Projeto criado pela pedagoga Maria de Nazaré dos Santos Maciel mobiliza famílias, envolve mulheres da comunidade e leva educação ambiental às escolas de Soure, no Pará
Em Soure, município localizado na Ilha do Marajó, no Pará, embalagens plásticas usadas no dia a dia ganham um novo destino. Criado em 2 de novembro de 2025 pela pedagoga Maria de Nazaré dos Santos Maciel, formada pela Universidade Federal do Pará (UFPA), o Recicla Soure nasceu a partir de uma pesquisa sobre o descarte de resíduos nas ruas da cidade.
Ao percorrer bairros e identificar os pontos mais críticos, Nazaré percebeu a presença recorrente de embalagens de produtos consumidos diariamente pelas famílias. A constatação levou a uma segunda pergunta: de que maneira aquele material poderia ser reaproveitado e, ao mesmo tempo, beneficiar mulheres da comunidade?
A resposta começou a tomar forma com a reciclagem de plástico e a produção de almofadas, algumas inspiradas na cultura marajoara. Atualmente, 38 famílias e algumas lojas colaboram com a doação de resíduos. O projeto também realiza atividades com escolas e reúne mulheres, principalmente com mais de 50 anos, em oficinas de corte, costura e bordado.
Em entrevista à Coluna da Neuza, Maria de Nazaré explica como funciona o trabalho, fala sobre os desafios de manter a iniciativa e conta por que a aquisição de uma trituradora está entre os principais sonhos do projeto.
Coluna da Neuza: Como nasceu o projeto Recicla Soure?
Nazaré: O Recicla Soure nasceu de uma pesquisa que comecei nos bairros de Soure para identificar o volume e os tipos de resíduos plásticos descartados nas ruas, além dos pontos mais críticos. Percebi que grande parte era formada por embalagens de produtos usados no dia a dia.
A partir daí, comecei a pesquisar formas de reutilizar esses resíduos e, ao mesmo tempo, envolver as donas de casa no projeto, possibilitando a geração de renda e incentivando o cuidado com o meio ambiente e com a cidade. Foi então que comecei a trabalhar na criação de um produto que pudesse reaproveitar esses materiais e ser comercializado.
Coluna da Neuza: Qual é o principal objetivo do Recicla Soure?
Nazaré: Reduzir o descarte inadequado de resíduos plásticos em Soure por meio da coleta, reciclagem e transformação desses materiais em produtos sustentáveis. Ao mesmo tempo gerar emprego e renda para mulheres da comunidade, fortalecer a consciência ambiental e estimular a cooperação entre moradores e empresas locais.
Coluna da Neuza: Quem são as mulheres beneficiadas pelo projeto?
Nazaré: São donas de casa que estão fora do mercado de trabalho, principalmente acima dos 50 anos. Muitas são pacientes do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e encontram no projeto a possibilidade de socialização, de trabalhar a coordenação motora, a saúde mental e o empreendedorismo.
Coluna da Neuza: O que o projeto oferece para essas mulheres?
Nazaré: Vários benefícios. Elas aprendem a cuidar do meio ambiente enquanto geram renda. O Recicla Soure também funciona como uma válvula de escape, um lugar onde as participantes têm oportunidades, podem usar a criatividade e, ao mesmo tempo, cuidar do meio ambiente.
Coluna da Neuza: Como funciona atualmente o trabalho do Recicla Soure?
Nazaré: Primeiro, fazemos um trabalho de conscientização ambiental sobre o descarte irregular de resíduos plásticos.
O próximo passo é o cadastro dos parceiros que nos apoiam através de doações de materiais. Alguns ligam avisando que tem material para buscarmos, mas muitos entregam diretamente no projeto. Atualmente, temos como aliadas 38 famílias e algumas lojas doadoras.
Coluna da Neuza: Que tipos de materiais vocês recebem e como é feito o tratamento deles?
Nazaré: Recebemos embalagens plásticas de produtos usados no dia a dia, como café, arroz, açúcar, feijão e milho. Os resíduos passam por higienização, secagem e corte. Organizamos dias específicos para cada etapa, com a participação das mulheres do projeto, algumas delas idosas.
As famílias que fazem as doações também assumem o compromisso de manter limpos o entorno e a frente de suas casas. Para nós, isso mostra o impacto ambiental do projeto e como práticas simples, como guardar os resíduos e destiná-los corretamente, ajudam a evitar o descarte incorreto e proteger o meio ambiente.
Coluna da Neuza: Como esses resíduos são transformados em novos produtos dentro do projeto?
Nazaré: Depois do corte, as embalagens plásticas transformadas em fibras, são usadas no enchimento de almofadas. Uma costureira confecciona as capas, enquanto as bordadeiras participam das oficinas e criam estampas inspiradas na cultura marajoara.
Assim, os resíduos são reaproveitados unindo criatividade e valorização da cultura local.

Coluna da Neuza: Como tem sido a parceria com as escolas e de que forma essa aproximação contribui para a conscientização dos alunos?
Nazaré: Muitos professores levam os alunos no projeto para conhecer e participar de atividades, essa interação tem sido maravilhosa. Iniciamos realizações de oficinas dentro das próprias escolas e, além disso, as crianças levam embalagens plásticas de biscoitos para lá, colocam na caixa coletora e depois esse material é encaminhado ao projeto. É uma forma de trabalhar a educação ambiental com elas.
Coluna da Neuza: Quais são hoje os maiores obstáculos para o desenvolvimento do projeto?
Nazaré: Nossa grande dificuldade é a falta de incentivo. O projeto tem despesas fixas bem altas. Dependemos das vendas, do volume de coleta e da colaboração de alguns amigos locais. Não temos apoio do poder público e, por isso, muitas vezes o trabalho é prejudicado.
Coluna da Neuza: Olhando para a trajetória do Recicla Soure, quais são os próximos sonhos ou planos?
Nazaré: Nosso sonho é conseguir uma trituradora e dar um alívio para os dedos, porque cortamos vários quilos de resíduos plásticos com tesoura. Para fazer uma almofada, precisamos de mil a duas mil sacolas plásticas e quando usamos embalagens de café, açúcar e outros produtos, são necessárias entre 1.500 e duas mil unidades, é muito material para cortar manualmente.
Conseguindo essa importante ferramenta, poderemos aumentar a captação de resíduos plásticos, diminuir ainda mais o descarte no lixão, manter a cidade limpa e cuidar melhor do nosso planeta.
Quando o resíduo muda de destino
Entre as embalagens guardadas pelas famílias, o trabalho manual das mulheres e as almofadas que carregam referências da cultura marajoara, o Recicla Soure encontrou uma maneira de unir sustentabilidade, geração de renda e participação comunitária.
A experiência também começa a chegar às novas gerações por meio das escolas. Enquanto isso, Nazaré e as mulheres que integram o projeto seguem cortando manualmente milhares de embalagens e aguardando um recurso que pode ampliar o trabalho, a tão desejada trituradora.
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A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.




