Comunidades celebram a competição com criatividade e pertencimento, mas defendem que o legado da Copa do Mundo também seja construído com investimentos permanentes em projetos sociais, esporte de base e oportunidades para crianças e jovens nas periferias
A cada quatro anos, o Mundial transforma ruas, mobiliza torcidas e reforça a paixão nacional pelo futebol. Nas favelas, o evento ganha cores próprias como bandeirinhas, ruas decoradas, grande presença nos bares, televisões compartilhadas e encontros entre vizinhos. Mas, para muitas lideranças comunitárias, o verdadeiro legado da Copa do Mundo ainda não chegou aos territórios populares.
Para além da festa, lideranças comunitárias ouvidas pela Coluna da Neuza questionam qual é o verdadeiro legado deixado pelos grandes eventos esportivos para os territórios populares e defendem mais investimentos em projetos sociais, esporte de base e oportunidades para crianças e jovens.
Existe um consenso entre os entrevistados: o futebol continua sendo uma das linguagens mais poderosas para unir pessoas. Em diferentes comunidades do Rio de Janeiro, a Copa do Mundo ainda é um momento de agregar, celebrar e construir uma identidade coletiva.
Para Michele, Diretora Geral do Instituto Brasileiro de Lésbicas (ABL), o futebol tem uma capacidade rara de aproximar diferentes realidades sociais.
“Grandes eventos esportivos têm um significado importante para as comunidades. Aqui no Complexo do Alemão, existe a tradição de pintar as ruas, decorar os espaços e reunir os moradores. O futebol acaba funcionando como um elemento de união entre quem mora na favela e fora dela, criando um sentimento de pertencimento coletivo.”
Essa percepção também aparece na fala de Fabiana Ferrinha, líder do F.A.R.O Maré, no Morro do Timbau, favela mais antiga do Complexo da Maré. Para ela, o Mundial altera a dinâmica da comunidade. “Há quatro anos venho acompanhando a interação dos moradores durante a Copa do Mundo. É um período em que as pessoas ficam muito felizes, se envolvem com o evento e se apropriam dos espaços da comunidade.”

Na Biblioteca Comunitária Conceição Maria Lopes, o fundador Dilson Lopes destaca a participação das crianças e jovens na construção desse ambiente festivo.
“Na nossa comunidade, a Copa do Mundo trouxe um clima de alegria e mobilização. As ruas foram enfeitadas com bandeirinhas produzidas pelas próprias crianças e jovens, e houve a pintura das paredes das casas.”
Mas nem todos os entrevistados enxergam as comunidades apenas como espectadoras. Morador do Morro da Serrinha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e 1º Secretário do Instituto Os Sobreviventes, Paulinho Ula acredita que o avanço do acesso à internet, à televisão e aos meios de comunicação ampliou a participação da população nos grandes eventos esportivos.
“A Copa do Mundo chega para todos e, sem dúvida, movimenta a comunidade. Hoje, com o acesso à internet, à energia elétrica e aos meios de comunicação, muito mais pessoas conseguem acompanhar os jogos e participar desse momento. Antigamente, essa realidade era diferente. Atualmente, o evento alcança praticamente todos os moradores e acaba influenciando até a economia local.”
Apesar do entusiasmo, a maioria das lideranças afirma que a participação das comunidades costuma se limitar à condição de espectadoras.
Arthur Lucena, fundador da página Valores da Penha, conhecido como Jornalista Favelado, o legado da Copa do Mundo de 2014 no Brasil ficou aquém das expectativas das comunidades.
“A Copa do Mundo mobiliza o país inteiro, mas nem sempre as comunidades se sentem incluídas. Enquanto os estádios recebiam uma robusta injeção financeira e seguiam o chamado padrão FIFA, muitos moradores continuavam convivendo com problemas na educação, saúde e segurança.”
A avaliação é semelhante à de Cassius Clay, coordenador do Pré-Vestibular Bom Pastor, em Belford Roxo, Baixada Fluminense.
“As comunidades acabam assistindo à Copa do Mundo de fora. É um evento que funciona como entretenimento, mas que gera pouco ou nenhum impacto social direto para a maioria da população.”
Já para o capoeirista Professor Lobo, fundador do projeto de capoeira Educar para Transformar, a distância entre os grandes eventos e a realidade dos territórios é ainda mais evidente.
“Os jogos da Copa do Mundo não trazem mudanças concretas para a minha comunidade. Na prática, nós apenas assistimos aos jogos.”
O legado da Copa do Mundo que nunca chega
Se a festa é compartilhada, o mesmo não acontece com os investimentos. Ao serem questionadas sobre qual legado gostariam de receber dos grandes eventos esportivos, as lideranças apresentaram respostas distintas, mas todas convergem para uma mesma demanda: investimentos permanentes em seus territórios.
Leandro, voluntário do coletivo Frente Cavalcanti, acredita que o legado precisa ser construído dentro das comunidades.
“Depois que os holofotes se apagam, permanecem os desafios de sempre: projetos sociais com poucos recursos, jovens talentosos sem incentivo e espaços esportivos sem uma estrutura adequada. Por isso, o legado mais importante seria o emprego permanente de verba nas comunidades.”
A reivindicação também aparece na fala de Cássio, criador do projeto Amazônia Digital, que defende a revitalização de espaços públicos voltados ao esporte.
“Se eu pudesse escolher um legado, seria o investimento e a revitalização de espaços públicos voltados ao esporte. O esporte une educação, bem-estar e convivência social, além de alimentar os sonhos de crianças e jovens que buscam uma vida melhor.”
Paulo Ula acredita que esse legado deve passar pelo fortalecimento dos projetos esportivos já existentes nas comunidades.
“O principal legado que a Copa do Mundo poderia deixar seria o fortalecimento dos projetos esportivos nas comunidades. O esporte tem o poder de transformar vidas, mas esse incentivo não deve se limitar ao futebol. É importante apoiar também modalidades como basquete, vôlei e outras práticas esportivas, oferecendo às crianças e aos jovens referências positivas dentro dos seus próprios territórios.”
Para ele, muitas organizações comunitárias já realizam um trabalho relevante, mas precisam de mais apoio para ampliar o alcance.
“Muitas organizações precisam de materiais esportivos, melhorias em sua infraestrutura e recursos para ampliar o atendimento. Com apoio adequado, conseguem alcançar ainda mais pessoas e gerar impactos positivos duradouros.”
Para Fabiana Ferrinha, pequenas melhorias já fariam uma diferença significativa no cotidiano dos moradores.
“Como legado, gostaria que fossem preservadas a decoração das ruas próximas aos projetos sociais, que foram enfeitadas durante a Copa. Isso seria primordial para a comunidade.”
Na visão de Dilson Lopes, até mesmo demandas consideradas básicas permanecem sem solução. “Gostaríamos, inclusive, de ter as ruas pintadas, mas ainda não contamos com asfalto na comunidade.”
As falas revelam uma percepção recorrente entre quem atua diretamente nos territórios: enquanto bilhões são investidos em estádios, infraestrutura temporária e grandes operações ligadas aos megaeventos, projetos que trabalham diariamente com crianças e jovens seguem enfrentando dificuldades para se manter.
Futebol que transforma vidas
Se há críticas à distribuição dos investimentos, também existe um reconhecimento quase unânime sobre o potencial transformador do esporte. Em comunidades marcadas pela desigualdade social, o futebol é visto como ferramenta de educação, proteção e construção de perspectivas de futuro.
“Eu acredito que o esporte tem a capacidade de transformar vidas. Muitos jogadores que hoje disputam grandes competições começaram em escolinhas ligadas a projetos sociais”, afirma Dilson Lopes.
Leandro compartilha a mesma visão. “O futebol é mais do que uma prática esportiva; ele funciona como uma rede de proteção, ensinando disciplina, respeito, convivência e fortalecendo sonhos.”
Para Aldo Moraes, do projeto Batuque na Caixa, o futebol tem um poder de mobilização difícil de ser comparado a qualquer outra atividade.
“O futebol tem um enorme poder de atração sobre crianças, adolescentes e jovens. Ele desperta sonhos, fortalece a autoestima e pode ser uma porta de entrada para a prática esportiva, para a permanência na escola e para a construção de novos projetos de vida.”
A experiência de quem atua diretamente em projetos comunitários reforça essa percepção. Ao longo de quase uma década registrando histórias nas favelas da Penha, o Jornalista Favelado acompanhou diferentes iniciativas esportivas e viu de perto o impacto que elas produzem.
“Quadras e campos esportivos se tornam espaços de convivência, pertencimento e esperança para crianças e jovens. O esporte cria oportunidades, fortalece vínculos e ajuda a construir novos caminhos.”
No entanto, o debate não se resume ao futebol masculino. Michele chama atenção para a desigualdade de gênero presente no esporte e para a necessidade de ampliar oportunidades para meninas.
“O futebol não apenas transforma vidas, ele salva vidas. Mas ainda existe uma grande desigualdade quando falamos sobre quem tem acesso a essas oportunidades. Os investimentos costumam ser muito mais direcionados aos meninos.”
Segundo ela, discutir o legado do futebol também significa discutir inclusão e acesso para todas as crianças e adolescentes.

O impacto de investir nas comunidades
Os recursos movimentados pelos grandes eventos esportivos costumam alcançar cifras bilionárias. Diante dessa realidade, os entrevistados foram convidados a imaginar o impacto que teria a destinação de apenas uma pequena parcela desses recursos a projetos sociais nas periferias.
A resposta foi praticamente unânime: a transformação seria imediata. Cassius acredita que os recursos poderiam estimular uma cultura global de solidariedade.
“Uma pequena parcela dos recursos investidos nesses eventos já seria capaz de promover mudanças concretas nas comunidades.”
Para Aldo, os resultados são facilmente mensuráveis. “Com investimentos relativamente modestos, é possível atender milhares de crianças e jovens com atividades culturais, esportivas e educativas, além de promover cidadania, inclusão e fortalecimento comunitário.”
Leandro reforça que não se trata de assistência ou caridade. “Isso não seria uma questão de caridade, mas uma aplicação de recurso estratégico. As periferias já produzem talento, cultura e potência. O que falta é incentivo.”
Michele também aponta uma distorção na distribuição dos recursos destinados ao terceiro setor. “Muitos projetos de base comunitária sobrevivem com doações e esforço de seus próprios coordenadores, enquanto formam futuros atletas e lideranças.”
Para Cassio, do Amazônia Digital, os benefícios ultrapassam a infraestrutura física. “Além de melhorar espaços de convivência, esporte e educação, isso fortaleceria o sentimento de pertencimento, valorização do território e orgulho comunitário.”
Já Professor Lobo resume a questão de forma direta: “Se parte desse dinheiro fosse destinada aos projetos sociais que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade, o impacto seria muito positivo para as comunidades.”
Muito além de um mês de competição
Embora as opiniões variem em relação aos benefícios concretos da Copa do Mundo, as lideranças comunitárias concordam em um ponto essencial: o futebol continua sendo uma poderosa ferramenta de transformação social.
O que elas reivindicam não é o fim dos grandes eventos esportivos, mas uma distribuição mais equilibrada dos benefícios que eles geram.
Enquanto milhões de brasileiros acompanham partidas, colecionam figurinhas e enfeitam as ruas para torcer pela seleção, comunidades de todo o país mostram que a paixão pelo futebol continua viva.
O desafio apontado por quem atua nesses territórios é fazer com que essa paixão seja acompanhada por investimentos permanentes, capazes de fortalecer projetos sociais, ampliar oportunidades e garantir que o legado da Copa do Mundo permaneça muito além do apito final.
Conheça as as 10 iniciativas sociais que contribuíram para esta matéria e acompanhe o trabalho desenvolvido por elas por meio de suas redes sociais nos links abaixo:
Instituto Brasileiro de Lésbicas;
Biblioteca Conceição Maria Lopes;
Siga o Lupa do Bem no Instagram, Facebook e LinkedIn.
A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.





