Do combate ao HIV à defesa dos direitos humanos, Amigos da Vida amplia atuação em Brasília

pessoas com HIV

Sediada no Distrito Federal, a sociedade Amigos da Vida  oferece assistência jurídica e psicológica e desenvolve projetos de educação e inclusão para diferentes públicos em situação de vulnerabilidade

Fundada em 2000 e sediada em Brasília (DF), a sociedade Amigos da Vida nasceu a partir de uma experiência pessoal que se transformou em mobilização coletiva. O diagnóstico de HIV de Christiano Ramos levou seu pai, José Ramos, juiz de família aposentado, a criar uma organização inicialmente dedicada ao apoio a pessoas que viviam com o vírus.

Com o passar dos anos, a atuação foi ampliada e passou a alcançar também a população LGBT, pessoas negras e indígenas, além de crianças e adolescentes. Atualmente à frente da instituição, Christiano Ramos é ativista dos direitos humanos e militante histórico da luta contra a aids.

Apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento, o HIV ainda é uma questão de saúde pública no Brasil. Segundo o Boletim Epidemiológico de HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde, foram registrados, em 2024,  39.216 casos de infecção pelo vírus e 9.157 óbitos que tiveram o HIV ou aids como causa básica. 

Nos dois anos anteriores, o número de mortes caiu 17,2%, reforçando os avanços no enfrentamento da doença, mas também a importância da prevenção, da informação e do combate ao preconceito. 

Para conhecer melhor essa trajetória, os desafios enfrentados ao longo dos anos e os caminhos que a Amigos da Vida pretende seguir, a Coluna da Neuza conversou com Christiano Ramos. Na entrevista a seguir, ele fala sobre a atuação da organização, os avanços na luta contra o HIV e a aids e a ampliação do trabalho em defesa dos direitos humanos. Confira!

Coluna da Neuza: Como surgiu a sociedade Amigos da Vida?

Christiano Ramos: A sociedade foi fundada no ano 2000 pelo meu pai, José Ramos, juiz de família aposentado. A organização surgiu a partir do meu diagnóstico de HIV, com a proposta de dar suporte às pessoas que viviam com o vírus.

Coluna da Neuza: Qual foi o primeiro trabalho desenvolvido pela organização?

Christiano Ramos: Nosso principal carro-chefe sempre foi o núcleo de assistência jurídica. Ele foi criado desde a fundação para atender pessoas vivendo com HIV e a população LGBT em questões previdenciárias, trabalhistas e cíveis.

Coluna da Neuza: Quais outros projetos a Amigos da Vida desenvolve atualmente?

Christiano Ramos: Temos as Brinquedotecas Renato Russo, instaladas em hospitais da periferia do Distrito Federal, com cada uma atendendo cerca de 800 crianças anualmente, e as Bibliotecas Renato Russo, presentes em seis escolas de ensino médio da periferia, com foco também na inclusão digital. Cada uma atende, em média, 500 alunos por ano. Oferecemos também atendimento psicológico para pessoas vivendo com HIV e para a população LGBT. Atualmente temos dois psicólogos.

Coluna da Neuza: A organização também desenvolve projetos específicos para a população LGBT?

Christiano Ramos: Sim, temos o projeto Direitos Iguais, realizado por meio de emenda parlamentar, e o projeto Transformadas, voltado para mulheres trans e travestis. Desenvolvemos ainda um trabalho com a população indígena no Museu dos Povos Originários do Distrito Federal, em parceria com a Embaixada da Nova Zelândia.

Coluna da Neuza: Hoje, qual é o alcance do atendimento jurídico e há quanto tempo a organização começou a oferecer atendimento psicológico?

Christiano Ramos: O núcleo jurídico atende em torno de 80 pessoas por ano, já o atendimento psicológico é mais recente, começou há cerca de quatro meses.

Coluna da Neuza: A Amigos da Vida nasceu com foco na aids. Esse perfil mudou ao longo dos anos?

Christiano Ramos: Mudou muito. Ao longo desses 26 anos, ampliamos nossa atuação para os direitos humanos de maneira mais ampla, incluindo as pautas da população negra, LGBT e indígena. Hoje, as pessoas vivendo com HIV representam o menor público atendido por nós.

Coluna da Neuza: Como você percebe atualmente a discussão sobre HIV e aids na sociedade?

Christiano Ramos: A pauta da aids acabou sendo muito invisibilizada. Nas décadas de 80 e 90 havia uma mobilização muito maior em torno do tema. Hoje, apesar de o HIV continuar existindo, essa discussão perdeu muito espaço na sociedade. Eu vivo com HIV há 40 anos e acompanhei de perto toda essa transformação.

Coluna da Neuza: Ao longo dessa trajetória, qual conquista da organização você considera especialmente importante?

Christiano Ramos: Uma das principais conquistas foi na área jurídica, conseguimos derrubar a exigência de sorologia para HIV como critério de admissão em vários concursos públicos. Isso colocou as pessoas vivendo com HIV em condições de igualdade e ajudou a combater uma forma de discriminação que existia naquela época.

Coluna da Neuza: Quais são hoje as principais dificuldades enfrentadas pelo público atendido?

Christiano Ramos: Uma das maiores dificuldades continua sendo fazer valer os direitos sociais e individuais que já são garantidos por lei. Muitas vezes, esses direitos existem, mas a pessoa encontra dificuldades para que sejam reconhecidos e efetivamente cumpridos.

Coluna da Neuza: Como a Amigos da Vida se mantém financeiramente?

Christiano Ramos: Nós trabalhamos com recursos provenientes de emendas parlamentares, editais de projetos da iniciativa privada, fundos internacionais e parcerias com embaixadas aqui em Brasília. O grande problema é que esses recursos normalmente estão vinculados a projetos e rubricas específicas.

Coluna da Neuza: E como isso afeta o funcionamento da organização?

Christiano Ramos: Faz muita diferença porque não temos recursos livres para atender situações emergenciais. Às vezes surge uma necessidade que não estava prevista em determinado projeto, mas não podemos simplesmente utilizar aquele recurso porque ele tem uma finalidade específica. Outra dificuldade é a redução na captação.

Hoje, precisamos fazer mais com menos recursos, e esse é um problema enfrentado por muitas organizações no Brasil.

Coluna da Neuza: A instituição ainda mantém algum serviço específico relacionado ao HIV?

Christiano Ramos: Sim. Temos um serviço de aconselhamento e triagem por telefone, o Disque Aids, pelo qual eu sou responsável pessoalmente. Também mantemos o núcleo jurídico e o atendimento psicológico, embora uma das nossas maiores dificuldades seja justamente encontrar editais que permitam manter esses serviços funcionando.

Coluna da Neuza: A organização  aceita voluntários?

Christiano Ramos: Sim. Temos aproximadamente 30 voluntários, que são chamados principalmente para ações específicas realizadas durante o ano. Quem tiver interesse em participar pode se inscrever pelo nosso site.

Coluna da Neuza: Quais são os próximos projetos da organização?

Christiano Ramos: Queremos captar recursos para reformar as bibliotecas e as brinquedotecas. Recentemente, entregamos uma biblioteca e está prevista para dezembro a inauguração de uma brinquedoteca no Hospital Regional de Sobradinho. Também pretendemos realizar uma ação de Natal com as crianças.

Coluna da Neuza: Como as pessoas podem conhecer ou apoiar o trabalho da Amigos da Vida?

Christiano Ramos: Quem quiser conhecer melhor nosso trabalho, participar como voluntário ou contribuir com a organização de alguma forma é só acessar o nosso site. Lá estão todas as informações.

Uma trajetória que segue transformando vidas

Mais de duas décadas após sua criação, a Amigos da Vida mantém vivos  os princípios que deram origem à organização e amplia sua atuação para novas frentes de acolhimento, inclusão e defesa de direitos, alcançando diferentes públicos em situação de vulnerabilidade.

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A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.

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