que odiava sua alegria.

Procurei a escola, o Conselho Tutelar e outras instituições, mas não encontrei o apoio necessário. Comecei a estudar sobre o assunto e fui acolhida por uma universidade na Finlândia, onde fiz uma capacitação. Lá, conheci um trabalho que envolvia toda a comunidade escolar, dos professores aos funcionários. Percebi que precisava trazer esse conhecimento para outras famílias.

Começamos com algumas mães e meu esposo. Depois, buscamos formalizar a associação para ampliar nossa atuação. O trabalho nasceu de uma dor que eu já acompanhava em outras famílias e que também chegou à minha casa.

Coluna da Neuza: Quais são as principais atividades da associação e quem pode participar?

Cintia: Nosso principal trabalho é de conscientização e prevenção. Oferecemos palestras gratuitas e trabalhamos por setores, com orientações específicas para professores, funcionários, famílias e estudantes, respeitando as diferentes faixas etárias. Também desenvolvemos semanalmente um projeto mais intenso em uma escola, com atividades socioemocionais, voltadas principalmente para a empatia.

Nosso atendimento não se limita às escolas. Trabalhamos com comunidades, projetos sociais e outros grupos que precisam compreender e enfrentar situações de bullying. Adaptamos as palestras à necessidade de cada público.

Coluna da Neuza: Como diferenciar um conflito comum de uma situação de bullying?

Cintia: O bullying apresenta três características principais: é intencional, repetitivo e envolve desequilíbrio de poder. Por exemplo, duas crianças disputam um brinquedo. Se um adulto intervém, conversa com elas e resolve a situação, temos um conflito comum.

Mas, quando uma criança passa a impedir repetidamente a outra de brincar, usando sua força ou influência sobre os colegas, podemos estar diante de bullying.

É importante que os adultos saibam identificar essas situações e intervir antes que se agravem.

Coluna da Neuza: Quais sinais indicam que uma criança pode estar sofrendo bullying?

Cintia: Mudanças de comportamento são sinais importantes. A criança pode ficar agressiva, se isolar, apresentar ansiedade, dores de cabeça, enjoos, queda no rendimento escolar ou resistência para ir à escola. Pode deixar de falar dos amigos, aparecer com hematomas ou ter materiais escolares danificados.

Os pais precisam observar essas mudanças e manter uma comunicação aberta. Muitas crianças têm vergonha ou medo de contar o que acontece, principalmente por receio de sofrer represálias.

A família e a escola devem oferecer uma escuta segura, sem culpabilizar a vítima. Quando a criança se sente acolhida, começa a encontrar forças para enfrentar a situação.

Coluna da Neuza: Como funciona a capacitação de professores e funcionários?

Cintia: Nosso objetivo é fazer com que toda a comunidade escolar saiba identificar e interromper situações de bullying. Muitas agressões acontecem em lugares com pouca supervisão, como banheiros, corredores, áreas próximas às quadras e saídas das escolas. Por isso, não basta capacitar apenas os professores. Porteiros, funcionários da limpeza, cuidadores e outros profissionais também precisam estar atentos.

Trabalhamos ainda com conselheiros tutelares, ajudando a diferenciar conflitos comuns de situações de intimidação sistemática. O mais importante é que todos compreendam sua responsabilidade e contribuam para tornar o bullying inaceitável naquele ambiente.

Coluna da Neuza: Quais são os principais desafios para combater o cyberbullying?

Cintia: O cyberbullying ultrapassa os limites da escola. A violência pode continuar nas redes sociais, nos aplicativos e nos jogos, mesmo quando a criança está em casa. Muitas vezes, os pais acreditam que o filho está tranquilo porque permanece quieto usando o celular. Mas ele pode estar sofrendo agressões virtuais e não conseguir pedir ajuda.

É fundamental acompanhar o uso da tecnologia, estabelecer limites e manter o diálogo. Também precisamos fortalecer a parceria entre família e escola, porque uma situação que começa na internet durante o fim de semana pode chegar à sala de aula na segunda-feira.

Coluna da Neuza: A criminalização do bullying e do cyberbullying trouxe mudanças?

Cintia: A lei é importante, mas, sozinha, não resolve o problema. A mudança acontece quando as pessoas compreendem a gravidade da situação e suas responsabilidades. Durante as palestras, percebemos que alguns profissionais passam a prestar mais atenção quando entendem que existem consequências legais. Mas nosso objetivo principal é prevenir. Precisamos criar ambientes onde as crianças possam falar, ser ouvidas e receber apoio antes que a situação se agrave. 

O bullying pode deixar marcas que acompanham a pessoa durante muitos anos.

Coluna da Neuza: Que resultados do trabalho da associação você destacaria?

Cintia: Temos uma experiência muito positiva com uma escola particular que acolheu nossa proposta. Realizamos atividades socioemocionais a cada três meses, envolvendo arte, conscientização, responsabilidade e empatia. A escola tem uma turma de 24 alunos e percebemos uma melhora importante no respeito e na colaboração entre eles.

Uma professora contou que duas meninas estavam preocupadas com uma colega que usava muita maquiagem. Em vez de criticá-la, decidiram conversar com ela, com a orientação da professora. As crianças organizaram uma ação juntas, respeitando as preferências da colega. Uma situação que poderia gerar apelidos e exclusão se transformou em acolhimento.

Para mim, esse exemplo mostra a importância de trabalhar a empatia desde cedo. Mas é um processo contínuo, que precisa do envolvimento dos educadores.

Coluna da Neuza: Quais são os principais desafios e próximos passos da associação?

Cintia: Nosso primeiro desafio é a resistência de algumas escolas e famílias em reconhecer que existe um problema. Muitas instituições têm dificuldade de aceitar que precisam de ajuda. O segundo desafio é financeiro. Precisamos de recursos para materiais, transporte dos voluntários e realização dos projetos. Recebemos poucas doações e isso nos leva a arrecadar dinheiro com a venda de bolos e brigadeiros. 

Coluna da Neuza: Quais são as conquistas recentes e os próximos projetos da associação?

Cintia: Recentemente, conseguimos nosso registro no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, uma conquista muito importante.

A curto prazo, queremos ampliar nossa participação em outros conselhos e desenvolver novos projetos. Estou trabalhando também em uma proposta para desenvolver a empatia, a responsabilidade e outras qualidades nas crianças, com práticas simples que os professores possam aplicar em sala de aula.

Tudo isso faz parte de um compromisso que nasceu da minha própria experiência como mãe. Não quero que outras famílias passem pelo que vivi. Por isso, quero levar conscientização e prevenção a todos os lugares onde for possível.

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A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, associação sem fins lucrativos da Sherlock Communications.

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