Há 13 anos defendendo a bicicleta como meio de transporte, associação de ciclistas cobra investimentos em ciclovias, fiscalização e mobilidade sustentável
Atuante em várias frentes, como cicloativismo, políticas públicas, plataforma de dados, Projeto Bota Pra Rodar, monitoramento e educação, a Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife (AMECICLO) trabalha para garantir mais segurança, inclusão e melhores condições para quem utiliza a bicicleta como meio de transporte.
A capital pernambucana, cortada por rios, pontes e avenidas movimentadas, enfrenta desafios históricos relacionados à mobilidade urbana. Em meio ao crescimento da frota de veículos e aos debates sobre sustentabilidade, a bicicleta tem ganhado cada vez mais espaço como alternativa de deslocamento. No entanto, ainda enfrentam obstáculos relacionados à segurança, infraestrutura cicloviária e reconhecimento como meio de transporte.
Há 13 anos atuando na defesa dos direitos de quem pedala, a AMECICLO se consolidou como uma das principais referências em cicloativismo e mobilidade através de bicicleta no Nordeste.
Para conhecer melhor o trabalho da organização e compreender os desafios enfrentados por ciclistas no Recife, conversei com Victor Preto Monte, um dos coordenadores da entidade, militante, comunicador, bacharel em Direito e defensor de pautas raciais. Confira a entrevista.
Coluna da Neuza: Como surgiu a associação e quem teve a ideia inicial?
Victor Preto Monte: A AMECICLO surgiu numa época em que as pessoas morriam no trânsito e a pauta do cicloativismo ganhava força. O objetivo era pressionar o poder público a avançar nas discussões sobre mobilidade por bicicleta. Foi uma construção coletiva de um grupo de amigos, tendo Daniel Valença como fundador.
Coluna da Neuza: Recife tem avançado ou retrocedido na construção de uma cidade mais amigável para quem pedala nos últimos anos?
Victor Preto Monte: Infelizmente, Recife tem retrocedido. Houve aumento no número de mortes no trânsito e pouco avanço na implantação de ciclofaixas e ciclovias. O trânsito está cada vez mais caótico e isso afeta todos os modais, inclusive quem utiliza a bicicleta.
Coluna da Neuza: Como a desigualdade social influencia o acesso à mobilidade segura na cidade?
Victor Preto Monte: Muitas pessoas não têm opção de deslocamento e acabam dependentes de um transporte público sucateado. A bicicleta surge como complemento de mobilidade, mas ainda existe o medo de circular pela cidade sem segurança.
Coluna da Neuza: Quais são os principais obstáculos que impedem um número maior de pessoas de usar a bicicleta como meio de transporte diário?
Victor Preto Monte: A principal barreira é a falta de segurança. As pessoas precisam ter a certeza de que ao sair de casa, voltarão em segurança. E quando fazemos um recorte de gênero, percebemos que muitas mulheres, especialmente mulheres negras, deixam de usar a bicicleta e recorrem ao transporte público por receio da violência no trânsito.
Coluna da Neuza: Você disse que a bicicleta ainda é vista como lazer por muitos brasileiros. Quem são essas pessoas?
Victor Preto Monte: Existe um marcador de classe. Quem tem acesso a bicicletas de melhor qualidade tende a enxergá-las como lazer. Mas muitas pessoas utilizam a bicicleta como principal meio de transporte para trabalhar, estudar e resolver questões do dia a dia.
Coluna da Neuza: A AMECICLO produz pesquisas e indicadores sobre infraestrutura cicloviária. Como esses dados ajudam os gestores públicos?
Victor Preto Monte: Fazemos levantamentos sobre o uso da bicicleta no Recife e na Região Metropolitana. Esses dados ficam disponíveis para consulta pública e podem orientar decisões do poder público, a transparência é um dos nossos princípios.
Coluna da Neuza: Como as mudanças climáticas reforçam a necessidade de repensar a mobilidade urbana?
Victor Preto Monte: Precisamos repensar os modelos de transporte e colocar a bicicleta no centro desse debate, por ser uma alternativa mais sustentável, econômica e humana.
Coluna da Neuza: Se você pudesse implementar apenas uma mudança imediata na mobilidade urbana brasileira, qual seria?
Victor Preto Monte: A implantação de um sistema viário seguro e eficiente ajudaria a resolver diversas questões, inclusive o medo que muitas pessoas têm de utilizar a bicicleta.
Coluna da Neuza: Qual é a cidade que você imagina para os próximos 20 anos e qual o papel da bicicleta nessa transformação?
Victor Preto Monte: Imagino uma cidade onde possamos pedalar livremente e com segurança, assim como os demais modais. Isso nos permitiria uma relação mais humana com a cidade. Meu desejo é que tenhamos menos mortes de usuários desse tipo de transporte.
Coluna da Neuza: Quais são os principais obstáculos para quem utiliza a bicicleta como transporte?
Victor Preto Monte: O carro. Quando estamos pedalando, dividimos espaço com veículos muito maiores e mais pesados. Se não houver respeito, quem está na bicicleta fica muito vulnerável.
Coluna da Neuza: Quais políticas públicas deveriam ser prioridade para reduzir mortes e acidentes envolvendo ciclistas?
Victor Preto Monte: Fiscalização efetiva e investimento em malha cicloviária. Precisamos ampliar ciclovias e ciclofaixas para garantir mais segurança e salvar vidas.
Coluna da Neuza: O que outras cidades brasileiras estão fazendo de positivo que poderia servir de exemplo para Recife?
Victor Preto Monte: Fortaleza é uma referência no Nordeste. A cidade investiu em infraestrutura cicloviária e criou mais espaços seguros para circulação de bicicletas. É um exemplo que pode inspirar outras capitais.
Coluna da Neuza: Qual a importância do associativismo e da mobilização coletiva para fortalecer a luta por mais segurança e respeito aos ciclistas?
Victor Preto Monte: O desafio de permanecer vivo no trânsito é grande, mas a mobilização coletiva fortalece nossa voz. Muitas pessoas só compreendem essa realidade quando experimentam utilizar esse veículo no cotidiano.
Coluna da Neuza: O que essa iniciativa representa para você e o que faz você continuar nessa luta?
Victor Preto Monte: A certeza de que não estou sozinho. Hoje somos mais de 600 associados e seguimos unidos na defesa do direito de pedalar com segurança.
Como se associar à AMECICLO e apoiar a mobilidade sustentável
Além da atuação em defesa da mobilidade por bicicleta, a associação mantém suas atividades por meio da participação da sociedade civil. De acordo com Victor Preto Monte, o processo de adesão é simples e aberto a todas as pessoas, independentemente de utilizarem ou não a bicicleta como meio de transporte.
A proposta é ampliar a rede de apoio, fortalecendo ações de incidência política, produção de dados, educação no trânsito e promoção de cidades mais seguras, inclusivas e sustentáveis para todos.
Para saber mais acesse o site da instituição.
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