Em Sarzedo (MG), mulheres transformam vulnerabilidade em autonomia por meio da agroecologia, da costura criativa e do artesanato sustentável
Localizado na Região Metropolitana de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, Sarzedo é um município com cerca de 40 mil habitantes, conhecido pela produção agrícola e atividade mineradora.
É lá que a Associação Marias Vão Com as Outras Sim!, transforma acolhimento em protagonismo feminino, unindo sustentabilidade, geração de renda e fortalecimento comunitário para mudar a realidade de mulheres em situação de vulnerabilidade, mostrando que iniciativas inovadoras também florescem fora dos grandes centros urbanos.
A ideia da associação surgiu em 2019 e começou a ser colocada em prática em janeiro de 2020. Com a pandemia de Covid-19, as dificuldades enfrentadas por milhares de famílias se agravaram, e o que começou com a arrecadação e entrega de cestas básicas evoluiu para um projeto voltado à geração de renda, sustentabilidade, cuidado e protagonismo feminino.
Em entrevista à Coluna da Neuza, Nilce Nicácio, coordenadora financeira e mobilizadora social da iniciativa mineira, fala sobre a origem do coletivo, os desafios enfrentados, as histórias de transformação e os sonhos que continuam impulsionando esse trabalho.
Coluna da Neuza: Como nasceu a Associação Marias Vão Com as Outras Sim!?
Nilce: A ideia da associação surgiu em 2019 e, em janeiro de 2020, durante a Pandemia, começamos a colocá-la em prática. Reunimos mulheres envolvidas em lutas sociais em Sarzedo e na Região Metropolitana de Belo Horizonte com o propósito de acolher umas às outras.
Percebemos que precisávamos unir forças para transformar nossas vidas, especialmente porque muitas de nós perderam o trabalho, enfrentaram dificuldades financeiras e passaram por intenso sofrimento, inclusive emocional. Daí decidimos unir forças e, assim, nasceu um movimento de mulheres comprometidas em apoiar a comunidade e transformar a realidade do território.
Coluna da Neuza: Qual é a história por trás do nome Marias Vão Com as Outras Sim?
Nilce: O nome foi escolhido coletivamente durante o planejamento estratégico, que deu identidade à associação. A proposta era despertar curiosidade e provocar reflexão. Uma das fundadoras sugeriu ressignificar a expressão “Maria vai com as outras”, geralmente utilizada de forma pejorativa, transformando-a em um símbolo de união e fortalecimento. Assim nasceu a Associação Marias Vão Com as Outras Sim, representando mulheres que caminham juntas para transformar a própria realidade, enfrentar a violência e promover mais qualidade de vida para todas.
Coluna da Neuza: Como era a realidade das mulheres atendidas no período em que a associação foi criada?
Nilce: Durante a pandemia, muitas viviam em situação de grande vulnerabilidade social, pois trabalhavam de forma autônoma e perderam a única fonte de renda. Desde então, a vida de muitas delas mudou.
Hoje participam das atividades de agroecologia, costura criativa e artesanato sustentável, conquistaram mais autonomia, encontraram no empreendedorismo feminino uma forma de geração de renda e fortaleceram seu protagonismo, superando condições adversas.
Coluna da Neuza: Quais histórias de superação mais marcaram a trajetória desse trabalho e ilustram o impacto do trabalho realizado?
Nilce: Uma das histórias de superação que mais marcou a trajetória da associação é a da presidenta e coordenadora-geral, Deucilene da Silva. Após vivenciar uma grande enchente que atingiu a comunidade onde mora, ela recebeu apoio da associação e percebeu que também poderia ajudar outras mulheres.
A partir dessa experiência, ela passou a se dedicar ainda mais ao trabalho coletivo, iniciou uma graduação em Gestão de Cooperativas e hoje é um exemplo de liderança e transformação.
Outras histórias marcantes são as das artesãs que participaram do projeto e se transformaram em empreendedoras. Hoje, elas possuem carteira de clientes, comercializam seus produtos e conquistaram independência financeira, autonomia e geração de renda. Esse resultado reflete o impacto das ações desenvolvidas por nós.
Coluna da Neuza: Como a transformação de lonas, banners e outros materiais descartados em novos produtos contribui para a geração de renda e a conscientização ambiental?
Nilce: Os materiais são reaproveitados na produção de sacolas, aventais, porta-lápis, bolsas, colchas de retalhos e outras peças artesanais, comercializadas pelas participantes do projeto. Além de promover geração de renda, esse trabalho reduz o descarte errado de resíduos e incentiva práticas de sustentabilidade, mostrando que materiais que levariam muitos anos para se degradar podem ganhar uma nova utilidade.
A responsabilidade ambiental também está presente em outras ações da associação, como o reaproveitamento de embalagens para o cultivo de mudas e a produção de artesanato, reforçando o compromisso com a educação ambiental e a preservação do meio ambiente.
Coluna da Neuza: Quais desafios a associação enfrenta para ampliar suas atuações e apoiar mais mulheres da comunidade?
Nilce: Os principais desafios são a falta de políticas públicas e de apoio do poder público para fortalecer iniciativas de agricultura familiar, agricultura urbana e empreendedorismo feminino. A escassez de investimentos no município, mesmo com a presença da atividade mineradora, também limita o trabalho das organizações sociais.
Além disso, enfrentamos dificuldades para ampliar parcerias e conquistar maior reconhecimento no próprio município, pois nosso trabalho é mais conhecido em outras localidades.
Coluna da Neuza: De que forma a agroecologia, a costura criativa e o artesanato sustentável se conectam dentro da proposta do coletivo?
Nilce: As três frentes se conectam pelo propósito comum de cuidar do meio ambiente e promover a autonomia feminina. A agroecologia orienta o cuidado com a terra, a água e as pessoas, enquanto a costura criativa e o artesanato sustentável transformam materiais reaproveitados em produtos que geram renda. Juntas, também fortalecem ações de educação ambiental, pesquisa e formação em parceria com escolas, universidades e outras instituições.
Coluna da Neuza: O que ainda precisa mudar na sociedade e nas políticas públicas para que iniciativas lideradas por mulheres em territórios periféricos e rurais se fortaleçam?
Nilce: Maior visibilidade das mulheres e o combate ao machismo estrutural por meio de políticas públicas mais efetivas, que garantam espaço, representatividade e oportunidades. É fundamental que mais mulheres ocupem cargos de decisão nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de fortalecer suas presenças no terceiro setor e em seus territórios.
Também é preciso intensificar as políticas de enfrentamento à violência contra a mulher e promover articulações em rede, capazes de fortalecer a autonomia feminina e impulsionar mudanças coletivas e duradouras.
Coluna da Neuza: Ao olhar para o futuro, qual é o sonho da associação e onde vocês gostariam de chegar nos próximos anos?
Nilce: Nosso sonho é ampliar o alcance do trabalho desenvolvido, levando nossas práticas para espaços nacionais e internacionais voltados à sustentabilidade e aos direitos das mulheres. Pretendemos criar uma fundação dedicada à educação ambiental, à agroecologia, à agrofloresta e ao enfrentamento da violência contra a mulher.
Nos próximos anos, queremos fortalecer parcerias, ampliar as ações de educação ambiental nas escolas, envolver mais pessoas no projeto e aprimorar a comunicação para dar maior visibilidade ao nosso trabalho e inspirar novas iniciativas.
Coluna da Neuza: Em nome da Associação Marias Vão Com as Outras Sim!, você poderia deixar uma mensagem para mulheres que estejam enfrentando dificuldades e pensam em desistir dos próprios sonhos?
Nilce: A nossa mensagem é que não desistam desses sonhos. Assim como a natureza é capaz de se regenerar, nós também temos força para superar adversidades, recomeçar e florescer, mesmo após grandes traumas. Falo isso inspirada em nossa patrona, Ana Primavera, cuja trajetória de resiliência e superação nos mostra que a persistência pode transformar vidas e abrir novos caminhos.
Quando uma mulher floresce, muitas florescem junto
A história da Associação Marias Vão com as Outras Sim! mostra que a transformação social começa quando pessoas decidem caminhar juntas. O que nasceu do acolhimento em um período de incertezas transformou-se em uma rede de apoio que fortalece mulheres, gera oportunidades, incentiva a sustentabilidade e amplia a autonomia feminina.
Em tempos onde tantos desafios ainda persistem, iniciativas como essa lembram que mudanças duradouras acontecem quando solidariedade, compromisso e ação coletiva caminham lado a lado. Mais do que transformar materiais descartados em novos produtos, a associação ajuda mulheres a reconstruírem histórias, recuperarem a autoestima e acreditarem novamente no próprio futuro.
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A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.





