Como o Instituto Centro de Vida ajuda a conservar a Amazônia e o Cerrado

Há 35 anos, o Instituto Centro de Vida atua na proteção da Amazônia e do Cerrado, promovendo transparência ambiental, fortalecendo a agricultura familiar e apoiando comunidades tradicionais por meio de iniciativas que conciliam conservação e geração de renda

A conservação da Amazônia e do Cerrado passa, necessariamente, por iniciativas que unem proteção ambiental, desenvolvimento econômico e participação das comunidades locais. 

Em Mato Grosso, estado que abriga áreas desses dois importantes biomas, o Instituto Centro de Vida (ICV) construiu, ao longo de 35 anos, uma trajetória voltada à criação de soluções para reduzir o desmatamento, fortalecer a agricultura familiar e ampliar a transparência das informações ambientais.

Para conhecer melhor esse trabalho, a Coluna da Neuza entrevistou, Camila Rodrigues, diretora adjunta do ICV, e Ana Paula Valdiones, coordenadora do Programa Transparência Ambiental. 

As duas explicam como a organização contribui para a formulação de políticas públicas, apoia comunidades tradicionais e desenvolve iniciativas que conciliam conservação dos recursos naturais e geração de renda.

Coluna da Neuza: Quais foram as principais transformações socioambientais promovidas pelo ICV ao longo de seus mais de 30 anos de atuação?

Camila Rodrigues: Ao longo de seus 35 anos de atuação em Mato Grosso, o Instituto Centro de Vida desenvolveu ações voltadas à conservação de áreas protegidas, ao monitoramento, à transparência ambiental, à restauração de áreas degradadas, ao fortalecimento da agricultura familiar e à defesa dos direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais.

Entre os marcos dessa trajetória está o Programa Fogo – Emergência Crônica, implantado nos anos 2000 para enfrentar a elevada incidência de incêndios florestais no norte do estado. A iniciativa reuniu diferentes parceiros e resultou na instalação de um escritório regional, ampliando a atuação do instituto na elaboração de planos de manejo de unidades de conservação, como a Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo e o Parque Nacional do Juruena.

O ICV também vem apoiando, há mais de uma década, o Governo de Mato Grosso no controle do desmatamento e na construção de estratégias de redução das emissões de gases de efeito estufa. 

Esse trabalho contribuiu para que o estado se tornasse referência na implementação de instrumentos como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), a política REDD+ e a estratégia Produzir, Conservar e Incluir (PCI), apresentada durante a COP21, realizada em Paris.

Outro destaque é o apoio à construção da proposta dos 43 povos indígenas para o Subprograma Territórios Indígenas, dentro do Programa REM-MT, voltado à repartição de benefícios provenientes da conservação ambiental.

conservação ambiental
Foto: Reprodução arquivo do ICV

Na área da transparência, o instituto desenvolve metodologias que orientam órgãos públicos na ampliação da qualidade e da disponibilidade das informações ambientais. Entre as ferramentas criadas estão o Termômetro do Código Florestal, o Monitor da Fiscalização, o Índice de Democracia Ambiental e o Ranking da Transparência Ambiental do Ministério Público Federal, utilizados para avaliar órgãos estaduais e federais em todo o país.

Em âmbito local, o trabalho desenvolvido em Alta Floresta (MT) contribuiu para uma redução significativa do desmatamento, permitindo que o município deixasse a lista dos maiores desmatadores da Amazônia.

Além disso, o instituto já apoiou a restauração de mais de 800 hectares de áreas degradadas no norte de Mato Grosso, por meio de metodologias desenvolvidas em parceria com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA-MT). 

Paralelamente, fortaleceu cadeias produtivas da agricultura familiar, beneficiando mais de seis mil famílias com melhorias na produção, certificação orgânica, comercialização e fortalecimento de cooperativas.

Coluna da Neuza: Como o ICV concilia a conservação dos recursos naturais com a geração de renda para agricultores familiares e comunidades tradicionais?

Camila Rodrigues: Para o Instituto Centro de Vida, conservação ambiental e produção agrícola não são objetivos opostos. Pelo contrário, fazem parte da mesma estratégia de desenvolvimento sustentável.

A Visão 2030 da organização parte de uma abordagem integrada do território e das propriedades rurais. Defendemos que não existe produção agropecuária sustentável sem a conservação da água, do solo, da biodiversidade, dos polinizadores e do equilíbrio climático.

Por isso, além de incentivar a restauração e a proteção das áreas de preservação, o instituto investe na implantação de sistemas produtivos regenerativos e agroecológicos, conectando agricultores familiares a mercados públicos e privados.

Um dos exemplos é a Rota Local, iniciativa que aproximou agricultores familiares de oportunidades de comercialização. O projeto passou a movimentar mais de R$ 1 milhão por ano para famílias ligadas a sete associações e cooperativas e contribuiu para ampliar em mais de 90% a participação da agricultura familiar no mercado institucional de Alta Floresta.

Coluna da Neuza: De que forma os dados e ferramentas de inteligência territorial desenvolvidos pelo instituto contribuem para a formulação de políticas públicas mais eficazes?

Ana Paula Valdiones: O ICV produz análises sobre desmatamento, exploração florestal, incêndios e conformidade da produção agropecuária com a legislação ambiental. Essas informações oferecem subsídios técnicos para o debate público, fortalecem o controle social das políticas ambientais e apoiam a tomada de decisões baseada em evidências.

Compreender quanto do desmatamento ou da exploração florestal ocorre sem autorização permite que governos e instituições desenvolvam respostas mais precisas para enfrentar esses problemas.

Nosso trabalho vai além da produção de dados. A democratização do acesso às informações ambientais também busca ampliar a participação da sociedade e fortalecer os processos democráticos relacionados à gestão ambiental.

Foto: Manoela Meyer

Coluna da Neuza: Quais são hoje os maiores desafios para combater o desmatamento e promover justiça climática na Amazônia e no Cerrado?

Ana Paula Valdiones: Embora os índices de desmatamento tenham apresentado queda nos últimos anos, a ilegalidade ainda representa um dos maiores obstáculos para a conservação ambiental. 

Segundo dados do ICV, entre agosto de 2024 e julho de 2025, 88,6% do desmatamento registrado na Amazônia ocorreu sem autorização. No Cerrado, esse percentual foi de 42,6%. Considerando os dois biomas, 61,4% de todo o desmate foi realizado de forma irregular.

Esses números evidenciam que a implementação da legislação ambiental brasileira ainda enfrenta dificuldades, especialmente em relação ao Código Florestal. Fortalecer a governança ambiental, ampliar a cooperação entre os diferentes níveis de governo e garantir maior efetividade na fiscalização são medidas essenciais para reduzir o desmatamento ilegal.

Outro desafio é o avanço da fronteira agropecuária e da especulação fundiária, fatores que continuam impulsionando a destruição da vegetação nativa tanto na Amazônia quanto no Cerrado. 

Nesse cenário, o fortalecimento da transparência e da rastreabilidade das cadeias produtivas, especialmente dos setores de grãos e carne, além da ampliação de acordos e compromissos voluntários das empresas para impedir que produtos associados ao desmatamento cheguem ao mercado.

Coluna da Neuza: Como as comunidades locais participam da construção e da implementação dos projetos desenvolvidos pelo ICV?

Camila Rodrigues: A participação comunitária é um dos pilares da atuação do Instituto Centro de Vida.As associações e cooperativas não são apenas beneficiárias dos projetos, mas parceiras em todas as etapas do processo.

O instituto oferece apoio na elaboração e execução das iniciativas, investe em formação continuada e acompanha o desenvolvimento das ações nos territórios. Além disso, compartilha responsabilidades e resultados com as organizações locais, fortalecendo o protagonismo das comunidades na construção de soluções para seus próprios desafios.

Coluna da Neuza: O instituto trabalha em parceria com governos, empresas e organizações da sociedade civil. Quais resultados concretos essas parcerias têm gerado?

Camila Rodrigues: A atuação em rede faz parte da estratégia do ICV desde sua criação.  A colaboração entre instituições públicas, organizações da sociedade civil e demais parceiros têm permitido ampliar o alcance e o impacto das ações desenvolvidas.

Na área de transparência ambiental, por exemplo, atuamos em parceria com o Ministério Público e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (SEMA-MT), fornecendo subsídios técnicos que contribuíram para ampliar o acesso da sociedade às informações ambientais do estado.

conservação ambiental
Foto: José Medeiros

Coluna da Neuza: O instituto trabalha em parceria com governos, empresas e organizações da sociedade civil. Quais resultados concretos essas parcerias têm gerado?

Camila Rodrigues: As parcerias institucionais fazem parte da estratégia de atuação do Instituto Centro de Vida e têm contribuído para ampliar o acesso à informação ambiental e fortalecer políticas públicas voltadas à conservação.

Um dos destaques é o trabalho realizado em conjunto com o Ministério Público e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (SEMA-MT). 

A partir de estudos e subsídios técnicos produzidos pelo ICV, foi possível ampliar a disponibilização de informações ambientais pelo estado. Um marco desse processo foi o lançamento do Geoportal, em 2018, plataforma que reúne um amplo conjunto de dados ambientais acessíveis à sociedade.

Outro exemplo é o mapeamento anual da exploração florestal em Mato Grosso, desenvolvido em parceria com a SEMA-MT. O monitoramento realizado pelo instituto é revisado pela equipe técnica da secretaria e incorporado como dado oficial do governo estadual, contribuindo para o planejamento de ações de combate à exploração ilegal de madeira.

Além disso, o ICV produz estudos que subsidiam o debate público sobre projetos de lei relacionados ao meio ambiente, apoiam a avaliação de políticas de controle do desmatamento e fortalecem as discussões sobre rastreabilidade das cadeias produtivas.

Na área da produção rural, há iniciativas como o Programa Novo Campo, que demonstra, na prática, ser possível aumentar a produtividade da pecuária sem necessidade de abertura de novas áreas, conciliando desenvolvimento econômico e conservação ambiental.

Coluna da Neuza: Quais iniciativas recentes do ICV merecem destaque por seu potencial de impacto ambiental e social nos próximos anos?

Camila Rodrigues: Entre os projetos mais recentes está o Terra Nutre, financiado pelo Fundo Amazônia por meio da chamada pública Amazônia na Escola. A iniciativa busca ampliar o acesso de estudantes da rede pública de Mato Grosso a alimentos saudáveis e tradicionais, fortalecendo simultaneamente a produção da agricultura familiar e das comunidades tradicionais.

O projeto atua em duas frentes: a primeira oferece assessoria técnica, capacitação, fortalecimento das organizações comunitárias e melhorias na infraestrutura produtiva para agricultores familiares, povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.

A segunda envolve o apoio às prefeituras e às entidades responsáveis pela execução do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), para que estejam preparadas a adquirir alimentos produzidos localmente. 

A medida está alinhada à Lei nº 15.226/2025, que determina que, no mínimo, 45% dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) destinados à alimentação escolar sejam utilizados na compra de produtos da agricultura familiar.

O Terra Nutre é executado em parceria com diversas instituições, entre elas o Instituto Socioambiental (ISA), o Centro de Tecnologia Alternativa (CTA), o Instituto Comida e Cultura (ICC), o Instituto Comida do Amanhã (CdA), o Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) e a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Instituto Federal de Mato Grosso (Funadif). 

O projeto também conta com acordos de cooperação com a Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT), prefeituras de dez municípios mato-grossenses e apoio do Ministério Público Federal.

Foto: José Medeiros

Coluna da Neuza: O que o ICV considera essencial para construir um modelo de desenvolvimento econômico que seja, ao mesmo tempo, inclusivo e sustentável?

Ana Paula Valdiones: Para o Instituto Centro de Vida, um modelo sustentável depende da integração entre conhecimento técnico, participação social e valorização dos territórios.

O uso de ferramentas de inteligência territorial e de monitoramento em tempo real, aliado à transparência no acesso às informações ambientais, fortalece o controle social, qualifica o debate público e contribui para o combate aos crimes ambientais. Pois, sem democracia, não há sustentabilidade.

Além disso, os povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares precisam ocupar papel de protagonistas na construção das políticas públicas, com acesso justo aos recursos, aos financiamentos climáticos e aos espaços de decisão.

Outro ponto considerado essencial é a transição para sistemas alimentares mais saudáveis, justos e regenerativos, baseada na restauração da vegetação nativa, na segurança alimentar, no fortalecimento das cadeias produtivas da sociobiodiversidade e na promoção de atividades agropecuárias livres de desmatamento e de violações de direitos humanos.

Por fim, enfrentar os desafios ambientais exige uma atuação conjunta entre governos, setor privado, organizações da sociedade civil e comunidades locais. Somente por meio de parcerias multissetoriais será possível construir soluções duradouras para a conservação da Amazônia e do Cerrado.

Um compromisso que inspira

Ao conhecer iniciativas como as desenvolvidas pelo Instituto Centro de Vida, fica evidente que a proteção ambiental vai muito além da preservação da natureza. Ela passa pelo fortalecimento das comunidades, pela valorização da agricultura familiar, pela transparência das informações e pela construção de políticas públicas capazes de conciliar desenvolvimento e conservação.

Mais que apresentar resultados, o trabalho do ICV demonstra que soluções sustentáveis se tornam mais efetivas quando são construídas de forma coletiva, envolvendo diferentes setores da sociedade e colocando as pessoas que vivem nos territórios no centro das decisões. É um caminho que reforça a importância de cuidar dos biomas brasileiros sem perder de vista quem faz parte deles.

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A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.

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