Não basta celebrar: é preciso ouvir os povos indígenas no Brasil

Dia dos Povos Indígenas

Entre avanços e contradições, o Dia dos Povos Indígenas expõe um país que reconhece direitos na lei, mas ainda falha na prática

Oficializado em 1943, o antigo “Dia do Índio” foi renomeado para “Dia dos Povos Indígenas” em 2022 (Lei 14.402/22), como forma de reconhecer a diversidade dos povos originários e superar estereótipos históricos. 

Celebrado no dia 19 de abril, a data vai além da comemoração: é um convite à reflexão, ao reconhecimento e, principalmente, à escuta, reforçando a importância de preservar culturas, tradições e garantir os direitos humanos desses povos.

Segundo a Agência de Notícias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) o Brasil possui cerca de 1,7 milhão de indígenas e uma diversidade cultural expressiva, composta por 391 etnias e aproximadamente 295 línguas indígenas faladas no país, de acordo com o Censo Demográfico 2022, divulgado em outubro de 2025. 

Esses números representam um crescimento em relação a 2010, quando eram registradas 305 etnias e 274 línguas, o que pode ser visto como resultado de melhorias na metodologia de coleta de dados e aumento das autodeclarações.

Ainda assim, essa pluralidade segue, muitas vezes, reduzida por narrativas simplificadoras que não conseguem traduzir a real complexidade dos povos indígenas no território brasileiro.

Apesar dessa riqueza, os povos indígenas seguem em situação de vulnerabilidade e dados do Conselho Indigenista Missionário apontam que os conflitos por terra, invasões de territórios e violência continuam sendo uma realidade constante. 

Em relatórios recentes, a entidade denuncia o avanço do garimpo ilegal, do desmatamento e de atividades predatórias, que ameaçam não apenas o meio ambiente, mas também a própria existência de comunidades inteiras.

A luta pela terra, aliás, é central. Para os povos indígenas, o território não é apenas um espaço físico, é identidade, memória, espiritualidade e sobrevivência. 

A Constituição de 1988 reconhece o direito originário às terras tradicionalmente ocupadas, mas a efetivação desse direito ainda enfrenta muitos entraves políticos e econômicos.

Além da questão territorial, há desafios inclusive na área da saúde. A Fundação Oswaldo Cruz já alertou para a vulnerabilidade de comunidades indígenas diante de doenças infecciosas, agravadas por dificuldades de acesso a serviços de saúde e pela distância geográfica. Durante a pandemia de COVID-19, por exemplo, muitos povos foram duramente impactados, evidenciando desigualdades históricas.

Mas falar apenas das dificuldades seria reduzir esses povos a uma narrativa de sofrimento, o que não é justo. Entre eles, existe muita resistência, força e produção de conhecimento. Povos indígenas têm ocupado cada vez mais espaços na política, na educação e na comunicação, reivindicando o direito de falar por si mesmos e de preservar suas tradições enquanto dialogam com o mundo contemporâneo.

Um exemplo desse protagonismo é a crescente presença de lideranças indígenas em debates nacionais e internacionais sobre meio ambiente como  Sônia Guajajara, uma das vozes mais influentes do país, hoje também na política institucional; Davi Kopenawa, referência histórica na defesa da Amazônia e dos Yanomami; Ailton Krenak, liderança histórica e intelectual muito respeitado; Raoni Metuktire, figura internacional na defesa dos povos da Amazônia; Joenia Wapichana, destaque na luta jurídica e política pelos direitos indígenas e outros. 

Não por acaso, estudos mostram que as terras indígenas estão entre as áreas mais preservadas do país, funcionando como verdadeiras barreiras contra o avanço do desmatamento. 

Proteger os povos indígenas, portanto, é proteger o futuro ambiental do planeta.

Mas talvez o maior desafio ainda seja simbólico, como por exemplo: romper com a ideia de que os povos indígenas pertencem ao passado. Eles não estão “em extinção”, nem congelados no tempo. Estão vivos, presentes e em constante transformação, como qualquer sociedade.

O Dia dos Povos Indígenas precisa ser mais do que uma data no calendário. Precisa ser um convite à revisão de conceitos, à valorização da diversidade e ao reconhecimento de uma dívida histórica que ainda está longe de ser quitada.

No fim, a pergunta que fica não é sobre eles, mas sobre nós.

Estamos, de fato, dispostos a ouvir?

Porque, enquanto essa escuta não se concretiza, o país segue celebrando culturas que, na prática, ainda insiste em ignorar. 

E é nessa contradição que o Brasil revela o quanto ainda precisa aprender sobre si mesmo.

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A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.

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