“Dá pra fazer diferente”: conheça a trajetória inspiradora da Capitã Endgie, apresentadora do programa Lei Maria da Penha

Histórias de superação são sempre potentes, mas algumas parecem gritar ainda mais forte. É o caso da Capitã Endgie Paquiela, que teve uma vida marcada pela dor e pela violência, tornou-se policial militar e hoje é apresentadora do programa Lei Maria da Penha, na Nova TVI Petrópolis. 

Nesta entrevista, ela compartilha sua caminhada, da infância difícil, passando por episódios de violência doméstica, até chegar à farda e ao trabalho em defesa das mulheres. Com uma fala intimista e direta, Endgie mostra como ressignificou a própria história para dar voz a outras mulheres. Confira!

Coluna da Neuza: O que motivou sua atuação como policial militar e depois, como apresentadora do programa Leia Maria da Penha?

Capitã Endgie: Minha infância foi marcada pela violência. Eu cresci vendo minha mãe apanhar todos os dias do meu padrasto e lembro de falar para ela: “A gente podia morar debaixo da ponte, ia ser mais feliz”. Mas ela sempre respondia: “Enquanto eu tiver um teto e comida pra você, eu aguento qualquer coisa”. O problema é que, com o tempo, nem comida tinha mais. E ela continuava ali…

Coluna da Neuza: E como você lidava com isso?

Capitã Endgie: Eu não entendia por que ela ficava. Achava que era fraqueza. Mais tarde, trabalhando com a Patrulha Maria da Penha, percebi que existe um ciclo de violência difícil de ser rompido. Muitas mulheres procuram companheiros com o mesmo padrão de comportamento de seus pais. É inconsciente, isso forma um aprisionamento psicológico, mas na época, eu não sabia disso, achava apenas que minha mãe era “fraca”.

Coluna da Neuza: Me fala um pouco sobre sua juventude. Também foi atravessada por dificuldades?

Capitã Endgie: Sim. Fui mãe muito jovem, aos 19 anos. Meu filho foi rejeitado por todos, inclusive pela minha mãe, que dizia: “Você tinha um futuro brilhante, jogou tudo fora”.

Não tive pré-natal, não tive enxoval. Quando a bolsa estourou, achei que tinha apenas molhado a cama, só fui entender no hospital. Quando dei a luz, não quis nem olhar. Mas, quando colocaram ele no meu colo, foi amor à primeira vista. Hoje ele tem 29 anos e é o amor da minha vida.

Coluna da Neuza: E como surgiu o desejo de entrar para a Polícia Militar?

Capitã Endgie: Quando entrei para a Polícia Militar, em 2000, eu já era mãe e foi uma felicidade enorme. Lembro da minha primeira Cesta de Natal, que trouxe para casa com orgulho: panetone, peru, tudo o que nunca tínhamos. Pela primeira vez pude dar um Natal digno à minha família.

Coluna da Neuza: E como foi sua experiência, sendo mulher, dentro de uma corporação historicamente masculina?

Capitã Endgie: Difícil. Sofri assédio logo no começo. Um major fez uma piada sexual comigo na fila da Cesta de Natal. Respondi, mas fui punida com quatro dias de prisão. Então percebi que ali não tinha espaço para mulheres e se eu quisesse sobreviver, teria que me portar como homem. 

Comecei a me masculinizar. Passei a ser chamada de “sapatão”, e eu não desmentia. Era uma forma de me proteger. Nem a orelha furada eu tinha. Só mudei minha postura muitos anos depois. Para mim, ser mulher era ser minha mãe, uma personificação da fragilidade. E eu não queria ser frágil.

Imagem: arquivo pessoal.

Coluna da Neuza: Você também viveu relacionamentos abusivos?

Capitã Endgie: Sim. Achei que, por ser militar, conseguiria impor respeito. Mas não. Quando tentei sair da relação, sofri violência. A diferença é que, quando ele levantou a mão, pensei: “Não vou repetir a história da minha mãe”. Aquilo virou uma chave. Decidi que eu não seria igual a minha mãe.

Coluna da Neuza: Em que momento a Patrulha Maria da Penha entrou na sua vida?

Capitã Endgie: Em 2018, os casos de violência contra a mulher estavam explodindo. Então, após quase 20 anos de polícia, fui chamada para integrar a Patrulha Maria da Penha. Eu não queria. Achava que as mulheres apanhavam porque queriam. Mas durante a capacitação com juízes e psicólogos, veio o soco no estômago: percebi que estavam descrevendo minha própria história. E me apaixonei pelo projeto.

Coluna da Neuza: Como funciona a Patrulha Maria da Penha?

Capitã Endgie: O papel da Patrulha Maria da Penha é garantir a efetividade das medidas protetivas de urgência expedidas pelo Poder Judiciário, realizando visitas periódicas às mulheres em situação de violência doméstica, monitorando o cumprimento das medidas por parte dos agressores e oferecendo suporte e orientação. 

As patrulhas também atuam na prevenção, na articulação com a rede de apoio à mulher, na capacitação dos profissionais e na conscientização da sociedade sobre a violência de gênero. Muitas não acreditam que podem sair do ciclo. Nosso trabalho é mostrar que dá. Porque o risco de feminicídio é muito grande.

Coluna da Neuza: E o seu programa de TV, como surgiu?

Capitã Endgie: Em 2022, durante uma campanha do Agosto Lilás, fui convidada para uma entrevista em uma TV local, em Petrópolis. A repercussão foi tão boa que o diretor me chamou e perguntou se eu queria assumir o programa, mas eu recusei, pois era policial, não apresentadora.

Ele insistiu dizendo que eu entendia muito do assunto, mais do que qualquer um ali. Enfim, topei participar, mas no primeiro programa, quase desmaiei de tão nervosa… No final, deu tão certo que o programa já vai para quatro anos no ar.

Coluna da Neuza: Qual é a proposta do programa?

Capitã Endgie: O programa é de utilidade pública e serve para informar e salvar vidas. Quando convido mulheres para contar suas histórias, é para mostrar que dá para fazer diferente. 

Muita gente acha que violência é só agressão física, agressões que causam danos corporal, mas há também a violência psicológica, que afeta a autoestima e o desenvolvimento emocional. Há a violência sexual, quando as relações sexuais são forçadas ou outros atos libidinosos não desejados. Há violência patrimonial, quando o companheiro danifica ou retém bens e recursos da vítima. Por fim, há violência moral, condutas que configuram calúnia, difamação ou injúria. A maioria das pessoas não sabe que a violência doméstica tem várias faces. 

Por isso, além de falarmos sobre a Lei Maria da Penha, também falamos das leis  Joanna Maranhão, Minuto Seguinte, Importunação Sexual, Carolina Dieckmann e Mariana Ferrer. Todas são regulamentações importantes e que protegem as mulheres e quase não são conhecidas. 

Coluna da Neuza: O que você sente quando olha para trás?

Capitã Endgie: Hoje entendo que minha mãe foi forte na medida do possível. Ela não sabia viver sem medo, sem violência e tentou me proteger do jeito dela. A nossa relação foi muito dura, mas só consegui libertá-la desse ciclo quando completei 40 anos. Hoje, o que carrego é a certeza de que não vou repetir essa história.

Coluna da Neuza: Qual mensagem você deixa para outras mulheres que estão vivendo violência doméstica nesse instante?

Capitã Endgie: Vocês não estão sozinhas! Existe saída, sim! Vocês podem ser o que vocês quiserem, sem medo. Dá para fazer diferente, eu sou prova viva disso!

Violência contra mulher é crime! Denuncie!

A história da Capitã Endgie é um retrato de luta, dor e, sobretudo, transformação. Um lembrete poderoso de que, mesmo em meio à violência, é possível quebrar ciclos e abrir caminhos para outras mulheres. Para saber mais, siga @endgiepaquiela no Instagram. 

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