Iniciativa no Rio de Janeiro aposta na capacitação como caminho para fortalecer a empregabilidade trans e enfrentar desigualdades históricas
A realidade da população trans no Brasil é desafiadora. Pesquisa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) apontou que, em 2024, foram registradas 122 mortes, o que faz com que o país continue sendo um dos mais letais para essa comunidade.
Apesar de uma redução de 16% em relação a 2023, o Brasil, pelo 16º ano consecutivo, segue como o país que mais mata pessoas trans no mundo, sendo a expectativa de vida dessa população de apenas 35 anos.
Além da violência, a população trans ainda enfrenta muitos estigmas e preconceitos na sociedade, que se ampliam no momento de buscar um emprego, um cenário que evidencia os desafios da empregabilidade trans no país. Segundo pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de 2025, apenas 25% das pessoas trans estavam empregadas formalmente naquele ano, taxa 6,8% menor que a da população geral.
Foi observando essa desigualdade que, em 2019, Andréa Brazil fundou o Capacitrans. “Todo começo tem algum fundamento baseado numa dor. Eu, enquanto travesti, percebi que a grande dificuldade é ter um emprego formal”, disse.
“A ideia de criar algo que desse autonomia para a população LGBT+ veio quando criei o meu primeiro salão. Ali, inconscientemente, eu já tinha o conceito do que seria o Capacitrans. Eu queria uma equipe formada por pessoas trans e LGBTs em geral, com recortes de vulnerabilidade.”
Cabeleireira e professora da área de beleza há mais de 10 anos, Andréa percebeu que poderia habilitar essa população para que conquistasse autonomia e “não dependesse de um mercado excludente e preconceituoso”. A partir dessa visão, passou a estruturar o projeto também como um caminho para fortalecer a empregabilidade trans.
Com esse conceito em prática, ela fez um curso de empreendedorismo. “Ali eu aprendi o que era empreender de fato. Não era só ter aquele impulso de sobrevivência. É montar um negócio para viver”.
“Então, aliada ao negócio que eu já tinha, transformei o aprendizado em um plano de negócios para um projeto social.”
Em seguida, Andréa buscou apoio financeiro por meio de editais e foi contemplada pelo LGBT+ Orgulho, do Itaú. “Tivemos a oportunidade de qualificar 40 pessoas LGBTs, prioritariamente trans e travestis, dentro de um recorte de interseccionalidade e exclusão.”
Ela explica que a prioridade do projeto são pessoas trans, pretas, periféricas, de baixa renda, em situação de vulnerabilidade social e desempregadas, mas LGBTs em geral também são aceitas.
A instituição começou oferecendo cursos voltados aos cuidados com a imagem, como penteados, maquiagem, corte e costura e, mais recentemente, audiovisual. As formações são pensadas para que a pessoa possa empreender, de forma autônoma ou não, mesmo começando com poucos ou nenhum recurso.
“Eu pensava: como vou fazer essa ideia acontecer se não tenho recursos? Então, tentava passar minha experiência de como comecei do zero, sem ser herdeira ou ter patrocinador direto.”
“Quem investiu em mim foram pessoas que acreditaram na ideia e nos ajudaram a crescer com o Capacitrans”, acrescenta. Ela explica que um dos primeiros apoiadores do projeto foi a Igreja Anglicana São Lucas, por meio do padre Luiz Coelho.
Os cursos de audiovisual são mais recentes e têm grande procura. “As turmas de audiovisual são sempre as mais concorridas. Oferecemos 20 vagas, mas, na primeira edição, tivemos 120 inscritos.”
Todas as aulas acontecem presencialmente, no bairro de Senador Vasconcelos, no Rio de Janeiro. A estimativa de Andréa é que o projeto já tenha capacitado mais de 500 pessoas ao longo desses sete anos.
Após a formação, a maioria dos alunos passa a trabalhar com tranças, penteados e maquiagem. “Há também pessoas que estão no audiovisual, crescendo na área e conquistando visibilidade.”
Segundo Andréa, muitos optam por empreender. Uma das alunas, inclusive, vem se destacando com sua marca de calcinhas tucking para corpos trans, que são peças desenvolvidas com alta compressão, tecidos reforçados e modelagem específica para maior conforto e segurança.

Luta e reconhecimento
“A cada 34 horas / Há um assassinato de pessoa LGBTQIAPN+ / Colocando o Brasil como número 1 nesse tipo de morte violenta / Por isso, trazer luz à história de Xica Manicongo é fundamental.”
É assim que começa o samba-enredo “Quem Tem Medo de Xica Manicongo?”, da Paraíso do Tuiuti, que, em 2025, levou à Marquês de Sapucaí a história da primeira mulher trans documentada no Brasil, uma pessoa escravizada de origem congolesa que viveu em Salvador, no século XVI.
Ao trazer para a avenida a trajetória de resistência de pessoas trans ao longo da história, o desfile reforçou a importância de enfrentar desigualdades estruturais que ainda impactam áreas como segurança, cidadania e empregabilidade trans.
Andréa foi convidada pela escola a desfilar no último carro, intitulado “Traviarcas”, uma homenagem a travestis e mulheres transexuais com mais de 45 anos, pioneiras e ativistas no país.
“No ensaio técnico, tive que passar por todas as alas para chegar ao nosso carro, e em todas havia pessoas que passaram pela Capacitrans gritando: ‘madrinha, madrinha’. Isso me assustou, porque percebi a dimensão do projeto, quantas pessoas tinham sido impactadas por nós.”
O reconhecimento também se repetiu em outros espaços. Andréa se inscreveu em um curso de maquiagem de caracterização oferecido pela Ação da Cidadania e compartilhou a oportunidade com sua rede. Ao iniciar as aulas, teve outra surpresa: “Todas as turmas formadas tinham alguém da Capacitrans.” Alguns, inclusive, já estavam trabalhando como contratados.

Empregabilidade trans
O projeto também atua como um banco de talentos para empresas que buscam indicação de profissionais e desejam tornar suas equipes mais diversas e inclusivas.
Dessa forma, a instituição mantém parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio da Coordenadoria Executiva de Diversidade Sexual. Entre 2024 e 2025, também foi parceira do Sesc: a instituição oferecia o espaço, e o Capacitrans realizava a capacitação da comunidade LGBT+.
Resgatando a cidadania
“Temos aulas de direitos civis de forma acessível, porque existem vários níveis de escolaridade. Há pessoas que só concluíram o ensino fundamental. Precisamos usar uma linguagem que alcance todo mundo, desde quem tem menor escolaridade até quem tem ensino superior incompleto.”
Ela explica que as aulas vão além da formação técnica. “Não adianta falar em empreender e não falar de saúde física e mental. Às vezes, há pessoas na turma que nunca fizeram um teste de HIV ou não sabem da importância do tratamento para se tornarem indetectáveis e terem mais qualidade de vida.”
“Cada aula não é só profissão. É também resgate de cidadania. Falamos sobre redução de danos, uso abusivo de álcool e outras drogas. Quando falamos de empreendedorismo, não romantizamos. Explicamos o que é, de fato. Uma pessoa que trabalha como motorista de aplicativo, por exemplo, não é necessariamente empreendedora.”
Para Andréa, enfrentar os estigmas passa também por compreender as violências estruturais. “A sociedade nos vê como se estivéssemos na rua porque queremos. Não é assim. Muitas vezes somos expulsas de casa ainda menores de idade. Eu ouvi: ‘filho meu não vai vestir roupa de mulher’. E, quando você é colocada para fora, alguém pode acolher ou aliciar”, finaliza.
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