Criado em 2015, coletivo atua no Complexo da Penha com educação, esporte, cultura e ações de fortalecimento comunitário para crianças, jovens, mulheres e idosos
No Morro da Caixa d’Água, no Complexo da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, um espaço que, no passado, foi associado ao medo e à violência hoje recebe crianças para reforço escolar, jovens para atividades esportivas e mulheres e idosos para práticas de cuidado e convivência.
É ali que funciona a sede do O Parque é Nosso, coletivo criado em 2015 que, durante dez anos, desenvolveu suas atividades de forma itinerante pelo território. Há cerca de um ano, o projeto conquistou uma sede e passou a ocupar um imóvel que já abrigou um Destacamento de Policiamento Ostensivo (DPO).
Segundo os diretores do coletivo, Rene Júnio e Suellen Martins, o local carrega lembranças dolorosas para moradores, que relatam episódios de violência no período em que o espaço funcionava como unidade policial. A proposta agora é ressignificar esse passado e transformar o espaço em um ponto de educação comunitária, cultura, esporte, meio ambiente e integração entre os moradores locais.
Essa transformação acontece em um território marcado também pela violência armada. Em 28 de outubro de 2025, os complexos da Penha e do Alemão foram palco da Operação Contenção, considerada a ação policial mais letal da história do estado do Rio de Janeiro.
Para quem vive no local, porém, a história não termina quando uma operação acaba. Permanecem as crianças, as famílias, as escolas, os trabalhadores e os projetos sociais, que seguem abrindo suas portas e construindo possibilidades em meio às dificuldades.
Em uma conversa com os responsáveis, a Coluna da Neuza conheceu mais sobre o trabalho desenvolvido, os resultados alcançados ao longo dos anos e os desafios para manter e ampliar as atividades.
Coluna da Neuza: Suellen, quem é atendido atualmente pelo O Parque é Nosso e quais atividades são oferecidas?
Suellen: Atendemos crianças e jovens de 5 a 16 anos e mulheres de até 70 anos. Buscamos fortalecer o vínculo com o território e ampliar horizontes de formação e cidadania por meio de capoeira, futebol, brincadeiras lúdicas-afetivas, dança, exercício funcional e yoga para mulheres, reforço escolar, apoio psicológico e roda de leitura. Também realizamos encontros, palestras, passeios culturais, de lazer e ambientais.
Um dos nossos objetivos é evitar que as crianças normalizem o comércio ilegal de drogas. Queremos que elas se desenvolvam, reconheçam seus talentos possam fazer boas escolhas e os resultados já podem ser percebidos entre os participantes. Algumas crianças que passaram pelas atividades esportivas desenvolveram habilidades no futebol e, hoje, jogam em outros clubes. Outras melhoraram o desempenho escolar, enquanto as mulheres relataram benefícios para a saúde por meio das atividades físicas.
Coluna da Neuza: Rene, qual é hoje a principal demanda do coletivo?
Rene: Nossa maior demanda este ano está na área educacional. Temos crianças de 13 e 14 anos com muita dificuldade para ler e escrever e decidimos concentrar nossos esforços nessa necessidade, principalmente depois da última operação que aconteceu aqui que teve um impacto muito forte sobre os jovens e suas famílias.
Queremos que esses adolescentes continuem sonhando e pensando no futuro. Hoje, atendemos 20 crianças diretamente no reforço escolar e queremos chegar a 100, mas precisamos de recursos para contratar professores, oferecer ajuda de custo e garantir alimentação. Uma criança aprende melhor quando tem alimentação adequada e condições para se concentrar nos estudos.
Nossa luta é evitar que jovens, sem perspectivas e com dificuldades de aprendizagem, acabem fazendo escolhas erradas.
Coluna da Neuza: Mesmo com a conquista de uma sede, quais dificuldades o coletivo ainda enfrenta para manter as atividades?
Rene: Ainda enfrentamos dificuldades financeiras. Precisamos de recursos para materiais escolares, esportivos e de limpeza, manutenção do espaço, regularização documental e apoio aos profissionais e voluntários.
Coluna da Neuza: Quais são as necessidades mais urgentes da iniciativa?
Rene: Uma das nossas maiores necessidades é manter os voluntários que atuam nas oficinas. Gostaríamos de poder oferecer ao menos uma ajuda de custo. Também precisamos melhorar a estrutura do espaço para que as crianças tenham mais conforto durante as atividades.
Já temos treinamentos funcionais para a terceira idade e ioga para as mulheres, além de rodas de conversa que ajudam a fortalecer esses grupos. Contar com mais profissionais permitiria ampliar esse trabalho e atender melhor às necessidades da comunidade.
Outra prioridade é ampliar o atendimento com psicólogos e profissionais que desenvolvam atividades com os idosos. Depois da última investida policial, percebemos o quanto o episódio mexeu com as crianças, mães, pais e avós. Essas famílias precisam de cuidado.
Coluna da Neuza: Quantas pessoas são atendidas atualmente?
Rene: Hoje, atendemos 197 pessoas, mas, ao longo da existência do coletivo, já alcançamos cerca de 890 famílias de três comunidades do Complexo da Penha: os morros da Caixa d’Água, Sereno e da Paz. O impacto de uma iniciativa social nem sempre aparece imediatamente; muitas vezes, ele só se torna visível muito tempo depois.
Coluna da Neuza: Qual resultado positivo você vem percebendo nos beneficiários ao longo do tempo?
Rene: Vemos crianças que chegaram aqui com 5 ou 6 anos e hoje estão na faculdade ou seguindo novos caminhos. Alguns desses jovens, inclusive, voltaram como voluntários; percebemos mudanças nos hábitos e na forma como crianças, jovens, mulheres e idosos passam a enxergar o futuro.
Acho que o maior impacto é justamente esse, fazer com que as pessoas voltem a sonhar e a ter novas perspectivas de vida. A percepção também aparece entre as famílias atendidas.
Coluna da Neuza: O que a conquista da sede própria representou para o coletivo O Parque é Nosso?
Suellen: A nossa maior vitória é termos o espaço. Estar em uma sede própria, sem pagar aluguel, é uma conquista muito importante para nós, mas queremos também aumentar nossas receitas para ajudar a custear as despesas e conseguir atender mais pessoas dentro da favela. A questão financeira acaba envolvendo todas as áreas do projeto.
Precisamos de recursos para o funcionamento do trabalho, compra de materiais de limpeza, escolares e esportivos, para a regularização dos documentos como o CNPJ, que ainda não temos. O nosso grande desafio é manter o atendimento diante da grande quantidade de pessoas que nos procuram.
Um espaço para construir outras histórias
Onde um dia houve medo, hoje crianças entram carregando bolas, brinquedos, livros e cadernos. Mulheres se encontram para cuidar do corpo e trocar ideias entre si; idosos recuperam movimentos e retomam a convivência; e jovens que chegaram pequenos voltam adultos para ajudar outros que estão começando.
Em um território constantemente lembrado pelas notícias de violência, iniciativas como o O Parque é Nosso ajudam a mostrar uma parte do Complexo da Penha que nem sempre chega ao noticiário. É a história construída diariamente por quem permanece no território, cuida, educa, compartilha conhecimento e cria caminhos para que crianças e jovens possam imaginar outras possibilidades para o futuro.
Arthur, de 11 anos, aluno do 6º ano, pratica futebol e capoeira no projeto e conta que as atividades tiveram impacto em sua rotina. “Estar aqui me ajuda a ter outras atividades e a não ficar só no celular. Também conheci mais amigos e passei a ocupar melhor o meu tempo. Desde que entrei no projeto, fiquei mais ágil, mais esperto e aprendi a ter mais disciplina.”
Ítalo Miguel, também de 11 anos e aluno do 6º ano, participa do projeto há quatro anos e diz que as aulas de reforço escolar o ajudaram na escola. “Faço capoeira, futebol, reforço escolar e poesia. Percebo que fiquei mais ágil e disciplinado. Também melhorei meus reflexos, e o reforço tem me ajudado bastante na escola, principalmente na escrita.”
Para Bruna, de 24 anos, mãe de uma das crianças que participam das atividades de futebol, o projeto também tem um papel importante na rotina das famílias. “O projeto é muito importante porque ocupa o tempo das crianças depois da escola e evita que elas fiquem sem atividade. Também ajuda a afastá-las de situações e influências negativas que fazem parte da realidade do lugar onde a gente mora.”
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A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.





