Instituto Sobreviventes: a força de ex-presidiários que transformam exclusão em solidariedade

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Instituto Sobreviventes foi criado em 2023 por egressos do sistema penal e apoia presos, ex-detentos e suas famílias com acolhimento, ressocialização e esperança

Quem me acompanha nesta coluna sabe o quanto gosto de ouvir histórias que tocam fundo, que falam de vida real, de lutas invisíveis e de esperanças possíveis. Foi assim que conheci o Instituto Sobreviventes – Resgatando Vidas, formado por ex-presidiários que decidiram transformar a dor da prisão em força para ajudar outros que passam pelo mesmo caminho.

Nesta visita e entrevista, ouvi relatos fortes, emocionantes e cheios de verdade. Eles abriram o coração para contar como nasceu o projeto, quais são as dificuldades enfrentadas e, acima de tudo, quais sonhos ainda os movem.

Da dor ao acolhimento

Tudo começou em 20 de janeiro de 2023, quando um grupo de amigos que compartilhou a dura experiência do cárcere decidiu transformar reencontros e conversas em algo maior. 

Assim nasceu o Instituto Sobreviventes – Resgatando Vidas, uma organização de direitos humanos formada por ex-presidiários que hoje reúne 98 participantes ativos, entre homens e mulheres, liderados por uma diretoria de sete membros.

A iniciativa começou de maneira simples, como conta Genilson, um dos fundadores. “A ideia surgiu da necessidade de rever os amigos. Fizemos um grupo de WhatsApp, organizamos um churrasco e logo percebemos que alguns estavam em situações precárias. Então, começamos a ajudar no que podíamos. Foi aí que entendemos que, juntos, poderíamos ir além.”

Desde então, o Instituto tem trabalhado com egressos, familiares e pessoas ainda privadas de liberdade, oferecendo apoio psicológico, jurídico e social, além de desenvolver iniciativas voltadas para dependentes químicos e projetos com crianças e adolescentes em risco.

Quem são os Sobreviventes?

O grupo é formado por homens e mulheres que viveram longos períodos de reclusão e, ao reconquistar a liberdade, decidiram se unir para evitar a reincidência e apoiar outros que passam pelo mesmo processo.

Paulo Henrique Coimbra da Silva, mais conhecido como Paulinho da Serrinha, resume o propósito: “somos uma instituição voltada a ajudar egressos, mostrando que todos nós temos condições de mudar de vida. Queremos ajudar o próximo, apoiar famílias, oferecer orientação psicológica e mostrar que temos direitos perante a lei.”

Construindo novos caminhos com dignidade

De reuniões informais, o grupo evoluiu para uma organização que atua em três frentes principais: acolhimento emocional, orientação prática (com apoio jurídico e social) e atividades de ressocialização.

Segundo Marcos Antônio Ferreira González, egresso e um dos fundadores, o projeto também acolhe as famílias, além de atuar com instituições públicas para a reinserção da população carcerária na sociedade. “Hoje participo da iniciativa Pena Justa, do Ministério da Justiça, que busca mudanças reais no sistema penal. Estamos aqui para fazer a diferença”, complementa. 

A organização também se abre para a comunidade em geral. André Luiz Inácio Rocha, atual presidente, comenta que “muita gente fala que a criminalidade está alta, mas cadê a solução? Se não dermos um novo caminho para as crianças, elas vão repetir os erros dos pais. Queremos projetos sociais de esporte, capoeira, jiu-jitsu, futebol… tudo para oferecer outra perspectiva.”

O grupo tem sede própria, mas de forma precária, e a vitória mais recente foi a autorização do sistema prisional para realizar palestras de ressocialização dentro das unidades prisionais. Outra conquista, apesar das dificuldades, foi a reunião com a Secretária do Sistema Penal do Rio de Janeiro, Maria Rosa Nebel, que abriu portas para atuação oficial nas unidades prisionais.

A história da instituição é recente, mas seus membros carregam décadas de experiência dentro do sistema carcerário. Alguns, como Marcos González, passaram 40 anos presos. Outros, como Paulinho da Serrinha, ainda cumprem parte de suas penas em liberdade condicional.

A motivação do grupo é clara: romper o ciclo de reincidência e oferecer alternativas reais para quem sai do sistema penal. Nilson, conhecido como Medina ou Magrinho, explica que “o grupo resgata vidas e almas. Ele nos dá a possibilidade de ressocialização. Para mim, é um imenso prazer fazer parte disso.”

Hoje, o Instituto Sobreviventes se mantém literalmente da solidariedade dos próprios membros. Cada participante contribui com R$30,00 mensais para cobrir despesas mínimas, como transporte, manutenção da sede e apoio emergencial a famílias em situação de vulnerabilidade.

No entanto, Valdemir Simão de Freitas, um dos fundadores, aponta que um dos  desafios é formalizar o projeto. “Nossa dor maior no momento é registrar a instituição, ter um CNPJ. Precisamos de assistente social, jurídico, material de escritório, e, acima de tudo, precisamos de parceiros que acreditem em nós. Toda ajuda é bem-vinda.”

O objetivo do grupo é ambicioso, mas simples em sua essência: construir caminhos de dignidade para que a liberdade conquistada não seja perdida.

“Queremos mostrar que a ressocialização é possível. O sistema penal não ressocializa ninguém, somos nós mesmos, junto das nossas famílias, que fazemos isso acontecer. Uma coisa que ajudaria bastante, seria levar cursos profissionalizantes para dentro da prisão, assim, quando sair, o egresso tem mais chances de se inserir no mercado de trabalho”, afirma Marcos González.

“Liberdade não tem preço”

Outra preocupação do projeto é impactar a juventude, para que não siga o mesmo caminho dos familiares,  como explica André Luiz Inácio Rocha. “Acredito que um dos nossos papéis é evitar que crianças cresçam achando natural ter alguém da família preso.”

Já Marco González deixa um recado aos mais jovens: “antes de fazer qualquer coisa errada, pensem. Eu perdi 40 anos da minha vida preso. Lutem, procurem ajuda, pois a liberdade não tem preço.”

Por fim, Anderson Eugênio Barbosa fala sobre a alegria que é participar do projeto: “fui convidado pelo meu amigo Paulinho e espero bons frutos do Instituto. Já estou aqui há seis meses e aprendo todos os dias.”

Gostou do projeto? Saiba como apoiar

Se você gostou desse projeto e quer ajudar, o Instituto Sobreviventes busca, com urgência, parcerias que viabilizem o registro formal da instituição, ampliem as atividades e possibilitem a oferta de cursos profissionalizantes dentro e fora das prisões. Ao mesmo tempo, a manutenção da sede e a compra de cestas básicas, remédios e materiais de escritório ainda são desafios diários.

“Estamos trabalhando em prol das famílias e das pessoas privadas de liberdade. A casa está aberta para quem precisar”, finaliza Marcos González.

O Instituto Sobreviventes mostra que a ressocialização é uma construção coletiva. Mais do que um espaço de apoio, é uma prova viva de que a segunda chance é possível quando se unem coragem, solidariedade e propósito. Como resume o grupo: “Errar não define quem somos. O que importa é o que fazemos depois.”

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A Coluna da Neuza é parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.

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