Ligada à JOCUM Comunidades, iniciativa disponibiliza reforço escolar, cursos profissionalizantes, oficinas e atendimentos sociais para cerca de 197 pessoas por semana
A Tijuca, na Zona Norte do Rio de Janeiro, reúne comunidades como Borel, Formiga, Salgueiro e Turano, entre outras localidades. Há mais de 30 anos, a JOCUM Borel, braço local da Jovens Com Uma Missão (JOCUM), organização cristã internacional que desenvolve projetos sociais, educacionais e de formação, atua no Morro do Borel nas áreas de educação, esporte, saúde e música.
A partir dessa experiência e da necessidade de ampliar o atendimento a moradores de diferentes territórios da região, nasceu a Casa do Bem, inaugurada em 24 de julho de 2024, na Rua Uruguai, 307. Ligada à JOCUM Comunidades, a iniciativa reúne ações de educação, formação profissional, convivência e apoio social, com atividades voltadas a diferentes faixas etárias.
Uma das coordenadoras da instituição, Márcia Almeida, conversou com a Coluna da Neuza sobre os projetos desenvolvidos, o alcance das ações, histórias marcantes, desafios e planos para o futuro. Confira a entrevista.
Coluna da Neuza: Quais projetos e atividades são desenvolvidos hoje?
Márcia Almeida: Temos projetos voltados à educação, formação profissional e à convivência. O Projeto Bem Saber, por exemplo, oferece reforço escolar para alunos do Ensino Fundamental I e II, enquanto o Projeto Criarte reúne oficinas de pintura, macramê, crochê, lettering, cartonagem e costura criativa.
Em parceria com a Firjan, realizamos cursos profissionalizantes de drywall, eletricista de obras e logística. A instituição fornece os professores e o material didático, e nós cedemos o espaço.
A programação inclui ainda aulas de informática e inglês, ações na área de estética, como design de sobrancelhas, cuidados e cortes de cabelo e formação de cabeleireiros, além de atendimento jurídico, psicológico e de assistência social às famílias.
Também arrecadamos alimentos para compor cestas básicas destinadas principalmente a famílias do Morro do Borel e recebemos roupas para bazares e projetos da comunidade.
Coluna da Neuza: Como funciona o voluntariado na Casa do Bem?
Márcia Almeida: Em geral, os professores e instrutores são missionários da JOCUM, que trabalham em tempo integral, ou voluntários. Para participar, basta a pessoa preencher uma ficha de cadastro no site e, em seguida, passar por uma entrevista.
Sempre procuramos entender também como o projeto pode contribuir para a vida de quem se candidata, porque consideramos esse trabalho uma troca de experiências. Após a aprovação, assina o termo de voluntariado e já pode começar a atuar.
Todos os missionários são cristãos, embora pertençam a igrejas diferentes. Eles passam por uma formação para então se dedicarem à missão.
Coluna da Neuza: Quem lidera a Casa do Bem?
Márcia Almeida: A liderança é exercida por Andréia Rosa; Elaine Nolding, assistente social; Leandro Machado, responsável pela área jurídica; e por mim, como uma das coordenadoras.
Coluna da Neuza: O que levou à criação da Casa do Bem?
Márcia Almeida: A Casa do Bem surgiu a partir dos projetos desenvolvidos pela JOCUM, no Borel. Inicialmente, nosso objetivo era atender jovens das comunidades do Complexo da Tijuca, mas percebemos a necessidade de ampliar as ações e estender as oportunidades a outros territórios do entorno.
Como existem diferentes comunidades na região, o pastor Jovino Neto, que liderava o trabalho, falecido em 5 de dezembro de 2025, teve a ideia de criar um espaço em local neutro, que pudesse receber pessoas de diferentes localidades. Assim, seria possível aumentar o número de atendidos, principalmente por meio da preparação para o mercado de trabalho, com foco na juventude.
Coluna da Neuza: O atendimento é direcionado apenas aos jovens?
Márcia Almeida: Hoje, trabalhamos com todas as pessoas interessadas em participar dos projetos. Atendemos desde adolescentes, com reforço escolar, até pessoas idosas que frequentam o Projeto Criarte, com oficinas de arteterapia e artesanato. O público se tornou muito diverso, e o espaço tem ficado pequeno diante da quantidade de atividades realizadas.
Coluna da Neuza: Quantas pessoas são atendidas pela Casa do Bem?
Márcia Almeida: O número pode variar, mas, em média, cerca de 197 pessoas passam pela instituição por semana. Também funcionamos como um canal de acesso a atividades que não são oferecidas aqui, mas acontecem no Borel. Um exemplo é o Projeto das Alices, formado por meninas de 8 a 17 anos, que se reúne duas vezes por semana.
Coluna da Neuza: Há alguma história sobre beneficiários que mostre o impacto da iniciativa?
Márcia Almeida: Sim. Uma delas é a de um senhor que já viveu em situação de rua. Ele participou dos cursos de drywall e eletricista e, atualmente, tem uma casa para morar, é aposentado e continua próximo ao projeto ajudando, por exemplo, na preparação do lanche das turmas. Recentemente, comemoramos seu aniversário de 71 anos.
A participação dele nas atividades, contribuiu para uma mudança em sua história de vida e, principalmente, para o fortalecimento da autoestima. Hoje, ele mora longe, mas mantém o vínculo conosco.
Temos também um aluno que estava desempregado e fazia o curso de eletricista de obras para tentar trabalhar na área. Antes mesmo de concluir a formação, na última semana de aula, conseguiu uma vaga na Light e hoje está empregado. Graças a Deus por isso.
Outro caso marcante é o de um estudante do sétimo ano que tinha muita dificuldade com o idioma inglês e por isso suas notas eram baixas. Mas depois de frequentar o reforço escolar durante o ano, voltou à Casa do Bem para mostrar o boletim.
Muito feliz, disse: “Tia, consegui!”. As notas haviam subido para 9 e 10. Desde então, ele passa por aqui para contar quando consegue um bom resultado e chegou a dizer que já não precisava mais das aulas de reforço.
Também tivemos alunas do curso Conectados 60+ que não sabiam utilizar o celular e concluíram as aulas com conhecimentos de informática, muito agradecidas pelo que aprenderam.
Coluna da Neuza: Como os moradores, parceiros e apoiadores contribuem para a manutenção da Casa do Bem?
Márcia Almeida: Eles colaboram de diferentes formas. Recebemos roupas destinadas a bazares realizados no Morro do Borel e na Casa do Bem, com o objetivo de arrecadar recursos para ajudar na manutenção. Também chegam livros didáticos, utilizados no reforço escolar. Quando há excedentes, doamos para uma organização parceira no Jardim Gramacho.
Os voluntários contribuem com seu tempo. Alguns moram em locais distantes, como Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Gostaríamos de oferecer pelo menos o custo do transporte, mas ainda não conseguimos. Parceiros e apoiadores também doam materiais descartáveis, café e outros itens necessários às atividades.
Esporadicamente, recebemos pequenos valores, como R$20, que ajudam nas despesas. A própria equipe se reveza nos cuidados para manter o espaço em ordem.
Coluna da Neuza: Quais são os planos para o futuro?
Márcia Almeida: Queremos ampliar os turnos dos cursos profissionalizantes para que aconteçam também à noite e aos sábados, porque existe muita procura nesses horários. A ideia é abrir a casa pela manhã e só fechar as portas à noite.
Coluna da Neuza: Neste momento, quais são as necessidades da Casa do Bem?
Márcia Almeida: Queremos ampliar as atividades, mas isso também aumentará os custos, e não temos condições de manter tudo sozinhos. Por isso, precisamos do apoio da sociedade para seguir nessa missão.
Essa é a nossa oração diária: que Deus nos dê discernimento para liderar o projeto e envie mais parceiros para a Casa do Bem.
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