Representatividade importa: vozes plurais ocupam a Bienal do Livro

Representatividade na literatura

Autores, coletivos e participantes contam para o Lupa do Bem como a representatividade na literatura, em suas diferentes formas, faz a diferença no cenário literário

Realizada de 13 a 22 de junho, no Rio de Janeiro, a 22ª edição da Bienal do Livro foi marcada por uma programação vibrante, que incluiu sessões de autógrafos, presença de influenciadores, brindes, lançamentos, rodas de conversa com autores nacionais e internacionais, além de experiências interativas, como uma roda-gigante temática e desafios em um escape room.

Mais do que um evento literário, a Bienal se firmou como um grande festival de cultura e entretenimento. Com atividades voltadas para todas as faixas etárias, o evento atraiu um público diverso, com interesses distintos. Seja para sessões de autógrafos, conversas com escritores, compras de livros ou excursões educativas escolares, esta edição alcançou um nível recorde de participantes. 

A força da Bienal do Livro se torna ainda mais relevante diante de um cenário preocupante. A pesquisa Retratos da Leitura, em sua última edição de 2024, apontou que o Brasil conta com cerca de 93,4 milhões de leitores, uma queda de quase 7 milhões em relação a 2019. Em tempos marcados por baixos índices de leitura no país, eventos como este podem fazer toda a diferença, transformando as experiências do público relacionadas à leitura.

O cenário é complexo, pois, segundo a pesquisa, “se considerarmos somente livros inteiros lidos no período de três meses anteriores ao levantamento, o percentual de leitores é ainda menor, de 27% dos brasileiros”.

“Eu vim pra Bienal ansiosa, esse é meu segundo dia. Estou muito feliz de ver o número de pessoas que a gente está encontrando aqui. E eu confesso que não esperava. Por conta dessa coisa toda de internet, as pessoas estão abandonando o hábito de ler”, conta Tânia Luna em conversa com o Lupa do Bem

A assistente social de 60 anos complementa: “na sexta-feira, eram muitos ônibus escolares, então você percebe assim o estímulo dos professores, trazendo os alunos. Mas hoje, as pessoas estão aqui espontâneamente, estão porque querem.” 

Representatividade na literatura

Um dos tópicos de destaque no evento foi a representatividade na literatura, abordada tanto em palestras quanto pelos próprios stands. O conceito de representatividade diz respeito a uma forma de inclusão que permite você se reconhecer a partir da vivência do outro. Nesse processo, vozes historicamente marginalizadas passam a ocupar espaços antes negados, assumindo papéis de referência e inspiração para diferentes grupos sociais. 

Aimee Oliveira, autora presente no evento afirmou para o Lupa do Bem que “quando eu era adolescente não via isso nos livros que pegava pra ler, então fico muito honrada de poder fazer isso, talvez com uma pessoa mais nova, que não vai ter a mesma experiência de leitura que eu.”

Dessa forma, o evento contou com uma grande quantidade de editoras e até autores independentes, que buscam contar suas histórias, trazendo suas vivências para aproximar o leitor de realidades do país. 

Aimee Oliveira. Foto: Rebeca Souza

Aimee Oliveira,  em entrevista durante o lançamento do seu livro “Recalculando a rota”, destacou a importância da literatura, pois deseja que “mais pessoas conheçam essa realidade, mas também nós que moramos em lugares que nem sempre são retratados, entender que a nossa realidade é sim importante, que ela pode ser poética, divertida e não é só a zona sul que importa. (…) Eu tenho recebido mensagens dos leitores, falando como isso gera uma identificação neles, então fiquei muito feliz”, completou a escritora publicada pela VR Editora.

Literatura em diálogo com o mundo

As palestras contaram com grandes nomes como Ailton Krenak, Thiago Torres (Chavoso da USP), Conceição Evaristo Leandro Karnal, Chimamanda Adichie e Dráuzio Varella, entre dezenas de outros participantes, onde abordaram questões sociais, raciais, econômicas e ambientais a partir do viés literário, reforçando a importância da representatividade na literatura como ferramenta de reflexão e transformação

Ao rodar pelo evento, foram descobertas também editoras temáticas. A causa LGBTQIAPN+ foi representada e contou com autoras disponíveis para conversas e autógrafos de livros publicados. Paula Prata, escritora do livro “O Silêncio da Noite”, publicado pela editora Se Liga, também foi entrevistada pelo Lupa do Bem

Paula nos contou que suas histórias são baseadas em experiências pessoais. Bissexual e moradora do bairro Praça Seca, subúrbio do Rio de Janeiro, ela compartilhou como a escrita sempre esteve presente em sua vida: “Eu escrevo desde os meus 10 anos de idade, desde muito novinha e sempre foi uma coisa de colocar pra fora aquilo que eu sentia e aquilo que eu vivia. Com certeza um grande canal para você virar escritor, é você ler muito.”

Paula Prata. Foto: Rebeca Souza

Protagonismo nos espaços culturais

O setor público também se fez presente. Em uma roda de conversa da Casa da Leitura e do Conhecimento, promovida pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do estado do Rio de Janeiro, o Fórum de Pessoas com Deficiência de Belford Roxo participou ativamente. 

Na conversa, os participantes do Fórum trouxeram suas experiências, abordando questões como acessibilidade e o acesso aos espaços culturais a partir de uma perspectiva mais ativa, já que o coletivo conta com todas as vertentes artísticas, desde a literatura até o rap. A roda de conversa contou com membros do grupo que apresentaram o projeto Sarau Bilíngue Eficiente, que acontece desde 2023 e conta com mais de 30 artistas.

Uma das representantes, Márcia Joviano, afirmou durante a conversa que “o coletivo é feito de pessoas que querem um mundo melhor para todos. E buscamos qualidade de vida, acessibilidade cultural, para que [pessoas com deficiência] não sejam somente mero espectador, mas também protagonistas, estar no palco se apresentando. Chegar e ocupar espaços como esse é algo bem difícil.”

Dessa forma, a representatividade se mostra essencial para que pessoas de diferentes culturas, vivências, realidades e perspectivas possam se enxergar nas histórias que leem. Ao se reconhecerem em personagens e narrativas, criam-se conexões que ampliam visões de mundo e despertam o sentimento de pertencimento, onde a sua voz tem espaço para ser ouvida. 

Mais do que se reconhecerem nas páginas, essas pessoas, ao contarem suas próprias histórias, também promovem a empatia e quebram estereótipos, ocupando lugares onde precisam estar presentes. 

As participantes também contam que o incentivo à leitura surgiu principalmente no ambiente escolar, por meio de atividades e concursos de redação. “Eu moro em São Gonçalo, então não é tão perto. Uma criança não é capaz de vir pelos seus próprios meios. Mas eles [os professores] sempre organizaram essas idas a Bienal, fazem concursos de poesia e de escrita”, conta Aimee.

Bienal do Livro: resistindo a momentos históricos

Com o apoio de grandes patrocinadores, a Bienal do Livro se consolidou como um marco literário para ambas as cidades onde é realizado, se destacando ainda mais a cada edição. No Rio de Janeiro, o evento acontece desde 1983, atravessando diferentes fases do cenário da leitura no Brasil atravessando diferentes fases do cenário da leitura no Brasil – sempre refletindo, também, as transformações sociais e a crescente valorização da representatividade na literatura.

Essas quatro décadas foram marcadas por momentos históricos e culturais como “o fim do governo militar e redemocratização do país, os planos econômicos e as trocas de moeda, a ampliação da telefonia e a febre do celular, a modernização das formas de fazer e vender livros, a abertura de mercado para produtos importados, o surgimento do e-book, entre muitos outros marcos de definição do cotidiano. A Bienal foi espelho para tudo isso”, destaca o site do evento.

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