Criado em dezembro de 2019, o Instituto GOA – Grupo de Operação Ambiental, capacita voluntários, fortalece o protagonismo feminino e atua na prevenção de incêndios florestais, recuperação ambiental e proteção de comunidades indígenas
Tudo começou em 2018, quando um incêndio de grandes proporções atingiu a Terra Indígena Santana, também conhecida como Santana Bakairi, em Mato Grosso. A tragédia evidenciou a necessidade de preparar as próprias comunidades para agir com mais rapidez e segurança diante das emergências ambientais.
Assim, nasceu o Grupo de Operação Ambiental, instituição sem fins lucrativos criada pelo coronel aposentado do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso, Paulo Selva, que passou a capacitar agentes ambientais voluntários e comunidades isoladas na prevenção, combate ao fogo e recuperação ambiental.
No território Bakairi, o trabalho ganhou uma característica especial, entre os 45 voluntários capacitados que concluíram o Curso Básico de Gerenciamento de Queimadas Urbanas e Incêndios Florestais, 25 eram mulheres que se transformaram em brigadistas indígenas e passaram a combinar conhecimento técnico com os saberes ancestrais para proteger o território e reduzir os danos provocados pelo fogo.
Em entrevista à Coluna da Neuza, o coronel Paulo Selva falou sobre a criação do GOA, a formação das brigadas, os desafios enfrentados pelas comunidades e a importância do protagonismo feminino na proteção dos territórios indígenas.
Coluna da Neuza: Como surgiu o Grupo de Operação Ambiental (GOA)?
Paulo Selva: A ideia surgiu da percepção de que o sistema oficial não consegue alcançar todas as regiões que precisam de resposta rápida. Mais de 45% dos incêndios florestais acontecem fora das áreas onde há atuação direta do Corpo de Bombeiros.
O episódio decisivo foi justamente o incêndio de 2018 na Terra Indígena Santana. A comunidade ficou praticamente desamparada enquanto aguardava autorização da Funai e de outras esferas do governo. A partir dessa experiência, ficou evidente que era preciso preparar as próprias comunidades para prevenir e enfrentar situações semelhantes.
Então, o GOA nasceu com a proposta de levar conhecimento técnico e gratuito a lugares onde muitas vezes o poder público demora a chegar.
Coluna da Neuza: Quais são hoje as principais frentes de atuação do GOA?
Paulo Selva: Trabalhamos em três principais frentes. A primeira é a gestão de risco e manejo tradicional do fogo com ações preventivas, criação de aceiros e uso responsável de técnicas de queima controlada. Depois vem a resposta às emergências, com pessoas capacitadas para atuar diretamente no combate aos incêndios florestais. Por último, a recomposição das áreas afetadas, com plantio de espécies nativas e incentivo a alternativas de geração de renda que não prejudiquem o meio ambiente.
Os cursos incluem primeiros socorros, radioamadorismo, prevenção e combate ao fogo, uso de equipamentos e técnicas de sobrevivência; o que amplia a autonomia das comunidades.
Coluna da Neuza: Como funciona, na prática, a parceria com a comunidade Bakairi?
Paulo Selva: Essa parceria nasceu de uma necessidade concreta. Depois do incêndio de 2018, começamos, em 2021, uma formação técnica com moradores da Terra Indígena Santana. O mais importante é que o conhecimento técnico não substitui o saber tradicional.
Ele foi somado ao que os Bakairi já conheciam sobre seu território, como o comportamento do fogo, as plantas e os ciclos da natureza. Essa integração tornou a brigada mais preparada e fortaleceu a autonomia da comunidade.
Coluna da Neuza: Qual é o papel das mulheres nessa brigada voluntária?
Marcio Paulo: O protagonismo feminino foi uma das grandes surpresas e uma das maiores forças do projeto e entre as que forma há adolescentes e mulheres de diferentes idades, inclusive com 40 e 50 anos.
Elas desafiam a ideia de que o combate ao fogo é uma atividade exclusivamente masculina e transformam experiências difíceis em aprendizado. Depois do incêndio, houve o replantio de alimentos nos quintais, ajudando a proteger o solo e a garantir sustento.

Coluna da Neuza: Quais foram os principais resultados alcançados pela brigada?
Paulo Selva: O resultado mais importante é a proteção do território. Há quatro anos, a Terra Indígena Santana não registra incêndios de grandes proporções. Quando aparecem pequenos focos, a própria brigada consegue agir rapidamente antes que o fogo avance.
Esse resultado mostra a importância de preparar quem vive no território. A comunidade deixa de depender exclusivamente de uma resposta externa e passa a ter condições de atuar imediatamente. A brigada também se tornou referência na região. Em 2024, os voluntários saíram do próprio território para ajudar no combate ao fogo na Terra Indígena Tereza Cristina.
Além disso, passaram a ser procurados por fazendeiros e órgãos estaduais em casos de emergência.
Outro impacto importante é o fortalecimento da comunidade. O trabalho mostra que conhecimento técnico, organização e saberes ancestrais podem caminhar juntos na proteção ambiental.
Coluna da Neuza: Quais são os maiores desafios enfrentados hoje pelo GOA e pelos brigadistas?
Paulo Selva: O principal desafio é a falta de recursos. O trabalho é voluntário e não há remuneração ou subsídio permanente para alimentação, transporte ou equipamentos.
A situação dos equipamentos de proteção é especialmente preocupante. A brigada chegou a ter apenas oito macacões para mais de 30 voluntários. Muitas mulheres precisam usar roupas e calçados doados, como tênis e sapatilhas, que não oferecem a proteção necessária para enfrentar um incêndio.
Também enfrentamos dificuldades relacionadas à burocracia e à ausência de políticas públicas capazes de responder com rapidez às necessidades dessas comunidades. Para desenvolver treinamentos em territórios indígenas, por exemplo, existem processos de autorização que podem ser demorados.
Por isso, além da formação, precisamos criar condições para que essas pessoas possam atuar com segurança.
Coluna da Neuza: Além do combate aos incêndios, que outras ações ambientais são desenvolvidas pelo instituto?
Paulo Selva: O combate ao fogo é apenas uma parte do trabalho. Também atuamos na recomposição florestal, com o plantio de espécies nativas em áreas degradadas, e incentivamos formas sustentáveis de produção e geração de renda. A recuperação ambiental também passa pelo conhecimento tradicional das comunidades. O replantio de alimentos nos quintais, por exemplo, ajuda a proteger o solo, melhora a segurança alimentar e mantém práticas transmitidas entre gerações.
Outra frente importante é a educação ambiental. Os cursos de primeiros socorros, radioamadorismo, sobrevivência e manejo do fogo ajudam a preparar moradores para diferentes situações de urgência.
O objetivo é criar autonomia. Não basta apagar um incêndio, é preciso prevenir, recuperar o que foi perdido e construir alternativas para que as comunidades possam continuar vivendo no território de maneira sustentável.
Coluna da Neuza: Como empresas, parceiros e a sociedade podem contribuir com o trabalho do GOA?
Paulo Selva: Neste momento, uma das maiores necessidades é a doação de equipamentos de segurança, como macacões, botas, luvas e capacetes adequados para o combate ao fogo.
Também precisamos de apoio financeiro para transporte, alimentação, manutenção de veículos e compra de equipamentos. Empresas podem participar por meio de patrocínios e de ações de responsabilidade social.
Há ainda necessidade de suprimentos, como água, alimentos não perecíveis, materiais de primeiros socorros, ferramentas, abafadores e bombas costais.
Profissionais também podem contribuir oferecendo capacitações em áreas como primeiros socorros, manejo do fogo, radioamadorismo e sobrevivência.
E existe uma contribuição que qualquer pessoa pode fazer que é a divulgação desse trabalho. Quanto mais visibilidade a causa receber, maiores são as chances de conseguir parceiros, voluntários e apoio para manter as brigadas funcionando.

Proteção que nasce do território
A experiência da brigada Bakairi mostra como conhecimento técnico, saberes ancestrais e organização comunitária podem transformar a proteção ambiental.
Na Terra Indígena Santana, moradores que antes dependiam da chegada de ajuda passaram a atuar diretamente na prevenção e no combate aos incêndios. Nesse processo, as mulheres indígenas assumiram papel de destaque.
Mesmo com poucos recursos e equipamentos, a brigada segue protegendo o território e apoiando outras comunidades. O trabalho do GOA reforça que fortalecer quem vive na floresta também é uma forma de preservá-la.
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