Há quase 49 anos, o Ponto de Cultura Centro Cultural Oca dos Curumins promove educação, cultura e fortalecimento da identidade negra no Complexo do Alemão
Localizado em Ramos, Zona Norte do Rio de Janeiro, o Complexo do Alemão é um conjunto de favelas que reúne dezenas de comunidades e uma população estimada em mais de 54 mil moradores, segundo o censo de 2022.
Reconhecido por sua intensa vida cultural, diversidade social e forte mobilização comunitária, o território abriga iniciativas que promovem educação, arte, esporte e inclusão social, muitas vezes suprindo demandas históricas relacionadas ao acesso a serviços públicos e oportunidades para a população local.
Ao longo das últimas décadas, a localidade também se consolidou como um importante símbolo de construção coletiva, resistência e potência das periferias cariocas. Apesar dos desafios impostos pela desigualdade social e pela violência, a região é marcada pelo protagonismo de lideranças comunitárias, coletivos culturais e projetos sociais que valorizam a memória, a identidade e os saberes do território, contribuindo para a formação cidadã e o fortalecimento dos vínculos comunitários.
É nesse cenário que está inserido o Ponto de cultura – Centro Cultural Oca dos Curumins está inserido há quase 49 anos, promovendo, educação, cultura e o fortalecimento da identidade negra.
Fundada por Elisabete dos Santos, conhecida como Tia Bete, o Centro Cultural tornou-se referência no território ao acolher crianças, jovens, adultos e idosos. Muitos deles retornam anos depois como colaboradores e gestores, dando continuidade ao legado construído pela organização.
A Coluna da Neuza foi até o local e entrevistou Elisabete, que falou sobre a trajetória do Centro Cultural. Confira.
Coluna da Neuza: Ao longo de todos esses anos, qual foi a maior transformação que você percebeu no Complexo do Alemão?
Elisabete: A maior transformação foi ver pessoas que passaram pela Oca, tanto crianças quanto adolescentes e adultos, criando seus próprios projetos ou atuando em outras instituições sociais. Alguns retornam para colaborar conosco. Isso mostra que o trabalho realizado gerou frutos e continua se multiplicando.
Coluna da Neuza: Quais são os principais desafios em manter um projeto social e cultural ativo dentro do Complexo do Alemão atualmente?
Elisabete: Manter as pessoas comprometidas com o projeto. Muitas vezes não temos recursos suficientes para remunerar profissionais, grande parte da equipe é formada por pessoas do próprio Complexo do Alemão ou por ex-alunos da Oca que decidiram voltar para contribuir com a instituição, isso é muito importante para o trabalho.
Coluna da Neuza: O trabalho da Oca também fortalece a identidade negra. Como as crianças e os jovens recebem essa proposta?
Elisabete: Eles recebem muito bem e, muitas vezes, com surpresa. Trabalhamos conteúdos que raramente são aprofundados nas escolas. Falamos sobre a história da África, sobre a contribuição dos povos negros para a formação do Brasil e sobre questões ligadas ao combate ao racismo.
Quando conhecem essa história, as crianças e os jovens se sentem fortalecidos. Eles descobrem aspectos da sua identidade que muitas vezes não aparecem nos livros didáticos.
Coluna da Neuza: Existe algum relato que representa o impacto da Oca dentro da comunidade?
Elisabete: São muitos. Um caso marcante é o de Wilson, que chegou à Oca já adulto, com dificuldades de alfabetização. Com dedicação e acompanhamento, aprendeu a ler e escrever e hoje consegue utilizar ferramentas tecnológicas como o celular, por exemplo. Atualmente, também acompanho um aluno de 70 anos que está aprendendo a escrever o próprio nome e quer renovar seus documentos.
Outra história especial é a de uma menina que frequentou a Oca desde pequena e sempre falava do desejo de ensinar, seguindo meus passos. Pois ela cresceu, estudou, formou-se em Letras e hoje atua na rede pública de ensino. Para mim, ver uma criança realizar um sonho inspirado pelo trabalho desenvolvido aqui é algo muito significativo.
Coluna da Neuza: Em um momento em que tantas informações circulam nas redes sociais, por que espaços comunitários de cultura e educação continuam sendo importantes?
Elisabete: Porque eles atendem pessoas que muitas vezes não são alcançadas pelo poder público. As instituições comunitárias conhecem de perto a realidade das famílias, das crianças e dos jovens do território, pois estamos presentes no cotidiano da comunidade e conseguimos identificar necessidades, orientar, acolher e criar oportunidades, o que as redes não fazem.
Além disso, oferecemos acesso à cultura, à educação e ao conhecimento, ajudando as pessoas a desenvolver pensamento crítico diante do enorme volume de informações que circula diariamente. Esses espaços ajudam a reduzir o isolamento e fortalecem os vínculos comunitários.
Coluna da Neuza: Você acredita que esse trabalho também ajuda a combater estereótipos sobre as favelas?
Elisabete: Sem dúvida. Muitas vezes a favela aparece na mídia apenas associada à violência, mas existe uma população trabalhadora, famílias que lutam diariamente para criar seus filhos e construir uma vida melhor. O que falta é a presença do Estado por meio da educação, da cultura, do saneamento e de políticas públicas efetivas. Quando uma instituição como a Oca atua dentro do território, ela mostra outra realidade, uma realidade de resistência, solidariedade e construção coletiva.
Coluna da Neuza: O que representa para você o fato de muitas crianças que passaram pelo Centro Cultural Oca dos Curumins e, hoje, já adultas, retornarem como colaboradores?
Elisabete: Representa continuidade. É a confirmação de que o trabalho não foi em vão. Quando vejo jovens interessados em ensinar, compartilhar conhecimento e manter vivo esse legado, percebo que a semente plantada germinou. Eles conhecem a história da instituição e ajudam a construir seu futuro tornando-se multiplicadores ajudando outras pessoas a enxergar novas possibilidades para suas vidas. Isso fortalece nossa identidade e garante que o trabalho continue conectado à comunidade.
Coluna da Neuza: Você percebe mudanças na autoestima das mulheres e meninas que participam ou participaram das atividades do centro?
Elisabete: Sim. É algo que aparece no olhar, na postura e na forma como elas passam a se enxergar. Muitas chegam desanimadas, sem perspectivas, e aos poucos descobrem seu valor, suas capacidades e sua importância dentro da comunidade. É muito gratificante encontrar ex-alunos e ouvir que a passagem pela Oca contribuiu para a pessoa que se tornou hoje.
Coluna da Neuza: Quais demandas das famílias do Complexo do Alemão mais preocupam você atualmente?
Elisabete: A depressão. Tenho percebido um aumento significativo do sofrimento emocional entre moradores de diferentes idades. É uma questão que afeta famílias inteiras e que precisa de mais atenção, acolhimento e políticas públicas adequadas.
Coluna da Neuza: Quais são as próximas ações que o centro pretende desenvolver junto às famílias e às escolas da região?
Elisabete: Estamos nos organizando para realizar um encontro de mães das escolas próximas a fim de dar continuidade ao trabalho contra o bullying e falar da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) 10.639 (que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana em todas as escolas públicas e particulares do ensino fundamental e médio), para esclarecer o nosso povo preto sobre os nossos direitos e nossa verdadeira história.
Coluna da Neuza: Quais são as necessidades da Oca dos Curumins hoje?
Elisabete: Elisabete: Hoje, uma das maiores necessidades da Oca dos Curumins é contar com mais voluntários que abracem a causa. Precisamos especialmente de voluntariado nas áreas de educação e pedagogia para fortalecer o reforço escolar oferecido às crianças e de pessoas que possam desenvolver atividades voltadas aos jovens, público para o qual gostaríamos de ampliar nossa atuação.
Também buscamos apoio para concluir uma obra que está em fase final de execução. O espaço, adquirido em 1987, vem sendo ampliado e melhorado ao longo dos anos e conta com salas de atividades, teatro, biblioteca e terraço. Para finalizar essa etapa, toda ajuda é bem-vinda, seja por meio de recursos financeiros ou da doação de materiais de construção, como tinta e piso.
Oca dos Curumins: 49 anos de dedicação
Aos 68 anos, Tia Beth continua à frente da Oca dos Curumins, instituição que se aproxima de seus 49 anos de atuação. Em um território frequentemente retratado apenas pelos problemas, a organização segue apostando na educação, na cultura e na valorização da identidade negra como caminhos para transformar vidas e fortalecer a comunidade.
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A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.





