Agência inova ao produzir conteúdo independente e roteiros turísticos com foco na história e cultura negra
Letramento racial, diversidade e sustentabilidade. Com base nesses três pilares, o Guia Negro tem oferecido outras maneiras de experimentar o turismo local. Por meio de conteúdos autênticos e walking tours, é possível conhecer aquilo que tem de mais pulsante na história e na cultura negra em diversas cidades do Brasil.
Tudo começou com a produção de conteúdo independente em 2017. Em pouco menos de um ano, as experiências turísticas também foram para as ruas. A primeira caminhada foi em São Paulo, no bairro da Liberdade. Com passeios que duram três horas, o público pediu mais. Da Liberdade, foi para o Bexiga, também em São Paulo. Depois para Salvador. Em seguida, Olinda, Boipeba e São Luís.
Hoje está na maioria das capitais brasileiras, incluindo Brasília. Engana-se, portanto, quem acha que isso é turismo de nicho. Por meio de campanhas, o afroturismo tem sido estimulado inclusive pela Embratur. “Como vou falar de turismo de nicho quando 56% da população brasileira é negra?”, diz o jornalista e fundador, Guilherme Soares Dias.
Passando por locais históricos, fatos e memórias de personalidades negras, as visitas se alternam entre acontecimentos do passado e do presente. “Quando idealizamos a caminhada, não queríamos que fosse algo só sobre o passado, que é mais ligado a uma história de dor e de resistência. Por isso, também falamos do presente, de coisas da cultura negra, memórias positivas, com dicas de lugares onde comer uma comida com referências negras, por exemplo”, explica Guilherme.
História e cultura negra
Os roteiros também mostram a riqueza de festas e tradições culturais de origem negra. Em Olinda, por exemplo, abordam a história do maracatu. Em Macapá, do marabaixo. Em São Paulo, do samba rock. Em Salvador, dos blocos afros. No Rio, da escola de samba. Em Minas, da congada…
“Em cada estado, falamos de algo sobre a cultura local, seja capoeira, o terreiro, enfim, algo que seja ligado à cultura negra e que mostra algum lugar que seja único, especial e que talvez o turismo não conheceria fora daquele tour. Em São Paulo, por exemplo, na Caminhada da Liberdade, a gente mostra a Capela dos Aflitos. Em Salvador, mostramos a Sociedade Protetora dos Desvalidos. Esse lugar, infelizmente, ainda não está no mapa do turismo tradicional. Então, os tours são reveladores por conta disso”, afirma Guilherme.
As walking tours são feitas em grupos de até 35 pessoas, mediadas por anfitriões locais. Em média, três mil pessoas passam pelas caminhadas do Guia Negro por ano. Os roteiros foram tão bem recebidos que passaram a ser procurados por escolas e empresas interessadas em proporcionar o letramento racial de estudantes e colaboradores.
Públicos diversos procuram a experiência: de juízes e professores a pessoas em situação de rua atendidas por centros de acolhimento. “A gente gosta muito de quando pais e filhos participam, porque o debate segue em casa e na escola”, diz o fundador.
“Quem faz o roteiro conosco acaba virando uma chavinha, passa a querer entender mais sobre cultura negra nos lugares que visita, coisas que o turismo tradicional não mostra.”

Movimento em expansão
Guilherme teve a ideia de fazer os roteiros após retornar de uma viagem. “Eu tinha feito um mochilão e conheci muitos lugares ligados à história e cultura europeia. Mas vi muito pouco ligado à história negra porque quase não havia conteúdo sobre isso nem agências fazendo os tours. Percebendo essa ausência, eu e meu parceiro Heitor, nós começamos a produzir conteúdo para gerar o desejo nas pessoas de viajar para esses lugares e também a realizar essas experiências turísticas”, diz o fundador.
“Fazendo o mochilão, percebi que nós não estávamos aprendendo essas histórias nas viagens. E quando voltei para São Paulo, vi que já tinha muitos walking tours, de arquitetura, sobre a Avenida Paulista, sobre histórias assombradas, mas não tinha nenhum contando essa história negra. Então criamos essa caminhada que se chama São Paulo Negra”, continua.
“Quando começamos em São Paulo, o primeiro roteiro foi na Liberdade, um bairro conhecido pela história japonesa. Mas ali era um bairro primeiramente de pessoas negras. Tinha pelourinho, tinha o espaço onde as pessoas negras apanhavam e eram mortas, tinha um cemitério só para eles. Ninguém falava sobre isso”, comenta Guilherme.
Ele lembra de um episódio tenso que aconteceu logo nos primeiros anos. Em 2020, durante a Caminhada São Paulo Negra, a polícia acompanhou o grupo por três horas, confundindo o tour com uma manifestação. “Naquele dia, enquanto falávamos de racismo estrutural, nós o vivemos. Foi marcante.”
O caso foi levado para a Justiça e o Estado brasileiro foi condenado a pagar R$720 mil para um fundo coletivo de afroturismo. O Guia Negro ganhou a causa na segunda instância com o valor corrigido em R$350 mil. O estado recorreu, mas o ganho de causa não muda mais.
Da incidência política ao apoio do empreendedor local
A agência também atua em incidência política, questionando homenagens a escravocratas e defendendo maior representatividade negra em monumentos, ruas e praças. Em Salvador, o grupo conseguiu renomear a Rua Laranjeiras, batizada em homenagem a um traficante de escravizados, para Rua Alaíde do Feijão, em memória à cozinheira dona Laíde.
Também foi responsável pela mudança da Praça Visconde de Cairu para Praça Maria Felipa, revolucionária negra da Independência. Em São Paulo, a atuação resultou na retirada de luminárias japonesas da Rua dos Aflitos, na Liberdade, local de memória da população negra.
Os passeios do Guia Negro custam entre R$ 60 e R$ 80 por pessoa. Há possibilidade de fazer na modalidade privada também. O valor investido pelos visitantes circula para além da empresa. “Sempre que chegamos em um lugar, tentamos fortalecer os empreendedores negros e locais. A gente consome nesses lugares e leva os turistas para consumir também”, explica.
O efeito é imediato. Guilherme cita o exemplo de uma loja no Pelourinho: “O dono me disse em maio, mês de baixa temporada, que só conseguiu pagar o aluguel porque levamos pessoas até lá. Isso mostra como nosso trabalho ajuda a sustentar pequenos negócios.”
Ao contrário de práticas comuns no setor, a equipe não cobra comissões de lojistas ou restaurantes parceiros. “A gente acredita e consome. Essa é a diferença”, completa.

Afroturismo é tendência
O afroturismo já desperta o interesse de grandes empresas, como a CVC. “É como aconteceu com os cabelos cacheados. Há 10 anos era um mercado marginal, hoje é um dos mais buscados e rentáveis. O mesmo está acontecendo no turismo”, compara Guilherme.
O dado é revelador: em 2023, a Pequena África, no Rio de Janeiro, recebeu mais visitantes do que o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar juntos. Para Guilherme, o avanço é fruto de um movimento coletivo: “Eu juntei duas paixões, jornalismo e turismo, e criei minha própria oportunidade. Hoje, inspiramos outras empresas e profissionais. É transformador ver que isso gera impacto real.”
Com oito anos de trajetória, os tours vem resgatando histórias invisibilizadas pela educação formal e pela narrativa oficial. “A cada dia descobrimos personagens e fatos que não aprendemos na escola. Contar essas histórias é nossa forma de recuperar um tempo perdido e mostrar que o turismo também pode ser uma ferramenta de reparação histórica”, finaliza.

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