A Associação de Tecnologia e Inovação de Surdos (ATIS) atua nas áreas de formação profissional, pesquisa e acessibilidade digital, com iniciativas para ampliar a participação da comunidade surda no setor tecnológico
Fundada em 2022, em Maricá, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a Associação de Tecnologia e Inovação de Surdos (ATIS) promove formação, pesquisa e acessibilidade digital para ampliar a participação de pessoas surdas na tecnologia, incentivar a formação profissional e ampliar as oportunidades no setor.
Dados do Censo Demográfico 2022 mostram que cerca de 2,6 milhões de brasileiros com dois anos ou mais declararam ter muita dificuldade para ouvir ou não conseguir ouvir de modo algum, mesmo utilizando aparelhos auditivos. Esse indicador não representa toda a diversidade da comunidade surda, mas ajuda a dimensionar parte das barreiras relacionadas à audição no país.
Joaquim Amado da Silva Júnior, professor, pesquisador, profissional de tecnologia da informação é surdo e fundador da instituição. Com experiência em programação, educação e acessibilidade, ele identificou as dificuldades enfrentadas pela comunidade surda para acessar oportunidades de formação e trabalho na área tecnológica.
A partir dessa realidade, fundou a ATIS em 25 de junho de 2022. A associação atua nas áreas da educação, tecnologia, inovação e pesquisa, incentivando a formação de profissionais e o desenvolvimento de sistemas e conhecimentos que contribuam para ampliar a inclusão no setor.
Para conhecer o trabalho da instituição e os desafios para ampliar a presença de pessoas surdas no setor tecnológico, a Coluna da Neuza conversou com Joaquim Amado. Confira.
Coluna da Neuza: Como surgiu a ATIS e o que motivou a criação dela?
Joaquim Amado: A idéia nasceu de conversas entre amigos surdos que sonhavam em criar uma associação feita por surdos e para surdos, com foco em tecnologia, educação e inovação. Percebemos que muitas pessoas interessadas em programação, informática e outras áreas tecnológicas não encontravam possibilidades de formação, troca de conhecimentos e ambientes acessíveis para desenvolver suas habilidades.
Foi a partir dessa necessidade que fundamos a iniciativa. Nosso objetivo é ampliar oportunidades e mostrar que pessoas surdas também podem desenvolver softwares, criar soluções, produzir pesquisas e participar do avanço tecnológico.
Coluna da Neuza: Quais são as barreiras na formação e no mercado de tecnologia para a pessoa surda?
Joaquim Amado: Um dos principais desafios é a falta de acessibilidade na comunicação e nos materiais de aprendizagem. Muitos conteúdos de programação, matemática, inteligência artificial e informática ainda utilizam explicações orais, vídeos sem legendas adequadas ou materiais que não consideram as necessidades linguísticas das pessoas surdas.
Também faltam termos técnicos acessíveis em Libras, a Língua Brasileira de Sinais, o que pode dificultar a compreensão de alguns conceitos.
No mercado de trabalho, há processos seletivos pouco inclusivos, falta de comunicação acessível nas equipes e desconhecimento sobre a capacidade profissional das pessoas surdas. Precisamos de formação profissional acessível, materiais visuais e mais oportunidades. A surdez não impede ninguém de aprender programação, trabalhar com tecnologia ou desenvolver pesquisas.
Coluna da Neuza: Quem participa das atividades da associação e que impacto vocês percebem nessas pessoas?
Joaquim Amado: Nosso público-alvo é formado principalmente por pessoas surdas interessadas em tecnologia, mas as atividades também reúnem estudantes, professores, pesquisadores, profissionais de TI, intérpretes de Libras e outros ouvintes interessados em acessibilidade e inovação.
Desde o início, realizamos workshops, semanas acadêmicas, congressos e encontros online. Esses espaços permitem compartilhar experiências, conhecer novas tecnologias e perceber possibilidades de atuação profissional. Buscamos sempre fortalecer a autonomia, a confiança e a capacidade para criar soluções, além de incentivar a participação em pesquisas e eventos científicos.

Coluna da Neuza: Como a tecnologia pode ampliar a autonomia das pessoas surdas?
Joaquim Amado: Recursos visuais, legendas, interfaces acessíveis e inteligência artificial podem facilitar a comunicação, a aprendizagem e o acesso à informação. Mas queremos ir além do uso da tecnologia; buscamos incentivar pessoas surdas a aprender programação, desenvolver aplicativos, criar suas próprias soluções e participar da construção do futuro digital.
Coluna da Neuza: Como funcionam as parcerias da ATIS com outras instituições?
Joaquim Amado: As parcerias com universidades, empresas e outras instituições ajudam a promover eventos, divulgar projetos e aproximar pessoas surdas de pesquisadores e profissionais. Também contribuem para identificar necessidades e criar possibilidades de formação, pesquisa e trabalho, com participação ativa da comunidade surda.
Coluna da Neuza: Qual é a importância dos eventos realizados por vocês em 2026?
Joaquim Amado: Eles criam espaços para compartilhar conhecimentos, apresentar projetos e discutir o futuro da tecnologia. A Deaf Developers Conference reúne desenvolvedores, estudantes e profissionais; o Workshop Tecnologia dos Surdos promove troca de experiências; e o Simpósio Brasileiro de Computação para Surdos fortalece a pesquisa científica e a apresentação de trabalhos acadêmicos.
Esses encontros ampliam a visibilidade da produção científica e tecnológica da comunidade surda e mostram que pessoas surdas também produzem ciência, desenvolvem tecnologia e contribuem para o conhecimento.
Coluna da Neuza: O que a troca com comunidades surdas de outros países acrescenta ao trabalho?
Joaquim Amado: Permite conhecer diferentes experiências e ter contato com soluções em tecnologia acessível. Em 2024, o 4º Workshop de Tecnologia dos Surdos contou com palestrantes surdos do México e mostrou a importância de conectar comunidades de diferentes países. Essas trocas ajudam a identificar desafios comuns, conhecer outras práticas e ampliar possibilidades de colaboração.
Queremos fortalecer essa rede por meio de eventos, pesquisas e projetos conjuntos, respeitando as diferentes línguas de sinais e valorizando cada comunidade.
Coluna da Neuza: Quais são os principais erros de acessibilidade digital?
Joaquim Amado: Um deles é pensar que acessibilidade se resume a legendas ou a um recurso isolado. Ela deve ser considerada desde o desenvolvimento de sites, aplicativos e sistemas. Também é preciso reconhecer que pessoas surdas têm diferentes formas de comunicação: algumas utilizam Libras, outras preferem a escrita ou outros recursos.
Por isso, defendemos a participação de pessoas surdas no planejamento, nos testes e na avaliação das tecnologias.
Não basta adaptar depois. É preciso desenvolver soluções com a comunidade surda, e não apenas para ela.
Coluna da Neuza: Como surgiu o Glossário de TI em Libras e como os termos são definidos?
Joaquim Amado: O glossário surgiu da busca por tornar conceitos técnicos de programação, banco de dados, inteligência artificial e outras áreas mais acessíveis em Libras. A proposta é reunir termos, explicações e recursos visuais que facilitem a aprendizagem e a comunicação na área de tecnologia. Também registramos variações linguísticas e promovemos discussões para construir referências cada vez mais claras e acessíveis.
Coluna da Neuza: Quais são hoje os principais desafios da instituição?
Joaquim Amado: Captação de recursos para manter e ampliar os projetos; produção de materiais acessíveis; manutenção das plataformas digitais; realização de cursos e eventos; ampliação da rede de parceiros e colaboradores; e sustentabilidade das iniciativas, para que não dependam apenas do trabalho voluntário. Buscamos apoio por meio de parcerias, doações, associados e colaboração institucional.
Coluna da Neuza: Como pessoas, empresas e instituições podem apoiar a associação?
Joaquim Amado: Pessoas físicas podem participar dos eventos, associar-se à nós e também divulgar nossas iniciativas. Profissionais de tecnologia podem colaborar com conhecimento técnico e desenvolvimento de projetos. As universidades podem apoiar pesquisas, eventos e oportunidades de formação, Já as empresas podem contribuir com patrocínios, doações, capacitações, estágios, contratação de profissionais surdos e desenvolvimento de soluções acessíveis.
Coluna da Neuza: Há algo importante sobre a Associação de Tecnologia e Inovações de Surdos que não perguntei e que você gostaria de deixar registrado?
Joaquim Amado: Quero reforçar que pessoas surdas também podem criar tecnologia, desenvolver sistemas, produzir ciência e contribuir para a inovação. A ATIS nasceu do sonho de ampliar as possibilidades e mostrar que a comunidade surda pode ocupar espaços como programação, engenharia, pesquisa e empreendedorismo.
Acreditamos que acessibilidade e inovação precisam caminhar juntas. Quando pessoas surdas participam da criação das soluções, ajudamos a construir tecnologias mais inclusivas e adequadas à sociedade.
Nosso compromisso é transformar conhecimento em oportunidades e fortalecer o protagonismo da comunidade surda na construção do futuro digital e da inclusão digital.
Para saber mais sobre o trabalho da ATIS ou apoiar a iniciativa, acesse o site da associação e acompanhe suas atividades no Instagram, LinkedIn e Facebook.
Acompanhe também o Lupa do Bem no Instagram, Facebook e LinkedIn.
A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, associação sem fins lucrativos da Sherlock Communications.





