Projeto transforma lacres de alumínio em cadeiras de rodas e inclusão

reciclagem de alumínio

O Projeto Lacre do Bem nasceu de uma iniciativa familiar e já reciclou 122 toneladas de alumínio, transformadas em 1.140 cadeiras de rodas para pessoas em situação de vulnerabilidade, unindo reciclagem, sustentabilidade e inclusão social

Guardar um simples lacre de alumínio pode parecer um gesto sem importância. Mas, quando milhares de pessoas fazem o mesmo, o resultado pode transformar vidas. Essa é a proposta do Lacre do Bem, iniciativa criada em 2013 que mobiliza escolas, empresas, comunidades e voluntários em torno da reciclagem, da economia circular e da solidariedade.

Com sede em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, o projeto se tornou referência nacional ao mostrar que resíduos podem ganhar um novo significado. O alumínio arrecadado é vendido para reciclagem e os recursos obtidos financiam a compra de cadeiras de rodas, doadas gratuitamente a pessoas com deficiência e instituições filantrópicas.

Nesta entrevista à Coluna da Neuza, a gestora Ivete Macedo conta como uma ideia que surgiu dentro da própria família cresceu, superou desafios e se transformou em uma grande rede de transformação social e ambiental.

Coluna da Neuza: Como nasceu o Lacre do Bem e o que motivou a criação do projeto?

Ivete Macedo: O projeto nasceu em 2013, quando minha família descobriu que os lacres de alumínio poderiam ser reciclados e o dinheiro utilizado para comprar cadeiras de rodas. No início, percebemos que seria impossível alcançar esse objetivo sozinhos. Depois de meses juntando lacres, tínhamos apenas metade de uma garrafa PET, quando seriam necessárias cerca de 140 para comprar uma única cadeira.

Enquanto meus pais enxergavam a dificuldade, eu olhava para aquela metade cheia e via o primeiro passo. Passei a distribuir bilhetes para os colegas de escola e fazer cartazes para incentivar a participação de outras pessoas. Aos poucos, a comunidade abraçou a ideia e conseguimos doar a primeira cadeira de rodas.

Mas acredito que a história começou muito antes. Desde criança, meus pais me ensinaram a ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade. O Lacre do Bem é resultado desses valores e da certeza de que pequenos gestos podem gerar grandes transformações.

Coluna da Neuza: Qual é o principal objetivo da iniciativa?

Ivete Macedo: Nosso objetivo é promover impacto humano por meio da educação ambiental, da inclusão social e da melhoria da qualidade de vida. Além de arrecadar lacres, queremos mostrar que ações simples, quando realizadas coletivamente, transformam vidas.

Também buscamos dar um novo significado ao lacre de alumínio. O que antes seria descartado passa a representar mobilidade, autonomia e esperança para quem precisa de uma cadeira de rodas.

Outro compromisso é incentivar a reciclagem. O alumínio pode ser reaproveitado infinitas vezes, reduzindo a extração de recursos naturais e os impactos ambientais. Assim, cada lacre arrecadado beneficia tanto o meio ambiente quanto pessoas que precisam desse apoio.

reciclagem de alumínio
Foto: Divulgação/Lacre do Bem

Coluna da Neuza: Como funciona, na prática, o caminho do lacre até se transformar em uma cadeira de rodas?

Ivete Macedo: Tudo começa quando alguém decide guardar um lacre em vez de descartá-lo. Eles são recolhidos em escolas, empresas, comércios e outros pontos parceiros. Depois, fazemos a separação do material e armazenamos os lacres até reunir mais de uma tonelada.

Em seguida, o alumínio é vendido para a indústria de reciclagem e todo o recurso arrecadado é destinado à compra de cadeiras de rodas, entregues gratuitamente a pessoas com deficiência física e instituições filantrópicas.

Mas o impacto vai muito além da cadeira. Ela representa autonomia, dignidade, inclusão e a possibilidade de estudar, trabalhar, circular pela cidade e viver com mais independência. É assim que um objeto tão pequeno se transforma em expectativa positiva para muitas famílias.

Coluna da Neuza: Quantos lacres já foram reciclados até hoje?

Ivete Macedo: Já reciclamos 122 toneladas de lacres de alumínio e doamos 1.140 cadeiras de rodas.

Coluna da Neuza: Como vocês conseguem mobilizar escolas, empresas, comunidades e voluntários para integrar essa rede de solidariedade?

Ivete Macedo: A participação da sociedade é o que torna o Lacre do Bem possível, por isso mobilizamos escolas, empresas, comunidades e voluntários por meio de palestras, campanhas de conscientização, redes sociais e parcerias com instituições que acreditam na nossa causa.

As escolas têm um papel fundamental, porque, além de arrecadarem os lacres, ajudam a formar crianças e jovens mais conscientes sobre sustentabilidade e solidariedade. Já as empresas colaboram disponibilizando pontos de coleta e incentivando seus colaboradores a participar.

Acreditamos que qualquer pessoa pode fazer parte dessa corrente do bem. Não importa a quantidade de lacres arrecadada. O impacto nasce da soma de pequenos gestos.

Coluna da Neuza: Além do impacto social, o projeto também contribui para a sustentabilidade e a economia circular. Como vocês enxergam essa relação?

Ivete Macedo: A sustentabilidade é um dos pilares do projeto. O Lacre do Bem demonstra, na prática, como a economia circular transforma um resíduo em um recurso de valor.

Em vez de serem descartados, os lacres retornam à cadeia produtiva por meio da reciclagem e geram meios para a compra de cadeiras de rodas. Como o alumínio pode ser reciclado infinitas vezes, também reduzimos o consumo de energia, a extração de matérias-primas e os impactos ambientais causados pela mineração.

Dessa forma, um gesto simples beneficia, ao mesmo tempo, o meio ambiente e pessoas que precisam de mais mobilidade e qualidade de vida.

Coluna da Neuza: Quais foram os maiores desafios enfrentados desde a criação do projeto?

Ivete Macedo: Um dos principais desafios é manter o projeto sem apoio financeiro permanente. Muitos custos, como transporte para recolher doações, entregar cadeiras de rodas e participar de ações sociais, ainda são assumidos pela própria equipe.

Outro desafio é o número reduzido de voluntários, que precisam conciliar o trabalho no projeto com suas atividades pessoais e profissionais.

Mesmo assim, seguimos em frente graças ao apoio da família, dos parceiros e de todas as pessoas que acreditam na nossa missão. Cada novo voluntário, ponto de coleta ou empresa parceira fortalece essa rede e nos ajuda a ampliar o impacto social.

Foto: Divulgação/Lacre do Bem

Coluna da Neuza: Quais conquistas mais marcaram a trajetória do Lacre do Bem?

Ivete Macedo: Cada cadeira de rodas entregue representa uma conquista. Mas alcançar a marca de 1.000 cadeiras doadas, em 2024, foi um momento muito especial. Foi a confirmação de que uma ideia iniciada ainda na minha infância se transformou em um movimento capaz de mobilizar milhares de pessoas.

Também celebramos a inscrição no Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS), que fortaleceu institucionalmente o projeto, além do Prêmio Bom Exemplo, recebido em 2014, e da entrevista concedida ao Luciano Huck, em 2016, que ampliou muito a visibilidade da iniciativa.

Outro marco foi o lançamento, em 2017, do livro Julia do Lacre do Bem, criado para inspirar crianças e jovens a perceberem que pequenas atitudes podem transformar vidas.

Mas, acima de qualquer reconhecimento, damos valor a cada parceiro, escola, empresa, voluntário e cidadão que decidiu guardar um simples lacre. O projeto só existe porque foi construído coletivamente.

Coluna da Neuza: Quem são as pessoas beneficiadas pelo Lacre do Bem e quais histórias mais marcaram a trajetória da iniciativa?

Ivete Macedo: O Lacre do Bem beneficia pessoas com deficiência e idosos em situação de vulnerabilidade social, incluindo quem sofreu AVC, amputações, acidentes de trânsito, complicações do diabetes, demências e outras condições que comprometem a mobilidade.

Cada cadeira de rodas entregue representa uma história de superação. Uma das mais marcantes foi a de um noivo amputado, do Espírito Santo, que sonhava entrar na igreja com dignidade no dia do casamento. 

Mobilizamos nossa rede de parceiros e conseguimos entregar a cadeira de rodas a tempo da cerimônia. Ver aquele sonho realizado foi um dos momentos mais emocionantes da nossa trajetória.

Também nos sensibilizam os pedidos de pessoas em tratamento contra o câncer que perderam a mobilidade, mas desejam continuar vivendo momentos especiais ao lado da família, como ir às consultas, passear ou simplesmente sair de casa. Quando conseguimos atender esses pedidos, temos a certeza de que nossa missão está sendo cumprida.

Além da doação de cadeiras de rodas, o projeto desenvolve outras ações voltadas ao fortalecimento da comunidade. Em parceria com o Mesa Brasil SESC, atende semanalmente 120 famílias em situação de vulnerabilidade com sacolões solidários e, mensalmente, com cestas básicas. Também oferece cursos de artes, pintura, artesanato com materiais reciclados e costura social, incentivando o empreendedorismo e dando novo significado a materiais que seriam descartados.

Um pequeno gesto que inspira e promove grandes mudanças

Ao longo de mais de uma década, o Lacre do Bem mostrou que solidariedade, sustentabilidade e participação coletiva podem transformar vidas. Mais do que reciclar alumínio, o projeto também promove inclusão, fortalece comunidades e leva esperança a quem mais precisa.

Histórias como essa mostram que grandes mudanças também podem nascer de pequenos gestos. Quando cada pessoa faz a sua parte, o impacto coletivo se torna muito maior do que se imagina.

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Adquira o Livro Julia Lacre do Bem e ajude na manutenção do projeto.

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A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.

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