Das telas da Baixada Santista para o mundo: conheça o instituto que forma jovens da periferia para indústria do cinema

Oficinas do Instituto Querô já impactaram mais de 12 mil jovens; ONG tem levado talentos para as maiores produtoras de cinema do país

Nascido na região portuária de Santos, o escritor Plínio Marcos é conhecido mundialmente por sua literatura marginal. É dele o romance “Querô, uma reportagem maldita”, de 1976, adaptado para o cinema em 2007 e que narra a história de Querô, filho de uma prostituta da beira do cais que morre embriagada por querosene enquanto ele ainda é bebê –  daí o nome. 

O Instituto Querô herdou o nome do filme, mas em nada se assemelha com a trágica história do seu protagonista. Pelo contrário. A iniciativa vem garantindo a oportunidade para centenas de jovens da Baixada Santista. Fundado em 2006, o instituto promove oficinas de cinema e capacitação no audiovisual para jovens das escolas públicas de Santos, São Vicente, Cubatão e Praia Grande, no litoral sul de São Paulo. 

Tudo começou em 2004 quando o diretor do filme, Carlos Cortez, resolveu rodar o longa com jovens que não fossem atores. Para isso, a Gullane Entretenimento, produtora do longa, realizou junto com o diretor, uma busca de talentos nas periferias da Baixada Santista. Dos 1. 200 testes, 40 jovens foram escolhidos e preparados para atuarem no filme. 

“Quando acabou, ficamos com essa molecada, superpotente, querendo mais. Então criamos um projeto junto à UNICEF para eles virarem realizadores audiovisuais, porque as oportunidades de trabalho seriam maiores”, recorda-se Tammy Weiss, coordenadora e uma das fundadoras do Instituto Querô.

E assim, ano a ano, o drama de Querô vai sendo substituído por meninos e meninas talentosos que participam de estreias no cinema, vêem seus filmes no streaming e atuam em produtoras nacionais e internacionais. “Um dos jovens formados pelas Oficinas Querô participou da produção do Ainda Estou Aqui”, orgulha-se Tammy.   

Jovens atuam na indústria do cinema. Imagem: reprodução Instituto Querô.

Os jovens e a indústria do cinema

Nesses quase 20 anos de atuação, o Instituto Querô produziu cerca de 500 filmes, promoveu oficinas de cinema com quase 12 mil alunos da rede pública, capacitou 630 jovens no audiovisual e indicou mais de 1.300 profissionais para vagas de trabalho na indústria do cinema. Como resultado, já acumulou 120 prêmios durante todo esse período. Sócrates e Andor, os últimos longas-metragens produzidos pela Produtora Querô, rodaram mostras de cinema nacionais e internacionais.  

Em um país que não dá o devido valor à sua própria indústria de cinema, esses números são um alento. Por aqui, a política de audiovisual muda a cada governo, tornando a produção cinematográfica um desafio constante. 

“O cinema nacional talvez seja um dos segmentos artísticos mais afetados pelas constantes rupturas de programas e políticas públicas ao longo dos anos. Quando uma nova gestão começa a estruturar avanços, logo vem outra e muda tudo. São muitas retomadas do cinema brasileiro”, explica Tammy. 

Mas o cinema é um mercado que tem potência, continua a coordenadora. “Quando uma cidade conta com sua própria Film Comission (Comissão fílmica), ela não só fortalece o setor audiovisual, como também impulsiona o turismo e movimenta a economia local. O cinema é geração de emprego, é registro cultural, é memória – é a história de um povo. É por meio dele que se tem a chance de mostrar ao mundo o seu país, a sua vida, a sua cultura.”  

Filmagem de Querô. Imagem: reprodução.

Histórias de impacto

Quem trabalha com cinema sabe bem o poder que tem uma narrativa e para a juventude, esse é um campo com infinitas possibilidades. Para Tammy, a transformação gerada pelo audiovisual é notável. “Essa transformação não é só um lugar de fazer cinema, contar suas histórias, falar dos territórios. É também de autodefinição enquanto indivíduo, enquanto ser humano.”

Ela enfatiza que a equipe do instituto faz chuvas de ideias, pitching de roteiro, mas são os próprios jovens que definem as histórias que vão contar. “Muitas vezes, eles falam dos assuntos que mais pulsam dentro dos territórios, mesmo assim, é muito diversificado. Há filmes antirracistas, de bandeiras, de protestos, mas também tem muitas histórias divertidas e felizes”, explica. 

“Nossos filmes trazem, com frequência, muitas atrizes e atores negros, LGBTQIAPN+, com mulheres e jovens trans na produção, roteiro e direção. Buscamos dar representatividade e atuar junto às políticas afirmativas.”

Cinema na Baixada Santista

Todos os projetos do Instituto Querô são feitos com apoio de parceiros. A coordenadora avisa: quem patrocina o Querô, não está entrando apenas com um recurso, mas como um aliado de uma causa. “Nós construímos juntos! Dividimos os problemas e também apresentamos situações positivas”, conta. 

Para isso, o instituto mantém uma equipe de comunicação “extremamente eficaz com todos os materiais, vídeos, redes sociais”. Segundo Tammy, isso qualifica o projeto e fideliza parceiros. O departamento institucional também cresceu nos últimos anos e o instituto está cada vez mais estruturado para participar de editais, buscar fundos, estabelecer convênios e incidir com verba parlamentar. 

O resultado é digno de tapete vermelho. Os filmes produzidos pelo Instituto Querô costumam estrear no Cine Roxy, que tem a maior sala de cinema de rua de Santos. São quase 500 lugares, muitos jovens vão vestidos de gala para sua grande estreia. 

“Eles vão chiquérrimos, o crédito subindo com o nome deles, é uma loucura! Então eles se transformam quando chegam até aqui. No ano seguinte, aqueles que decidem seguir carreira continuam no processo formativo e têm contato direto com profissionais do cinema. Aí não tem pra ninguém — eles estão prontos para derrubar todos os muros”, sorri Tammy.

Durante as filmagens. Imagem: reprodução Instituto Querô.

Apoie essa causa!

Todos os filmes produzidos na instituição estão disponíveis gratuitamente na Querô Play, democratizando o acesso ao cinema.

Para saber mais sobre o Instituto Querô, visite o site e siga o perfil no Instagram

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