Expo Favela promove cultura, negócios e inovação em dois dias de evento

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O evento reuniu mais de 150 empreendedores e promoveu palestras que destacaram as potências que emergem das favelas em diversas áreas

Nos dias 19 e 20 de julho, a Expo Favela Innovation São Paulo movimentou o Transamérica Expo Center com mais de 150 empreendedores das favelas, que apresentaram seus produtos, serviços e soluções inovadoras a um público formado por investidores, executivos, jurados e visitantes. Ao final, cinco iniciativas foram selecionadas para a etapa nacional.

O evento atraiu públicos de todas as idades e contou com espaços diversos, como a Favela Literária, que reuniu autores independentes, o Favela Cine, com exibição de obras audiovisuais protagonizadas por moradores das favelas, e o Beleza das Favelas, onde empreendedores da área da beleza atenderam o público a preços sociais.

Na arena principal, grandes nomes vindos das favelas, como MV Bill, Daiane dos Santos, Karol Conká, os apresentadores do PodPah, Mítico e Igão, e representantes do KondZilla participaram de debates sobre empreendedorismo e soluções que nascem nas comunidades.

O Lupa do Bem marcou presença nos dois dias, acompanhando palestras, rodas de conversa e conversando com expositores. Confira os destaques!

Cultura e esporte como agentes transformadores

Um dos encontros mais aguardados do Expo Favela foi o bate-papo entre a ginasta e campeã mundial Daiane dos Santos com o rapper, ator, cineasta, escritor e ativista MV Bill.

Os dois falaram sobre como o esporte e a música são ferramentas fundamentais para jovens das periferias. Daiane, nascida e criada em uma comunidade de Porto Alegre, contou que foi descoberta aos 11 anos por uma professora que a viu brincando em uma praça comunitária. 

MV Bill também destacou a importância do olhar atento de uma professora, que enxergou seu talento para a escrita enquanto outros o rotulavam apenas como “aluno bagunceiro”. “Ela dava aula de redação e foi a primeira pessoa a ver meu potencial. Leu meu texto para a turma inteira e me incentivou a continuar”, relembrou. 

Formada em educação física graças a uma bolsa de estudos, Daiane contou que criou, em 2016, o Projeto Brasileirinhos, como forma de retribuir o que conquistou por meio do esporte. A iniciativa atende crianças e adolescentes entre 6 e 16 anos nas comunidades de Paraisópolis e Aricanduva, em São Paulo. 

“Muita gente pergunta se o projeto é para descobrir talentos. Mas que talentos? Nem sempre o talento é esportivo. Às vezes, é só a oportunidade de olhar para aquela criança e dizer que ela pode. O nosso papel é apoiar, incentivar, abrir portas para que ela seja vista e tenha acesso a infinitas possibilidades”, explicou. Daiane reforçou que o objetivo é formar bons cidadãos, dentro ou fora do esporte. 

“Nosso foco é desenvolver seres humanos pensantes. Dizem que o Brasileirinhos ensina as crianças a perder, mas não. Nosso papel é ensinar a ganhar, porque essas crianças já perderam muito: foram julgadas, excluídas, vistas como não pertencentes. Estamos ali para mostrar que a favela é vencedora”. 

A iniciativa é viabilizada por meio da Lei de Incentivo ao Esporte (LIE), e Daiane destacou o impacto dessas políticas públicas. “Nos Jogos Olímpicos de Paris, vimos os frutos plantados há anos: Rebeca Andrade, Rayssa Leal, Isaquias Queiroz e Bia Silva. Através da oportunidade a gente consegue fazer essa transformação, trazer esse olhar de vitória dentro da favela.” 

“O esporte é um grande potencializador para mostrar a verdadeira essência vitoriosa das comunidades, da gente poder mudar essa construção de uma sociedade que subjuga e não conhece. Através dos projetos sociais a gente consegue ter essa visão, descobrir esse diamante e lapidar ele e fazer brilhar no mundo todo, como vimos em Paris.”

A potência da mulher negra

Outro momento marcante do Expo Favela foi a conversa entre a rapper, apresentadora e compositora Karol Conká com a historiadora, apresentadora e podcaster Giovanna Heliodoro. Elas falaram sobre negritude, memórias e a vivência das mulheres nas favelas. 

Giovanna começou destacando a importância da memória: “É difícil saber quem somos sem conhecer nossas histórias. Sem elas, não somos nada.” 

Já Karol compartilhou uma lembrança da adolescência, quando sua avó, já com Alzheimer, disse o quanto se orgulhava dela. “A gente aprende desde cedo sobre as limitações impostas à nossa pele. Isso me provocou. Eu queria desbravar o mundo.” 

Ela contou como sentia falta de representatividade na mídia: “Pensava se um dia haveria mulheres negras na TV, nos palcos. Fui uma das primeiras a estampar capas de revista e me sentia sozinha. Hoje, conseguimos nos ver mais, mas ainda falta: remuneração justa, oportunidades reais.” 

Foto: Aline Louzano

Karol relatou que, após sua saída conturbada do BBB21, influenciadoras brancas foram contratadas para repetir os bordões criados por ela no programa. “Elas ganharam dinheiro, enquanto eu, negra, estava em casa. Então, eu sirvo até que ponto? Se eu sou um monstro porque estão usando o meu bordão e ganhando dinheiro com isso? E por que essas personalidades aceitam usar uma frase que não é delas e ganhar dinheiro com isso? Isso é apropriação, além de se apropriarem do nosso estilo, da nossa vestimenta, se apropriam também dos nossos discursos, bordões e trejeitos.” 

Ambas destacaram o papel das mulheres da família, como mães, tias e avós, como incentivadoras e referências, e a importância da representatividade na mídia para que as novas gerações se sintam vistas. “Se deixarmos nas mãos de uma sociedade que não valoriza a cultura e o reconhecimento, continuamos invisíveis”, disse Karol.

Comunicação como ferramenta de denúncia

O evento também abriu espaço para comunicadores populares, como Carolina Rosa, do Manda Notícias, veículo independente do Capão Redondo (SP). Ela explicou que a comunicação popular nasce na prática: em rádios comunitárias, jornais de bairro, lambes e saraus. E que seu papel vai além da informação, é também um instrumento de transformação social.

Em conversa com o Lupa do Bem, o apresentador do SP1 da Rede Globo, Alan Severiano, comentou o cuidado da TV em não reforçar estereótipos das comunidades nas coberturas do telejornal. “Temos sempre um olhar muito cuidadoso, estamos sempre abertos a sugestões de reportagem, a denúncias e demandas que vem da população para a gente alertar as autoridades e fazer essa ponte”.

Protagonismo das periferias

Cerca de 16 mil pessoas passaram pelos dois dias de evento. No palco principal, a rapper e ativista Nega Gizza apresentou os convidados e mediou várias conversas. Todas as palestras foram acessíveis, contando com intérpretes de Libras.

Diversas palestras aconteciam ao mesmo tempo e o público se dividiu para aproveitar a diversidade da edição paulista. Em uma delas, a professora Elisângela Masselli contou como é dar aula no sistema prisional; “Se eu conseguir devolver para a sociedade aquela pessoa que está dentro da penitenciária melhor, todo mundo ganha”.

Para Celso Athayde, fundador da CUFA e idealizador da Expo Favela Innovation, a edição paulista reafirmou a potência dos territórios populares: “Mais uma vez, mostramos que a favela não é só carência, é potência. Este evento é vitrine para talentos que sempre existiram, mas agora estão sendo reconhecidos pelo mercado e pela sociedade.”

Ao final, foram apresentados os cinco empreendimentos sociais escolhidos para representar São Paulo na etapa nacional do Expo Favela, que acontece nos dias 29 e 30 de novembro: Isapay, Pappo Soluções, Kash English, Prato Verde Sustentável e +1Code, esse último, integrante da rede Lupa do Bem.

O encerramento foi em clima de celebração: no sábado, a bateria da escola de samba Vai-Vai animou o público. No domingo, o Baile da DZ7 colocou todos para dançar.

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