Casa Um vai além do acolhimento e cria oportunidades para a autonomia da população LGBTQIAPN+

Criada a partir de uma iniciativa individual, a organização oferece moradia, saúde mental, educação, cultura e oportunidades para pessoas LGBTQIAPN+ em situação de vulnerabilidade

O que começou com a iniciativa de um homem disposto a abrir as portas de sua própria casa transformou-se em uma organização que reúne acolhimento, assistência social, saúde mental, educação e cultura. Localizada em São Paulo, a Casa Um desenvolve ações voltadas à população LGBTQIAPN+, com atenção especial a jovens que enfrentam a rejeição familiar e outras situações de vulnerabilidade social.

Segundo o último levantamento consolidado pela instituição, referente a 2025, são realizados aproximadamente 2 mil atendimentos mensais. À frente desse trabalho está Iran de Jesus Giusti, fundador e diretor-presidente da organização, que conversou com a Coluna da Neuza sobre a trajetória da Casa Um, os resultados e os desafios de manter uma estrutura dedicada à inclusão e à autonomia.

A história da Casa Um começou em 2016, quando Iran de Jesus Giusti, relações-públicas e ativista pelos direitos LGBTQIAPN+, decidiu acolher pessoas que haviam sido expulsas de seus lares em razão da orientação sexual ou identidade de gênero.

A iniciativa surgiu após quase dois anos recebendo, por meio do Airbnb, pessoas LGBTQIAPN+ de diferentes regiões do Brasil. Inspirado pelas experiências e trocas vividas nesse período, Iran publicou no Facebook que estava disposta a acolher quem precisasse de um lugar para morar. A postagem viralizou e, em apenas 24 horas, ele recebeu mais de 50 pedidos de ajuda.

Ao longo de um ano, acolheu três pessoas, mas logo percebeu que estava diante de um problema estrutural, muito maior do que imaginava.

Mesmo sem experiência na administração de organizações sociais, decidiu realizar uma campanha de financiamento coletivo, que arrecadou R$112 mil. O valor possibilitou alugar, por um ano, o imóvel que hoje abriga o centro de acolhida da Casa Um.

Apesar dos resultados da iniciativa, Iran ressalta que o acolhimento de pessoas em situação de vulnerabilidade exige cuidados e estrutura adequados, especialmente em relação à segurança de quem acolhe e de quem é acolhido. 

A seguir, o fundador conta como a instituição atua para transformar o acolhimento em oportunidades.

Coluna da Neuza: Quais situações levam as pessoas a procurar a Casa Um e o que caracteriza esse público? 

Iran: Nosso atendimento é universal, com prioridade para a população LGBTQIAPN+. O centro de acolhida recebe jovens de 18 a 25 anos expulsos de casa ou que vivem em ambientes familiares insustentáveis. Enquanto jovens cisgênero costumam enfrentar violência verbal, psicológica, patrimonial e física, jovens transgêneros são frequentemente expulsos ao revelarem sua identidade de gênero. 

Nos últimos 18 meses, aumentou significativamente a procura de migrantes e refugiados LGBTQIAPN+, principalmente da Rússia, Irã, Iêmen, Marrocos e Jamaica. Atualmente, eles representam quase metade das pessoas acolhidas.

Coluna da Neuza: Como o acolhimento, a cultura e a saúde mental se complementam no trabalho da Casa Um?

Iran: Para nós, acolher vai muito além de oferecer um teto. A autonomia e a independência dependem também do acesso à educação, à cultura, ao trabalho e à saúde. Embora não consigamos atender a todas as necessidades de cada pessoa, buscamos oferecer ferramentas para que reconstruam suas próprias vidas.

Como destaca a filósofa Judith Butler, em Quadros de Guerra, existem vidas que sequer são reconhecidas como vidas. Nesse contexto, a população LGBTQIAPN+ precisa de condições materiais e emocionais para viver plenamente, que vão desde um teto até o acesso à cultura.

Coluna da Neuza: Como funciona o acolhimento e que suporte é oferecido aos jovens?

Iran: Nosso centro de acolhida oferece quatro meses de moradia, período em que buscamos proporcionar condições para que cada jovem conquiste sua autonomia, respeitando seus interesses e necessidades.

Além de moradia e alimentação, oferecemos transporte, medicamentos, lazer, atendimento psicológico e cuidados de saúde, além de apoio para obtenção de documentos e inserção no mercado de trabalho.

Cerca de 60% desses jovens acolhidos conseguem se organizar para morar na região onde estamos localizados, seja em apartamentos compartilhados, pensões ou outras modalidades de habitação. Mesmo após deixarem o acolhimento, continuam vinculados aos nossos projetos de cultura, assistência social e de saúde.

Coluna da Neuza: Quais serviços são disponibilizados pela Clínica Social da Casa Um?

Iran: Oferecemos psicoterapia continuada, com acompanhamento regular em saúde mental; Plantão de Escuta, destinado a atendimentos emergenciais de adultos, especialmente pessoas em situação de vulnerabilidade social; e consultas psiquiátricas para casos encaminhados por nossos profissionais ou outras instituições.

Também promovemos eventos sobre saúde mental e cuidado, integrados às atividades culturais e socioeducativas da instituição. Atualmente, contamos com o projeto Territórios Onírico Provisório.

Coluna da Neuza: Quais são os principais resultados e impactos do trabalho da instituição até agora?

Iran: Nosso último levantamento consolidado, de 2025, registrou cerca de 2 mil atendimentos mensais, número que estimamos ter aumentado significativamente em 2026.

Por outro lado, como atuamos em áreas que envolvem mudanças estruturais profundas, um dos nossos maiores desafios é mensurar o impacto do trabalho. Afinal, como medir os resultados de um acompanhamento psicológico, por exemplo? Por isso, utilizamos principalmente os números de atendimentos realizados.

Somente no primeiro semestre de 2026, nosso serviço social realizou 1.127 atendimentos e distribuiu 5.050 peças de roupa para a população LGBTQIAPN+ em situação de rua.

Além disso, 4.796 pessoas participaram das atividades de Educação e Cultura, enquanto a Biblioteca Comunitária Caio Fernando Abreu recebeu 5.698 visitantes, realizou 473 empréstimos e distribuiu 682 kits de literatura para crianças e adolescentes.

Coluna da Neuza: Como as atividades educativas e profissionalizantes contribuem para a autonomia das pessoas atendidas?

Iran: Nossa proposta vai além da capacitação profissional. Buscamos criar conexões, ampliar conhecimentos e oferecer uma formação individualizada e humanizada. Um exemplo é o curso de assistente de cabeleireiro, realizado em nosso salão de beleza-escola. Com duração de três meses e turmas de oito pessoas, oferecemos transporte, alimentação e material. 

Ao final, cada participante recebe um kit completo de equipamentos para começar a trabalhar. O mesmo acontece nos cursos de maquiagem e costura, neste último com a entrega de máquinas de costura.

Optamos por turmas menores para garantir o acompanhamento das professoras e das equipes de assistência social e saúde mental. É um modelo de alto custo, mas acreditamos que a qualidade da formação é mais importante do que a quantidade de certificados emitidos.

Coluna da Neuza: Quais são os principais desafios da Casa  Um e como a instituição se mantém?

Iran: Um dos nossos maiores desafios é a captação de recursos. Por sermos uma organização LGBTQIAPN+, enfrentamos preconceitos e precisamos constantemente demonstrar a importância do nosso trabalho. Também encontramos dificuldades para acessar determinadas fontes de financiamento.

Nossa estratégia é diversificar as fontes de receita. Investimos em comunicação para divulgar nossas atividades e incentivar doações individuais, pontuais ou recorrentes, por meio de Pix, Benfeitoria e PayPal.

Também realizamos eventos, oferecemos consultorias, oficinas e outras atividades, além de buscar patrocínios e participar de programas como Visa Causas e Nota Fiscal Paulista.

Em 2025, nosso orçamento foi de aproximadamente R$3,29 milhões, distribuídos da seguinte forma: 54% de doações de pessoas físicas, 15% de produtos sociais, 13% de doações de empresas, 11% de emendas parlamentares e 7% do programa Nota Fiscal Paulista.

Coluna da Neuza: Quais são as prioridades da Casa e como é possível apoiar a instituição?

Iran: Nossa principal prioridade é garantir a continuidade dos serviços que já oferecemos. Para isso, precisamos de recursos que mantenham nossa estrutura funcionando. Também buscamos ampliar as vagas no centro de acolhida, os atendimentos na Clínica Social e as atividades culturais.

Estamos abertos a parcerias de diferentes portes. Sempre digo que, se uma empresa dispõe de R$ 5 mil, podemos desenvolver um projeto importante com esse valor. Se dispõe de R$5 milhões, também podemos, mas em outra proporção.

Muito além de oferecer um teto

A trajetória da Casa Um mostra que o acolhimento pode ser o primeiro passo para a reconstrução de uma vida. Mais do que oferecer proteção temporária, a instituição procura criar condições para que pessoas em situação de vulnerabilidade encontrem oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional.

Ao reunir diferentes serviços e manter o acompanhamento mesmo após a saída dos jovens do centro de acolhida, a organização busca transformar o apoio oferecido em possibilidades concretas de independência.

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Para conhecer melhor esse trabalho e descobrir como contribuir, acesse o portal da instituição.

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A Coluna da Neuza faz parte da Lupa do Bem, Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.

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