Criado pelo professor Dilson Lopes, o projeto social para crianças em Granjas do Cabuçu transforma o contraturno escolar em oportunidade de convivência, aprendizado e proteção social
O bairro Granjas do Cabuçu, na região de Manilha, em Itaboraí, no Rio de Janeiro, representa parte dos desafios urbanos enfrentados pelo município nas últimas décadas. A localidade cresceu junto à expansão populacional da cidade e ainda convive com dificuldades relacionadas à infraestrutura, saneamento, mobilidade e acesso a equipamentos públicos de cultura, esporte e educação.
Nesse cenário, crianças e adolescentes estão entre os mais impactados pela desigualdade social e pela falta de oportunidades no contraturno escolar. Assim como outros municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, Itaboraí enfrenta desafios ligados à vulnerabilidade social em bairros periféricos, onde muitas famílias precisam dividir o tempo entre trabalho, deslocamentos e os cuidados com os filhos.
É justamente nesse contexto que iniciativas comunitárias, como a Biblioteca Conceição Maria Lopes, ganham força. Em Granjas do Cabuçu, o espaço simples, construído aos poucos e cercado por brinquedos, livros e atividades recreativas, vem se tornando ponto de apoio para dezenas de crianças da região.
A biblioteca nasceu da inquietação do professor de matemática da rede pública Dilson Lopes, de 48 anos, conhecido pelos moradores apenas como “Vizinho”. Fundador e voluntário do projeto, ele transformou uma percepção cotidiana em ação social. Em entrevista à Coluna da Neuza, ele conta um pouco dessa bonita história.
Projeto social para crianças e suas famílias
Dilson explica que o desejo de ajudar o próximo começou ainda na infância. “Sempre que podia, minha mãe me levava, junto com minha irmã, para participar de atividades sociais, visitar orfanato, asilo e eventos religiosos. Crescemos com a orientação sobre o quanto é importante ajudar o próximo”, lembra.
Ele diz ainda que, naquela época, contribuir com o próximo significava apenas participar das ações. “Essa vontade de ajudar, essa paz adquirida quando ajudamos o próximo, foi germinando em mim e na minha irmã. Mas nós não trabalhávamos ainda, então não podíamos fazer muita coisa.”
Mas, com o passar dos anos, a realidade mudou. Já empregado e trabalhando em uma escola em Venda das Pedras, em Itaboraí, Dilson começou a observar a rotina das crianças fora do horário das aulas.
“Um dia fui fazer hora extra na escola e percebi que depois do horário letivo muitas crianças ficavam ociosas, sem ter o que fazer. Procurei entender a situação e descobri que a localidade tinha poucas opções de lazer e cultura.”
A partir dessa percepção surgiu a ideia da biblioteca comunitária. “Nasceu em mim a vontade de construir um espaço onde essas crianças pudessem passar as horas livres praticando atividades lúdicas, culturais e educativas. O projeto começou sem planejamento formal, pois eu tinha urgência. Gostaria de ter planejado tudo direitinho, mas não houve tempo”, conta.

Com recursos próprios, Dilson comprou um terreno de 16 metros por 27 em Granjas do Cabuçu, uma área mais afastada e com características rurais. No local havia um pé de ingá, onde as crianças passaram a brincar. “Foi ali que aconteceu meu primeiro contato com elas”, relembra.
A construção aconteceu aos poucos. Durante três anos, o professor trabalhou para erguer apenas as quatro paredes e o telhado. Aos poucos, porém, o espaço começou a ganhar vida.
Hoje, a biblioteca funciona como um centro comunitário voltado principalmente para crianças de até 12 anos. “Oferecemos recreação diariamente e mantemos o parque aberto para crianças e jovens participantes”, explica Dilson.
Ele ainda explica que as atividades vão além dos livros. “Nós temos uma pedagoga que nos auxilia a cada quinze dias com atividades voltadas para o desenvolvimento cognitivo. E temos oficinas de artesanato, pintura e crochê; além de quebra-cabeça, dama e futebol.”
Mais do que um espaço de lazer e entretenimento, a biblioteca se tornou uma rede de apoio para as famílias da comunidade.
“A maior parte do nosso público são crianças até 12 anos. A iniciativa auxilia muito os responsáveis, porque enquanto elas estão aqui, os pais conseguem trabalhar, resolver problemas na rua, visitar um familiar privado de liberdade entre outras coisas. Enquanto isso, os pequenos estão em um lugar gratuito e seguro, ocupando o tempo com lazer, cultura e educação. Aqui procuramos oferecer atividades e acolhimento.”
“Venho brincar e comer”
Os impactos aparecem no comportamento e no desenvolvimento das crianças. “Percebo que a autoestima aumentou. O rendimento escolar melhorou, a concentração também, houve um avanço no desenvolvimento das atividades e uma maior proximidade com os livros.”
Quem frequenta o espaço confirma a importância da iniciativa. Edson, de 13 anos, resume a experiência de maneira simples e emocionante: “Venho brincar, comer, que são as coisas mais importantes, e ser feliz. A biblioteca ajuda as mães que se preocupam muito com os filhos.”
Já Milena Maia Rodrigues, estudante do 4º ano, fala sobre o vínculo criado com o local: “Eu venho brincar, fico aqui com o Vizinho.”
Entre as atividades preferidas estão as brincadeiras coletivas, como corrida e torta na cara.
Biblioteca Conceição Maria Lopes: homenagem a quem inspirou
Apesar dos resultados positivos, manter o projeto ativo ainda é um desafio diário.
“No momento temos um número reduzido de participantes e voluntários. A região é muito afastada e as dificuldades financeiras também pesam. Precisamos pagar impostos, manter os profissionais remunerados, renovar brinquedos, lixar e pintar a sede, cortar a grama, além da manutenção e parte da estrutura ainda está em obras.
“Precisamos concluir uma grande parte da construção para oferecer melhor estrutura às crianças e aumentar o número de atividades. O apoio da comunidade existe, mas ainda é pequeno.”
“Embora muitos moradores não tenham tido acesso a esse tipo de atividade na infância e na adolescência, e por isso a vejam como algo distante da própria realidade, ainda demonstram confiança no projeto ao deixarem os filhos no espaço.”
As redes sociais também têm desempenhado um papel muito importante na continuidade da biblioteca. Segundo Dilson, elas ajudaram a divulgar as atividades e oficinas. “Foi por meio delas que conhecemos outras instituições e fizemos parcerias com outros projetos.”
Agora, o fundador planeja ampliar ainda mais o alcance da iniciativa e fortalecer a relação com os moradores.“Nosso principal objetivo hoje é fortalecer o vínculo com a comunidade e voltar a funcionar nos três turnos, como era antes.”
Entre os planos futuros está a criação de um espaço de acolhimento temporário para mulheres e crianças em situação de violência doméstica. “Queremos acolher mulheres que precisam de um tempo para reorganizar a vida.”
A biblioteca também carrega uma homenagem pessoal. O nome do espaço foi escolhido em homenagem à mãe de Dilson, Conceição Maria Lopes, inspiração para o trabalho social desenvolvido no bairro.
“É uma forma de homenagear todas as mulheres que são verdadeiras heroínas, especialmente no nosso país”, afirma.
Em bairros periféricos como Granjas do Cabuçu, iniciativas como essa acabam assumindo um papel que vai além do lazer ou da educação complementar. Para muitas crianças e adolescentes, esses espaços representam acolhimento, convivência, proteção e a possibilidade concreta de enxergar novos caminhos.
Especialistas apontam que investimentos em educação, cultura, esporte e fortalecimento comunitário são fundamentais para reduzir desigualdades e ampliar oportunidades em regiões vulneráveis.
Em meio às dificuldades estruturais enfrentadas por muitas famílias de Itaboraí, projetos sociais como a Biblioteca Conceição Maria Lopes mostram que pequenas ações comunitárias podem gerar impactos profundos e transformar, pouco a pouco, a comunidade.
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