Casa de Cultura JPA: o Sertão Carioca que resiste e fortalece a cultura local

Entre memória, pertencimento e desenvolvimento local, a Casa de Cultura JPA fortalece a identidade do território, resgata a memória do Sertão Carioca e reposiciona Jacarepaguá como potência cultural do Rio

Muito além dos condomínios, centros comerciais e vias movimentadas, Jacarepaguá carrega uma das histórias mais ricas e diversas da cidade. Conhecida como parte do antigo “Sertão Carioca”, a região preserva raízes indígenas, heranças quilombolas, tradições culturais e uma memória afetiva que atravessa gerações. 

Em meio a esse cenário de resistência e valorização territorial, a Casa de Cultura JPA vem se consolidando como um importante espaço de preservação da identidade local, formação cidadã e desenvolvimento cultural comunitário. 

Em entrevista à Coluna da Neuza, Alexandra Gonzalez, gestora da instituição, fala sobre os desafios, conquistas e o futuro da cultura em Jacarepaguá.  Confira.

Coluna da Neuza: A Casa de Cultura de JPA nasceu como uma iniciativa social e comunitária. Qual foi o principal propósito no início e como ele evoluiu até hoje?

Alexandra Gonzalez: A Casa nasce de um incômodo muito claro: Jacarepaguá sempre foi um território riquíssimo em cultura, história e potência criativa, mas completamente invisibilizado nas políticas públicas e na narrativa oficial da cidade.

O propósito inicial era simples, mas muito potente: criar um espaço de resgate da memória, difusão dos nossos patrimônios e valorização da nossa identidade.

Hoje, isso evoluiu para algo muito maior. A iniciativa se consolidou como um centro de memória e formação cidadã a partir da educação patrimonial e de articulação territorial. Não trabalhamos somente com programação cultural, mas também com desenvolvimento local e construção de políticas públicas, sempre a partir da cultura.

Coluna da Neuza: Vocês trabalham muito com a valorização do chamado “Sertão Carioca”. Por que essa identidade é importante?

Alexandra Gonzalez: Porque o “Sertão Carioca” revela um Rio de Janeiro que foi apagado e que precisa voltar a ser visto. Quando a gente fala em Rio, a imagem dominante é a orla, o cartão-postal. Mas existe um outro Rio que é profundo, ancestral, ligado à terra, à presença indígena, à cultura negra e às resistências que construíram esse território.

Assumir essa identidade hoje é um ato político e cultural. É dizer, esse território tem história, tem valor e futuro. E, ao mesmo tempo, é reconstruir o orgulho local. Porque muita gente ainda não reconhece essa riqueza. O que a gente faz é justamente isso: reconectar as pessoas com o lugar onde vivem, para que elas valorizem, cuidem e defendam.

Coluna da Neuza: Que transformações concretas vocês já perceberam na vida dos moradores de Jacarepaguá a partir das atividades culturais oferecidas pela Casa?

Alexandra Gonzalez: A principal transformação é subjetiva, mas extremamente poderosa, que é o fortalecimento do pertencimento.

A gente vê isso nos jovens que passam a se reconhecer como parte de uma história, em moradores que redescobrem o próprio bairro, em empreendedores que começam a enxergar a cultura como oportunidade para captação de recursos.

Existem também impactos concretos como formação de mediadores culturais, geração de renda através de feiras e eventos, circulação de pessoas no território, fortalecimento de redes locais. A cultura, quando bem trabalhada, vira motor de desenvolvimento e é isso que a gente vem construindo.

sertão carioca
Foto: reprodução

Coluna da Neuza: A Casa reúne desde exposições, saraus, oficinas e eventos gastronômicos. Como vocês definem essa curadoria tão diversa?

Alexandra Gonzalez: A nossa curadoria parte de um princípio simples que é: o território é diverso, por isso, a programação precisa acompanhar essa diversidade.

Não trabalhamos com uma lógica elitizada de cultura, para nós Cultura é memória, arte, comida, música. É encontro.

Tudo que fazemos dialoga com três pilares e são eles: identidade, pertencimento e desenvolvimento local. Se uma atividade fortalece esses três pontos, ela faz sentido dentro da Casa.

Coluna da Neuza: Projetos como rotas culturais e experiências guiadas mostram um olhar para o turismo local. Vocês acreditam que Jacarepaguá pode se consolidar como um polo turístico-cultural?

Alexandra Gonzalez: Não só acredito, afirmo com segurança, o bairro já tem todos os elementos para isso. O que falta não é potencial e sim estrutura e reconhecimento. É política pública, portanto.

Estamos falando de um território com memória indígena, patrimônio colonial, quilombos, natureza, cultura viva e produção criativa pulsante. Poucos lugares no Rio concentram tanta diversidade. O turismo de base comunitária é o caminho mais inteligente para esse desenvolvimento, porque ele gera renda local, preserva a memória e distribui oportunidades.

Se houver investimento e articulação, Jacarepaguá pode se tornar uma das experiências culturais mais autênticas da cidade.

Coluna da Neuza: Em um cenário onde muitas iniciativas culturais enfrentam dificuldades, quais são os maiores desafios para manter um espaço aberto, ativo e acessível à população?

Alexandra Gonzalez: O maior desafio é a sustentabilidade. Manter um espaço cultural ativo, gratuito ou acessível, sem apoio contínuo, é um esforço enorme. Além disso, existe um problema estrutural: muitas políticas públicas são criadas, mas não são implementadas. Falta regulamentação, falta orçamento, falta continuidade. Vivemos muito mais de resistência do que de apoio estruturado e isso precisa ser mudado.

Coluna da Neuza: O “Passaporte Sou+JPA” propõe uma experiência interativa com o território. Como surgiu essa ideia e qual tem sido a resposta do público?

Alexandra Gonzalez: O Passaporte surgiu da vontade de transformar a experiência cultural em algo contínuo e envolvente. Não queríamos que a pessoa visitasse a Casa uma vez e fosse embora. Queríamos que ela se conectasse com o território, explorasse, voltasse, se reconhecesse nesse processo.

E, nesse processo, a resposta tem sido muito bonita, especialmente com jovens e famílias. Ele cria uma relação afetiva com o território, quase como um jogo, mas com um impacto real de aprendizagem e pertencimento.

Coluna da Neuza: Quais parcerias têm sido fundamentais e o que vocês ainda desejam construir nos próximos anos?

Alexandra Gonzalez: Temos parcerias muito importantes com instituições culturais, coletivos locais, escolas e a comunidade. Mas, mais do que nomes específicos, o que sustenta o nosso trabalho é a construção em rede. 

Para os próximos anos, o nosso foco é estruturar de forma mais robusta o Polo Cultural e Criativo de Jacarepaguá e consolidar o território como referência em turismo cultural de base comunitária.

E, claro, avançar na regulamentação do Corredor Cultural e Turístico de Jacarepaguá, que já é lei, mas ainda precisa sair do papel.

Conheça mais sobre o Sertão Carioca

Mais do que um espaço cultural, a Casa de Cultura JPA se tornou um ponto de encontro entre memória, arte, educação e transformação social. Em tempos em que iniciativas independentes seguem resistindo pela força da comunidade, prestigiar projetos como esse é também valorizar a história e o futuro do local. 

Para conhecer a programação, participar das atividades e descobrir as riquezas do Sertão Carioca, basta acessar o site oficial da Casa de Cultura JPA e viver essa experiência de pertencimento ao vivo.

Para terminar, Alexandra deixa um recado aos leitores da coluna, em especial aos que ainda não conhecem a instituição:

“A visita ao Centro de Memória da Baixada de Jacarepaguá, dentro da Casa, é imperdível. Ali você entenderá que o bairro não é só um lugar, é uma narrativa viva, cheia de camadas, histórias e significados. É uma experiência que muda o olhar e, quando muda o olhar, muda a relação com o território.”

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A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.

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