Criado em 2017 como um trabalho de conclusão de curso, a Developer Girls se tornou uma comunidade nacional que conecta, inspira e capacita mulheres na tecnologia.
A história da Developer Girls começou em uma sala de aula do Instituto Federal, em 2017. À época, Laís Matie Hara e suas colegas cursavam o ensino técnico integrado ao médio e perceberam algo que incomodava: a escassez de professoras e referências femininas na área de tecnologia. “A gente já participava de grupos de robótica e o nosso era o único só de mulheres no estado”, relembra. “Isso começou a chamar nossa atenção e foi o ponto de partida para a pesquisa sobre mulheres na tecnologia.”
O projeto nasceu como um trabalho de conclusão de curso, mas logo ultrapassou os muros da escola. As estudantes criaram redes sociais para divulgar descobertas e aprendizados sobre o tema. “Em 2018, apresentamos o TCC, tiramos nota máxima e criamos um site para reunir essas pesquisas. Depois disso, continuamos participando de feiras científicas e divulgando conteúdos sobre o tema”, conta Hara.
O retorno veio em forma de oportunidades. Em 2021, as fundadoras conquistaram o primeiro emprego na área de tecnologia por meio da visibilidade gerada pelo projeto. “As redes sociais já existiam desde 2017, então mantivemos o conteúdo. Mesmo com altos e baixos, conseguimos uma parceria que abriu as portas do mercado para nós”, diz.

A partir daí o grupo se expandiu. Em 2022, o Developer Girls passou a falar não apenas de programação, mas de todas as áreas da tecnologia. “Foi quando entendemos que havia muito mais além do desenvolvimento. Diversificamos o conteúdo e seguimos com uma presença mais firme nas redes”, explica.
Um ano depois, o projeto deu um salto ao realizar a primeira edição do evento “Mulheres que Mudam o Mundo com a Tecnologia”, em Campo Grande (MS). A proposta era reunir mulheres de todo o país para compartilhar experiências e inspirar outras profissionais. “A gente não gosta de rótulos, sabe? Não queremos afastar ninguém. Então é um evento com mulheres palestrando, mas aberto a todo o público”, resume Laís.
O sucesso do evento motivou a formalização do grupo. “Em 2024, fizemos a segunda edição e percebemos que o evento tinha dobrado de tamanho. Foi quando abrimos o CNPJ, para conseguir patrocínios e parcerias com empresas maiores”, explica. Optar pelo formato de startup — e não de ONG — foi uma decisão estratégica. “Era mais simples para o que precisávamos naquele momento e nos dava liberdade para criar novos produtos.”
Hoje, a Developer Girls conta com uma comunidade ativa de cerca de 400 pessoas no WhatsApp e oito embaixadoras espalhadas por diferentes regiões do país. “A gente quer que essas embaixadoras movimentem a comunidade, sejam referências em seus estados e mantenham esse vínculo com outras mulheres”, comenta.

Entre os aprendizados acumulados desde o início, um dos mais marcantes veio das próprias pesquisas realizadas pelo grupo. “A gente descobriu que muitas mulheres chegaram na tecnologia por curiosidade, enquanto os homens entram já direcionados. Elas encontram o caminho por acaso, o que torna o percurso mais difícil. Mas perceber isso trouxe um certo alívio, porque vimos que não estávamos sozinhas.”
O evento anual se tornou o principal marco da iniciativa. Com três edições realizadas, a mais recente em abril de 2024, o encontro já reuniu 29 palestrantes mulheres e atraiu participantes de várias partes do país. “Acho que o mais importante é conseguir levar grandes nomes do mercado para um estado como Mato Grosso do Sul, que não é tão voltado para tecnologia. Isso tem um impacto enorme”, diz Laís.
Agora, o grupo começa a olhar para o futuro com novos projetos e metas. Um deles é o lançamento de um e-book com dicas de carreira, currículo e entrevistas, disponível na plataforma Hotmart. “É um guia que construímos a partir da nossa trajetória e das conversas que tivemos com mulheres da área”, explica. Outro plano, ainda em desenvolvimento, é criar uma plataforma de mentorias, com foco em conectar profissionais e oferecer apoio a grupos de baixa renda.

Para Laís, o maior desafio ainda é garantir a diversidade de perfis dentro das ações do Developer Girls e o equilíbrio emocional das mulheres que ingressam na área. “É importante estar em comunidades, encontrar pessoas que passam pelas mesmas coisas e fortalecer a inteligência emocional. Saber quem você é e confiar que você é boa o suficiente para estar ali faz toda a diferença.”
O futuro do projeto, ela acredita, será de consolidação e impacto mensurável. “Queremos ter uma base de dados sólida e ser referência na inclusão de pessoas na tecnologia até 2030”, afirma. “Nosso objetivo agora é manter o CNPJ, lançar produtos que sustentem a iniciativa e continuar crescendo com propósito.”





