Duas histórias, um mesmo propósito: a inclusão de pessoas com pessoas com deficiência

pessoas com deficiência

Projeto Gigi e Incluir Petrópolis mostram como a união de famílias, voluntários e amigos pode gerar oportunidades de cuidado, lazer e pertencimento

Estive em Petrópolis com a intenção de conhecer o Projeto Gigi, mas acabei me deparando com outra iniciativa igualmente inspiradora: o Incluir Petrópolis. As duas organizações estavam no mesmo local, no mesmo dia, oferecendo ações para pessoas com deficiência, e eu não resisti: quis entender de perto como cada uma delas transforma vidas.

Ao conhecer Andreia Esteves, idealizadora do Projeto Gigi, fiquei imediatamente impressionada com sua energia e dedicação. Enfermeira de formação, ela deixou a carreira formal para se dedicar inteiramente à iniciativa, que nasceu de sua própria vivência familiar.

“O Projeto surgiu quando minha neta Giovana nasceu com Síndrome de Down e Autismo. Hoje, ela tem oito anos. Durante os sete primeiros anos da vida dela, eu a levei para consultas e terapias. Nesses lugares, sempre conversava com outras mães e, constantemente, ouvia delas o desejo de ter uma rede de apoio”.

“Resolvi criar o Projeto Gigi justamente para oferecer suporte a essas e outras mães que precisavam desse acolhimento. Outro motivo que me levou a idealizar a iniciativa foi o fato de ter parar de cuidar diretamente da minha neta, senti como se tivesse perdido um pedaço de mim”, conta.

O que começou com foco em crianças com Síndrome de Down logo se expandiu para outras deficiências. Andreia explica que o projeto funciona como uma verdadeira rede de apoio, oferecendo atendimentos gratuitos em fonoaudiologia, psicologia, terapia ocupacional, musicoterapia, entre outras especialidades.

“Convidamos terapeutas voluntários, fazemos entrevistas com as famílias e oferecemos tratamento gratuito para quem realmente precisa. Temos crianças que estavam há anos na fila do SUS e que agora recebem atendimento imediato no nosso projeto”, diz Andreia.

O Projeto Gigi completou dois anos em março e ainda não possui sede própria. As atividades acontecem em espaços cedidos por parceiros, como academias e o Centro de Cultura Raul de Leoni. São 15 crianças e 10 adultos que participam de diversas oficinas como música, arte e balé, além de um grupo chamado Olhares Sensíveis, voltado para o apoio das mães.

“É um espaço onde elas podem ser ouvidas. Muitas vezes, só a criança recebe atenção e a mãe fica esquecida. Aproveitamos esse momento de acolhimento, onde ela pode se expressar livremente. No grupo, realizamos palestras e rodas de conversa sobre parentalidade e violência doméstica, tudo com muito afeto e carinho.”, detalha Andreia.

Apesar do entusiasmo, os desafios do projeto Gigi são grandes. A falta de um espaço fixo e de um apoio financeiro recorrente torna a logística diária difícil.

“Tudo que temos é fruto de doações e da boa vontade de amigos e profissionais. Precisamos de material para oficinas, voluntários e espaço físico. Também seria fundamental ter apoio para criar um site e organizar a divulgação.”

Claudio Fernando Borges, gestor de parcerias do Gigi, complementa: “Corro atrás de doações, conserto brinquedos, bicicletas e outros equipamentos para as crianças. Todo o trabalho é gratuito. Além disso, ajudamos famílias afetadas por enchentes, distribuindo móveis e roupas.”

Projeto Gigi. Foto: Reprodução

“O objetivo é apoiar quem cuida, dando suporte aos pais e mães. Para mim, esse trabalho é terapêutico. Venho de uma família que enfrentou grandes perdas, sinto uma paz imensa ajudando outras pessoas.”

Entre as famílias atendidas, os depoimentos confirmam o impacto do projeto. Marta Fernandes, mãe de Thaís, relata: “Estamos aprendendo muito. Minha filha está se distraindo, se divertindo e nos sentimos acolhidas pelo Projeto.” Já Thaís, que tem Síndrome de Down, resume em poucas palavras: “Sinto muito amor pelo projeto, estou adorando.”

Por uma cidade mais inclusiva

Enquanto o Gigi foca no atendimento terapêutico e na rede de apoio familiar, o Incluir Petrópolis se dedica a levar a inclusão para os espaços públicos, garantindo que pessoas com deficiência possam exercer plenamente o direito de ir e vir. 

Chen Li Cheng, fundador do projeto ao lado da esposa, explica: “Nosso desafio é tirar as pessoas com deficiência de casa. Muitos ainda estão reclusos, com vergonha ou dificuldade de mobilidade.”

“Através de eventos como corridas, trilhas e blocos de carnaval inclusivos, proporcionamos que participem da vida da cidade.”

Criado há três anos, o projeto surgiu de um bate-papo na Rua 16 de Março, quando Chen e Alessandra Caline decidiram organizar uma caminhada para PCDs. “O Cheng tem uma doença degenerativa rara e, percebendo a necessidade de inclusão na cidade, começamos com uma caminhada. Dela participaram 80 pessoas e, na ocasião, perguntaram quando seria a próxima, foi então que entendemos a necessidade de continuarmos.”

“Hoje, realizamos corridas, trilhas, bloquinhos de carnaval e arraiás inclusivos, sempre com equipamentos adaptados como triciclos e cadeiras Julietti para garantir que todos participem”, relata Alessandra.

Mas o Incluir Petrópolis não se limita a promover acessibilidade nos espaços públicos. O projeto também oferece suporte direto a pessoas com deficiência, conectando-as a órgãos públicos e empresas, facilitando o acesso a recursos e oportunidades. Sempre que há necessidade, a equipe atua como ponte para inserção no mercado de trabalho.

O impacto é facilmente percebido nos depoimentos dos participantes. Um dos beneficiários diz que “a vitória está em alcançar os objetivos, ver mudanças na cidade e perceber que mais pessoas com deficiência estão participando.”

Outro participante acrescenta: “Percebemos os espaços da cidade se tornando cada vez mais inclusivos. No carnaval, por exemplo, houve área dedicada para pessoas com mobilidade reduzida.”

A sustentabilidade do Incluir Petrópolis é garantida por meio de esforço próprio e doações. Chen e Alessandra utilizam recursos próprios, recebem doações de empresas e coletam resíduos recicláveis como tampinhas plásticas, lacres de alumínio e óleo de cozinha, que são convertidos em moeda solidária para compra de equipamentos adaptados.

Além disso, o projeto fortalece famílias atípicas ao oferecer espaço para a comercialização de produtos artesanais, cuja renda é destinada integralmente a elas, promovendo autonomia e independência econômica.

O caráter itinerante do projeto permite que suas ações ultrapassem os limites de Petrópolis e cheguem a outros municípios, como o Rio de Janeiro. Recentemente, a iniciativa esteve presente em um evento sobre doenças raras em Copacabana, que reuniu 35 entidades e mobilizou a sociedade local em prol da inclusão. Nessas ocasiões, os voluntários têm papel essencial, apoiando atividades recreativas, como oficinas de pintura, caminhadas em trilhas e outros eventos.

Entre os beneficiários, Tainá, de 34 anos, compartilha: “Conhecer o projeto me fez sair mais de casa e interagir com outras pessoas. Está sendo muito bom.” Sua mãe, Maria Lúcia, reforça a importância da iniciativa: “Precisamos lutar pelo direito deles de ir e vir, de viver a cidade como qualquer outra pessoa.”

Ao conhecer o Projeto Gigi e o Incluir Petrópolis, ficou claro para mim que, embora com abordagens diferentes, ambos caminham na mesma direção: transformar a vida de pessoas com deficiência e de suas famílias, fortalecendo a rede de apoio, promovendo inclusão social e mostrando que, com vontade, criatividade e solidariedade, é possível construir uma cidade mais justa e acolhedora.

Cada história, cada evento e cada sorriso de criança ou adulto atendido reforçam a certeza de que iniciativas comunitárias têm o poder de mudar realidades, incentivar o protagonismo e inspirar transformações que vão muito além das terapias, das corridas ou das oficinas. Elas representam uma mudança profunda, capaz de abrir horizontes e reacender a esperança.

Saiba como apoiar o Projeto Gigi e o Incluir Petrópolis

Seja voluntário e ajude a fortalecer essas iniciativas de inclusão. 

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