Integrante do Movimento Camponês Popular (MCP) defende a agricultura familiar, denuncia a falta de apoio ao campo e reforça o papel de quem garante comida na mesa dos brasileiros
Em um momento em que discutir alimentação, meio ambiente e desigualdade se torna cada vez mais urgente, o trabalho de movimentos do campo segue essencial, embora ainda pouco compreendido por quem vive nas áreas urbanas.
Integrante do Movimento Camponês Popular (MCP), a camponesa Marivalda Aparecida dos Santos fala sobre a produção de alimentos, os desafios enfrentados pelas famílias rurais e a importância das sementes crioulas como símbolo de resistência e futuro.
Ela também explica que o trabalho do movimento é realizado com base na ideia de soberania alimentar, ou seja, garantir que o próprio povo tenha controle sobre a produção e o acesso aos alimentos, além da construção de um modelo mais justo de sociedade. Essa atuação passa por práticas como a agroecologia, a valorização da produção local e o fortalecimento da autonomia das famílias camponesas.
Dessa forma, o MCP está presente em diversas regiões do Brasil, incluindo Goiás, onde atua em dezenas de municípios, organizando grupos de base e fortalecendo redes locais de produção e apoio entre as famílias. Confira esta entrevista para a Coluna da Neuza.
Coluna da Neuza: Qual seu papel dentro do movimento?
Sou Marivalda Aparecida dos Santos, camponesa e me coloco como uma das mulheres que luta pela autonomia feminina, pela igualdade social e pela consciência de classe dentro do movimento.
Coluna da Neuza: O que é o Movimento Camponês Popular?
É uma organização do campo que atua junto às camponesas e camponeses, buscando fortalecer a produção sustentável e garantir a permanência digna das famílias no campo.
Coluna da Neuza: Atualmente, quem compõe o Movimento Camponês em Goiás?
Pessoas participantes da agricultura familiar, que vivem e produzem no campo.

Coluna da Neuza: Como e por que o movimento surgiu?
O MCP surgiu em julho de 2008 como uma forma de organizar a resistência diante das dificuldades no campo. Entre os principais motivos estão a desigualdade social, a opressão e o desejo de mudança na realidade de quem vive no campo.
Na época, o contexto envolvia também mudanças no modelo de produção agrícola, com avanço de monoculturas e priorização de commodities, o que poderia comprometer a produção de alimentos e aumentar desigualdades no campo.
Coluna da Neuza: Que tipo de alimento é produzido por vocês?
Produzimos alimentos saudáveis e diversificados. A agricultura familiar é responsável por grande parte da comida que chega à mesa do povo brasileiro, e nosso foco é garantir diversidade e qualidade nessa produção.
Coluna da Neuza: Na prática, o que significa garantir comida de qualidade?
Significa produzir com responsabilidade, pensando na saúde das pessoas e no meio ambiente.
Dentro do MCP, isso está diretamente ligado à agroecologia, modelo de produção que busca equilibrar cultivo, preservação ambiental e autonomia das famílias, evitando a dependência de grandes cadeias produtivas e insumos industriais.
Coluna da Neuza: Por que as sementes crioulas são tão importantes?
A semente crioula é vida, representa a nossa identidade enquanto agricultores familiares. Essas sementes são cultivadas, selecionadas e preservadas pelas próprias comunidades ao longo de gerações, adaptadas às condições locais e fundamentais para a biodiversidade e para a segurança alimentar.
Coluna da Neuza: E como funciona essa troca de sementes no dia a dia?
A troca simboliza também a troca de saberes entre as famílias, é um processo coletivo. Além de garantir diversidade genética, esse compartilhamento fortalece vínculos comunitários e mantém vivo um conhecimento tradicional acumulado ao longo de décadas.
Coluna da Neuza: As mudanças climáticas estão afetando o dia a dia da vida no campo?
Sim, muito. A degradação e a destruição dos biomas têm impactado diretamente a produção. Secas mais intensas, alterações no regime de chuvas e perda de biodiversidade são alguns dos fatores que afetam a rotina no campo, reforçando a necessidade de práticas sustentáveis e de preservação ambiental.
Coluna da Neuza: Quais são os principais desafios hoje?
Vai da falta de apoio do poder público, o não reconhecimento da agricultura familiar como peça-chave na produção de alimentos a ausência de mais políticas públicas que fortaleçam essa rede, garantindo acesso a crédito, assistência técnica e condições dignas de produção.
Coluna da Neuza: Como funcionam as cozinhas solidárias?
Atendemos, de forma voluntária, pessoas em situação de vulnerabilidade, principalmente as moradoras das periferias. Essas iniciativas aproximam o campo da cidade e mostram, na prática, o papel social da produção de alimentos.
Coluna da Neuza: Tem alguma história que te marcou nessa trajetória?
São várias, mas uma das mais impactantes foi ver o avanço das mulheres que estão com mais autonomia e independência, se libertando de estruturas patriarcais. Ainda há muito a conquistar, mas já tivemos avanços importantes na melhoria das condições de vida das famílias camponesas.
Coluna da Neuza: Como você descreveria hoje as condições de vida no campo?
Ainda existem muitas dificuldades, principalmente pela falta de políticas públicas e pela desigualdade histórica, mas ao mesmo tempo, há resistência e organização. O campo segue sendo um espaço de produção, mas também de luta por direitos e por melhores condições de vida.
Coluna da Neuza: O que ainda precisa melhorar com mais urgência?
É fundamental ampliar o apoio à agricultura familiar, com políticas públicas que garantam condições reais de produção e permanência no campo; e fortalecer o reconhecimento do papel das camponesas e dos camponeses na sociedade.
Fortalecimento a relação do campo com a cidade
Perguntado sobre as necessidades do movimento, João Felipe, dirigente estadual em Goiás e responsável pelo setor de comunicação, destacou que um dos principais desafios atuais é ampliar a conscientização sobre as políticas públicas que mobilizam, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Segundo ele, ainda são poucos os agricultores que conhecem essas iniciativas, e o movimento tem buscado intensificar esse processo de formação e informação. Além disso, destacou que o grupo atua continuamente para fortalecer a relação entre campo e cidade, entendendo que essa articulação é uma das alternativas possíveis para a transformação do atual modelo de produção.
Por fim, afirmou que qualquer pessoa interessada em contribuir, seja no campo ou na cidade, pode procurar o coletivo e se integrar às atividades.
Para encerrar, Marialva deixa uma mensagem para quem vive na cidade: “Somos nós que colocamos comida na mesa de todos. Nosso trabalho é fundamental para a sobrevivência da população. Produzir comida saudável e de forma sustentável é e continuará sendo o nosso principal objetivo.
Saiba mais sobre o Movimento Camponês Popular, essa iniciativa tão importante para toda a sociedade, acessando o site aqui e siga no Facebook e no Instagram
A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.





