Com identidade e ancestralidade, Casa Poéticas Negras transforma a educação em Paraty

literatura negra

Projeto nasceu da inquietação ao perceber a ausência de representatividade em uma das maiores feiras literárias do país

O Brasil é terra de autores negros de renome, como Conceição Evaristo, Luiz Gama, Machado de Assis e Carolina Maria de Jesus. Além disso, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, 55,5% da população brasileira se declara negra.

Mas o que fazer quando, ao participar de um dos maiores eventos literários do país, você não se sente representada? Foi exatamente esse o sentimento que Angela Damasceno teve ao visitar a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2018.

“Saí de lá entendendo que deveríamos voltar na próxima edição com uma casa literária afro-brasileira”, conta Angela, diretora presidente do projeto. No ano seguinte, a Casa Poéticas Negras estreou promovendo uma verdadeira revolução no evento e na cidade.

Para a edição de 2019, Angela se uniu a outra moradora de Paraty para tirar a ideia do papel. Com apoio de algumas editoras e escritores, a Casa ofereceu cinco dias de programação afro-referenciada. Ao final do evento, perceberam que a atuação poderia ir além da Flip. “Nos juntamos a outras mulheres negras e começamos a ativar equipamentos públicos como praças, cinemas e escolas para trabalhar a literatura”, relata.

Dessa movimentação, surgiu uma parceria com a Secretaria de Educação de Paraty para levar cultura afro e indígena às escolas. “Éramos um coletivo querendo contribuir com o território por meio da educação, e a literatura foi a linguagem com a qual nos identificamos.”

Com a chegada da pandemia, o coletivo se desarticulou, mas Angela e uma amiga seguiram firmes. “Tive a ideia de começar uma websérie. A primeira foi Insurgências Poéticas, que mostrava como a população negra, especialmente ligada às artes e à literatura, estava ressurgindo ou tentando insurgir dentro do isolamento.”

A série foi composta por vídeos diários de até três minutos, publicados nas redes sociais. Nomes como Chico César e Leci Brandão participaram da ação, que gerou mais de 200 pílulas audiovisuais.

Durante o isolamento, o projeto participou de editais que viabilizaram workshops e oficinas. Em 2021, a Casa Poéticas Negras foi formalizada como uma organização social sem fins lucrativos, abrindo novas possibilidades.

“Analisamos as dores do território e criamos programas educacionais de longa duração. Eles não resolvem tudo, mas ajudam a amenizar as lacunas”, afirma Angela.

literatura negra
Foto: reprodução

Educação e protagonismo negro

Em 2023, foi lançado o Hey Black, curso de inglês voltado para adolescentes a partir de 14 anos e adultos. Ao longo de 10 meses, os alunos participam de aulas com um material didático totalmente afro-referenciado.

O conteúdo traz representatividade em todos os aspectos: os personagens são negros, os textos abordam a cultura negra do Brasil e da diáspora, além de incluir referências caiçaras e indígenas. “Todo o programa do Hey Black é construído a partir de uma perspectiva afrocentrada”, acrescenta Angela.

Para desenvolver o material, a equipe se inspirou em autores da literatura norte-americana e nigeriana, colocando a cultura afro no centro do processo de aprendizagem. O desempenho dos estudantes é acompanhado por meio de avaliações trimestrais. “Tranquilizamos os alunos, pois nosso foco é o desenvolvimento. Já temos um rendimento acima de 50% entre os que estão desde o início.” As aulas retornam em agosto. 

Outro programa da ONG é o Cursinho Popular Carolina de Jesus. Como os conteúdos voltados aos vestibulares são mais difíceis de adaptar, por seguirem as diretrizes das universidades, a estratégia foi promover a representatividade por meio do corpo docente. “A presença de um universitário negro ainda é muito restrita”, observa Angela. Neste ano, as aulas retornam em agosto com um aulão especial de reforço.

Embora os programas sejam gratuitos, todos os professores são remunerados. “Para nós, é essencial gerar impacto também por meio de pagamentos. Estamos dentro de uma cadeia produtiva: ao pagar um professor, que também é de uma comunidade vulnerável, mantemos os programas vivos.”

Contraturno com cultura e acolhimento

Com cerca de 48 mil habitantes, Paraty enfrenta um desafio comum às grandes cidades: o que fazer com as crianças no contraturno escolar?

Foi dessa necessidade que nasceu o Programa Ayo (“alegria”, em iorubá). De segunda a quinta-feira, 15 crianças pela manhã e 15 à tarde participam de atividades como artesanato, música e brincadeiras de roda.

O objetivo não é apenas oferecer atividades recreativas, mas também criar um espaço de desenvolvimento, pertencimento e resgate cultural. Às segundas-feiras, o artista plástico caiçara Alan Richer compartilha seus conhecimentos com as crianças. As terças são dedicadas aos movimentos do corpo; as quartas, às oficinas de artes integradas; e as quintas são reservadas às brincadeiras de quintal, resgatando a ludicidade do brincar. 

Em parceria com a assistência social, o programa prioriza crianças do abrigo municipal. “São crianças que precisam desse acolhimento educacional.”

Foto: reprodução

Visibilidade e futuro

Apesar do reconhecimento internacional da cultura negra brasileira, a representatividade em instituições como a Academia Brasileira de Letras (ABL) ainda é reduzida. Em 127 anos de história, apenas três homens negros ocuparam uma cadeira na Academia: Machado de Assis, fundador da instituição; Domício Proença Filho, eleito em 2006; e Gilberto Gil, que ingressou em 2021 como o primeiro artista popular contemporâneo negro a integrar a ABL.

Ampliar a visibilidade de escritores afro-brasileiros e indígenas é uma das principais missões da Casa Poéticas Negras. Por isso, durante a edição de 2025 da Flip, o projeto promoveu mais de 40 horas de programação afropindorâmica gratuita, impactando cerca de 3 mil pessoas por dia. O espaço também contou com uma estante dedicada exclusivamente a autores independentes.

A valorização da literatura negra e indígena também se estende para além da festa literária. Em 2024, a Casa inaugurou a Biblioteca Comunitária Lélia Gonzalez, cujo acervo, com mais de 200 livros, foi formado a partir de doações da comunidade.

“A curadoria é voltada à literatura afro-brasileira, diaspórica, indígena ou caipira. Não temos livros de autores brancos porque queremos amplificar outras narrativas que são pouco difundidas.” 

Ela resume a proposta: “Nos identificamos como a primeira biblioteca afro-pindorâmica de Paraty e da Costa Verde.”

Apesar da riqueza do acervo, a adesão da comunidade ao empréstimo de livros ainda é tímida. “Em 2024, tivemos apenas 15 empréstimos entre maio e dezembro. Acreditamos que isso pode melhorar, mas depende também do que vamos semear e de como a ideia de uma biblioteca comunitária se espalha: como oportunidade real de acesso gratuito ao livro.”

Saiba como ajudar a Casa Poéticas Negras

A Casa Poéticas Negras aceita doações e voluntários, tanto presenciais quanto remotos. Outra forma de contribuir é adquirindo itens na loja oficial do projeto. Para mais informações, acesse o site, o Instagram ou o Facebook.

Compartilhe esse artigo
Facebook
LinkedIn
X
WhatsApp
Telegram
Threads