Seminário Nacional de Lésbicas reúne diferentes gerações para celebrar conquistas, fortalecer a articulação política e lembrar que a luta por respeito e cidadania continua
Trinta anos após reunir mulheres lésbicas de diferentes regiões do país para discutir direitos, cidadania e representatividade, o Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE) segue como um dos principais espaços de articulação política do movimento no Brasil.
Realizada no Rio de Janeiro, a nona edição celebrou as três décadas do encontro com o tema “Lésbicas tecendo histórias, construindo futuridades”, reunindo ativistas, lideranças e participantes de diferentes gerações.
O evento aconteceu pouco depois do Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado em junho, período dedicado à valorização da diversidade, inclusão e direitos.
Ao mesmo tempo, o encontro também lança um olhar para o próximo dia 29 de agosto, quando o Brasil celebra o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. A data foi criada a partir do primeiro SENALE, realizado em 1996, também no Rio de Janeiro.
O SENALE fortalece a luta por direitos
Mais do que celebrar uma trajetória de três décadas, o encontro mostrou que muitos desafios permanecem. A busca por atendimento em saúde livre de preconceitos, o combate à invisibilidade e a ampliação das políticas públicas voltadas às mulheres lésbicas, continuam entre as principais pautas do movimento.
Para Claudia Machado, um dos maiores desafios é conquistar respeito e visibilidade. “Na minha concepção, os maiores desafios hoje para nós, lésbicas, são ter nossa visibilidade e respeito dentro da sociedade. Na saúde pública e privada, por exemplo, continuamos sendo atendidas como mulheres heterossexuais, com perguntas baseadas em uma lógica heteronormativa.”
Segundo ela, espaços como esse seminário seguem sendo fundamentais para construir políticas públicas e garantir direitos.
Três décadas de organização coletiva
Se muitos desafios ainda persistem, também há motivos para celebrar. Para Rivânia Rodrigues, articuladora nacional da Rede Candaces,a principal conquista dessas três decadasfoi o fortalecimento da organização das mulheres lésbicas em todo o país.
“Nós conseguimos nos organizar mais nos territórios brasileiros e aumentamos o número de grupos para discutirmos interesses e direitos em favor do nosso segmento. Hoje, estamos presentes em conselhos, conferências e espaços de participação política.”
Para Michele Seixas, integrante da comissão organizadora, realizar a edição comemorativa foi motivo de orgulho.
“Foi um sonho realizado. Enfrentamos muitos desafios para construir este seminário, mas conseguimos retomar politicamente o SENALE. Cada uma das mulheres foi recebida com muito carinho pela cidade do Rio de Janeiro.
Ela também anunciou que a próxima edição será realizada na Bahia.
Um espaço para existir plenamente
Durante a abertura do evento, chamou atenção o clima de acolhimento entre as participantes. Mulheres de diferentes idades, raças, estilos, corpos e expressões de gênero compartilharam o mesmo espaço em um ambiente marcado pelo respeito, escuta e um forte sentimento de pertencimento.
As falas eram frequentemente interrompidas por aplausos, manifestações de apoio e palavras de incentivo, demonstrando a identificação do público com os temas debatidos.
Entre as reflexões apresentadas ao longo do encontro, esteve a necessidade de ampliar o olhar sobre as experiências específicas das mulheres lésbicas, reconhecendo que, mesmo dentro da população LGBTQIAPN+, existem desafios e formas de invisibilidade que merecem atenção
A luta e os debates continuam
Embora o Mês do Orgulho LGBTQIAPN+ tenha terminado, o calendário da diversidade segue em movimento e a próxima celebração será no mês de agosto, que tem como principal marco o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.
A data nasceu a partir do primeiro SENALE e simboliza a importância de tornar visíveis histórias, trajetórias e reivindicações que, por muito tempo, permaneceram à margem da sociedade.
Ao completar 30 anos, o SENALE reafirma que celebrar conquistas também significa reconhecer os desafios que ainda persistem. Mais do que recordar o passado, o encontro mostrou que fortalecer redes, compartilhar experiências e construir políticas públicas continua sendo um caminho para transformar invisibilidade em presença, resistência e cidadania.
Cobrir esse evento tão especial para a Coluna da Neuza foi presenciar algo que vai muito além dos debates. Entre abraços, aplausos e sorrisos, ficou evidente a importância de existirem espaços onde as pessoas possam simplesmente ser quem são: sem medo, sem julgamentos e acolhidas por quem compartilha suas histórias, vivências e lutas.
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