Em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, Fernanda Tuxi administra um hotel onde convivência, inclusão e trabalho fazem parte da rotina de pessoas com diferentes experiências relacionadas à saúde mental
A Casa Tuxi funciona como hotel, mas a hospedagem é apenas parte do que acontece ali. O local também se tornou um espaço de convivência, trabalho e construção de autonomia.
A casa é cheia de objetos decorativos e tem um ambiente acolhedor. Piscina, bar, recepção, pufes, bancos e cadeiras ocupam diferentes cantos e convidam a ficar. Quando cheguei, Fernanda Tuxi, fundadora do espaço, ainda não estava. Enquanto esperava, uma ex-colaboradora ensaiava música com um amigo.
A convivência na Casa Tuxi também envolve desafios. Como em qualquer ambiente em que as pessoas trabalham e passam boa parte do tempo juntas, há diferenças, desentendimentos e momentos de tensão. Mas também existem vínculos construídos no cotidiano, marcados pelo afeto e pelo cuidado.
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, do IBGE, 10,2% dos adultos relataram diagnóstico de depressão diagnosticado por profissional de saúde, o equivalente a 16,3 milhões de brasileiros. No SUS, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) oferecem atendimento especializado em saúde mental e fazem parte de algumas histórias da Casa Tuxi.
Fernanda Tuxi se apresenta como paciente psiquiátrica e conta ter sido diagnosticada com transtorno bipolar e Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). Mas faz questão de dizer que os diagnósticos não a definem nem aos seus colaboradores. Há 11 anos no local, encontrou na Casa Tuxi uma missão. Confira a entrevista.
Coluna da Neuza: O que te levou a ter a ideia de criar esse hotel?
Fernanda Tuxi: A possibilidade de dar uma chance para as pessoas e, principalmente, para mim. Minha mãe me educou de uma forma que eu não me considero melhor nem pior do que ninguém que está na Casa Tuxi. Todos nós somos iguais e jamais eu poderia pensar em dar oportunidade de forma unilateral.
Eles também estão me dando oportunidade de existir e construir uma missão. Eu me sinto acolhida e compreendida, essa oportunidade de realizar dá sentido à minha vida. Venho descobrindo isso, por meio dos meus estudos, esforços contínuos e através da Virtologia, que é algo novo na minha vida.
Às vezes, pensamos que a felicidade está em bens materiais, viagens, casamento, faculdade ou filhos. Mas acredito que ela consiste em cumprir a missão para a qual viemos ao mundo. A Casa Tuxi é a minha missão.
Coluna da Neuza: Existe algum protocolo ou rede de apoio para funcionários que necessitam de suporte emocional durante a jornada de trabalho?
Fernanda Tuxi: Só contamos com o atendimento comum do CAPS. Cada um é responsável pelo próprio tratamento. Não há suporte particular ou voluntário e levamos muito a sério a medicação e a terapia, porque sabemos o quanto isso faz diferença e o quanto é perigoso não seguir à risca, pois corremos o risco de voltar para um lugar que não queremos, como uma internação.
Coluna da Neuza: Como é a relação entre os colaboradores e os hóspedes?
Fernanda Tuxi: É a melhor possível. Os meus colaboradores estão de parabéns no tratamento com os hóspedes. Às vezes, eles brigam entre si e acham que eu sou mãe deles, mas eu não os pari e não dirijo uma creche. Às vezes, tenho vontade de tomar uma atitude drástica com todos eles, mas eu os amo tanto que, no final, acabo acolhendo. Só quero que todo mundo fique bem.
Coluna da Neuza: O que você considera mais especial na Casa Tuxi?
Fernanda Tuxi: O melhor da Casa Tuxi são as pessoas que estão aqui. Todos são de alto quilate, e não estou falando isso porque são meus funcionários. Eles realmente me dão orgulho.
Coluna da Neuza: Como o trabalho na Casa Tuxi impacta a saúde mental e o processo de recuperação dos colaboradores?

Fernanda Tuxi: Na minha visão, vai muito além da saúde mental. A maioria dos funcionários chegou aqui sem saber fritar um ovo. Porque a loucura nem sempre se desenvolve só por uma questão psíquica, mas também pela criação.
Existem muitas mães narcisistas que criam seus filhos com egoísmo, com controle. Eu sei que nem sempre é por mal, às vezes a pessoa simplesmente quer dar tudo aquilo que não teve para a criança. O problema é que isso cessa a possibilidade desse ser humano se desenvolver.
Hoje entendo que talvez eu tenha passado por tudo o que passei, como perder meu pai, minha mãe ter ido morar em outro lugar e minha avó ter tirado a própria vida, para me tornar o ser humano que venho me tornando.
Eu só preciso ter mais tolerância com as pessoas que acham que a vida é um morango. A vida é sobre adversidades e oportunidades. Temos que nos tornar pessoas melhores e mais capazes.
Coluna da Neuza: Além da questão emocional, que habilidades os colaboradores desenvolvem trabalhando na Casa?
Fernanda Tuxi: Eu não sabia fazer uma caipirinha. Hoje, posso ensinar aos demais. Tenho certeza de que, quando saírem daqui, estarão capacitados para outros trabalhos, pois hoje cozinham, fazem drinks, arrumam camas, lavam banheiros, recepcionam e preparam do café da manhã ao jantar. Fazemos até eventos.
Minha camareira, uma senhora de 61 anos, chegou aqui e nem falava. Hoje conversa, dialoga, reclama, aprendeu até a dizer não.
Coluna da Neuza: E o que essa experiência te ensinou sobre a diferença que você deseja fazer na vida das pessoas?
Fernanda Tuxi: Eu acho que a emoção é passageira, mas a decisão é eterna. Estou decidida a fazer a diferença na vida de cada pessoa que cruzar o meu caminho. Não só dando uma oportunidade aqui na Casa Tuxi, mas demonstrando, com o meu viver e minhas atitudes, como é ser um ser humano melhor. Ainda que, às vezes, eu seja agressiva, não vou deixar de fazer a minha parte.
Coluna da Neuza: O que você diria a um empresário que quisesse criar um negócio com uma proposta semelhante?
Fernanda Tuxi: Se for com intenção financeira, é melhor não fazer. Inclusive, eu já tive prejuízo por conta do déficit de atenção dos funcionários. Se a pessoa resolver fazer, que não seja por dinheiro. Que faça de coração e não pensando em lucro.
Uma casa de afetos
Munique Matos, artista, cantora, compositora, percussionista corporal e sapateadora, conheceu Fernanda no CAPS e, posteriormente, atuou como colaboradora da Casa Tuxi por dois meses.
“Para mim, foi muito importante, me senti fortalecida. A Casa tem muita demanda e temos que lidar com isso com expertise, e fui desenvolvendo isso aos poucos. Além de ser um hotel, acolhe reuniões, ensaios e apresentações artísticas. Às vezes, eu entro só para um bate-papo. Para mim, essa é uma casa de afetos.”
Natália, moradora do Rio de Janeiro, conheceu a Casa Tuxi pelo Instagram. “Fiquei interessada e vim conhecer. Eu gostei bastante do que vi e do que me foi apresentado.”
Letícia também chegou ao local sem conhecer a dinâmica da casa e destacou a inclusão. “Com certeza acredito que uma iniciativa como essa ajuda a reduzir o preconceito em relação à saúde mental. Eu não sabia que era um local inclusivo e tão especial. Assim que soube, pensei: que da hora, é diferente. Para mim, a inclusão nos dias de hoje é muito importante.”
Robson Beckett, 47 anos, budista e colaborador há quase um ano, é acompanhado pelo CAPS por uma questão relacionada à dependência química. Para ele, o trabalho vai além da remuneração.
“O que eu valorizo aqui não é o dinheiro. Claro, isso é importante, pois precisamos dele. Mas o que importa para mim é que, nesse local, eu tenho um propósito de vida”.
“Sou budista e busco todos os dias aprender algo que me torne um ser humano melhor. Eu não tinha consciência das questões neurodivergentes, e esse lugar me trouxe isso. Hoje se fala muito em saúde mental, mas será que sabemos realmente entender o outro? Eu, desde que cheguei aqui na Casa, percebo que me tornei uma pessoa mais humana.”
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A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.




