Criado em 2016 na comunidade do Esqueleto, em Duque de Caxias, o Instituto atende cerca de 85 pessoas e busca apoio para ampliar suas atividades e oportunidades de formação
Chegar ao Jardim Gramacho é entrar em um território marcado por muitas histórias, desafios e por gente que insiste em criar oportunidades onde elas nem sempre chegam. Foi com esse olhar que visitei o Instituto Atletas de Ouro, na comunidade do Esqueleto, em Duque de Caxias.
Ali, encontrei crianças, adolescentes, adultos e idosos dividindo o mesmo espaço e aprendendo muito mais do que esporte. Entre aulas de capoeira, judô, karatê, ginástica, tae bo, modalidade que combina movimentos de artes marciais, como karatê, taekwondo e boxe, com exercícios de ginástica aeróbica ao som de música, e outras atividades.
No local, conheci histórias de disciplina, pertencimento, autoestima e transformação. Foi ouvindo quem vive o instituto no dia a dia que entendi melhor a importância daquele trabalho para a comunidade do Jardim Gramacho.
O Instituto Atletas de Ouro foi fundado em 2016 por Leandro Feliciano da Silva, o professor Léo. Hoje, Ita Rodrigues, vice-presidente e professora de capoeira, também integra a gestão da instituição e deu uma entrevista para a Coluna da Neuza. Confira.
Coluna da Neuza: Como nasceu o Instituto Atletas de Ouro e o que motivou sua criação no Jardim Gramacho?
Ita Rodrigues: O Instituto nasceu do desejo do fundador, Leandro Feliciano da Silva, o professor Léo, de devolver para a sociedade aquilo que ele recebeu um dia. Sua trajetória foi marcada por perdas ainda na infância. Aos cinco anos, viu seus pais serem mortos e só escapou porque conseguiu correr
Depois dessa tragédia, ele passou a viver com um irmão, mas enfrentou agressões físicas e, aos 12 anos, fugiu de casa e foi morar com outro irmão no Jardim Gramacho.
Foi então que conheceu o karatê ao entrar em uma instituição que oferecia a modalidade. A disciplina do esporte mudou sua trajetória e, anos depois, realizou o desejo de oferecer a outras crianças e jovens oportunidades semelhantes às que ele próprio recebeu.
Coluna da Neuza: Então, o esporte foi decisivo para a criação do Instituto?
Ita Rodrigues: Sim. O karatê moldou a vida dele e ele quis retribuir. Leandro permaneceu 19 anos na instituição onde começou como aluno e depois se tornou professor. Quando saiu, mais de 60 crianças que treinavam com ele decidiram acompanhá-lo. Sem um espaço próprio, o grupo chegou à comunidade do Esqueleto.
Foi então que um dos alunos, Anderson Silva, hoje instrutor e cofundador, sugeriu procurar a Igreja do Nazareno, pois lá tinha uma quadra. Ao ouvir a história, o pastor permitiu que as atividades começassem imediatamente. E essa parceria existe até hoje.
Ali, nasceu, em 2016, o Instituto Atletas de Ouro do Jardim Gramacho. Chegamos a atender mais de cem alunos naquele espaço. Gosto de frisar que levei a capoeira para dentro de uma igreja evangélica e nunca sofri preconceito por parte do pastor, sempre fui muito bem acolhida.
Coluna da Neuza: Quais são hoje os principais desafios enfrentados pelas crianças, jovens e famílias atendidas no território?
Ita Rodrigues: São desafios estruturais da comunidade, como moradia, saneamento básico, falta de políticas públicas e atendimento médico local. Contamos apenas com postinhos de saúde, que não oferecem emergência. Para esse tipo de atendimento, precisamos ir a hospitais distantes. Saúde, educação e transporte também são muito precários.
Coluna da Neuza: Quantas pessoas são atendidas atualmente?
Ita Rodrigues: Hoje, atendemos cerca de 85 pessoas. São crianças a partir de seis anos, jovens, adultos e idosos de até 76 anos. Temos letramento racial, curso de empreendedorismo em parceria com o Baixada Lab, capoeira, judô, karatê, ginástica e tae bo.
Contamos também com o apoio do pastor Luiz, da Igreja do Nazareno e do Anderson Oliveira, cofundador.
Coluna da Neuza: Como o esporte contribui para transformar a vida dos participantes?
Ita Rodrigues: Contribui com disciplina, educação, autocontrole, convivência em grupo e para autoestima. Eles se sentem bem quando estão aqui em atividade, se sentem valorizados.
Coluna da Neuza: Como o letramento racial é trabalhado?
Ita Rodrigues: É realizado uma vez por semana. Além das atividades lúdico-afetivas, são apresentadas pessoas negras que se destacaram e construíram narrativas importantes. É fundamental para as crianças se verem representadas e compreenderem melhor o racismo e o preconceito no Brasil.
Coluna da Neuza: Como o Instituto acompanha os resultados do trabalho?
Ita Rodrigues: Fazemos controle de presença e reuniões com os responsáveis para saber o impacto que as atividades estão tendo na escola, em casa e em outros ambientes. Procuramos acompanhar o comportamento e a convivência em grupo das crianças.
Coluna da Neuza: O que mudou depois da formalização do Instituto e da obtenção do CNPJ?
Ita Rodrigues: Passamos a entender melhor o que significa ser uma organização social também no sentido jurídico. Antes, realizávamos as atividades, mas não tínhamos noção de toda a burocracia. Hoje, registramos os atendimentos, temos fichas, listas de presença e maior participação dos responsáveis. Também ganhamos mais visibilidade e credibilidade.
Com a formalização, o Instituto passou a buscar maior articulação com outras organizações. Atualmente, integra a Rede Baixada que se Importa e mantém parceria com o Baixada Lab.
Coluna da Neuza: Como surgiu a ideia do Conselho Jovem?
Ita Rodrigues: Tive a ideia quando fiz uma formação para educador social esportivo e gestão de projetos na Luta pela Paz. Lá, conheci o Conselho Jovem e pensei: “Preciso levar isso para o Jardim Gramacho.” Hoje, os jovens se tornaram nosso braço dentro da instituição.
Coluna da Neuza: Quais são os sonhos futuros?
Ita Rodrigues: Nosso maior sonho é comprar o espaço onde atuamos e ampliar o atendimento. Também queremos encaminhar os jovens para oportunidades de qualificação e ajudá-los a acreditar neles mesmos. Desejamos ser a ponte que liga os jovens a novos caminhos, para que transformem a própria vida e o território onde vivem.
Nosso papel é promover formação cidadã e esportiva, criando meios para que os participantes desenvolvam autonomia, disciplina e tenham novas perspectivas.
Uma segunda casa
Davi, de 12 anos, conta o impacto do projeto em sua vida. “No Instituto Atletas de Ouro faço karatê, judô e letramento racial. Aprendi mais sobre disciplina e, no letramento racial, sobre não fazer bullying, não julgar as pessoas pela aparência e tratar todos com igualdade.”
Para Teresa Cristina, de 59 anos, frequentadora da organização há quase cinco anos e praticante de ginástica, “o espaço representa família e socialização. A gente também conversa sobre nossos problemas, e é quase como uma terapia. Além disso, vejo o quanto o Atletas de Ouro é importante por oferecer atividades às crianças da comunidade.”
Yasmin, de 16 anos, explica que o local é como uma segunda casa. “Já pratiquei judô e karatê, hoje faço capoeira, participo do Conselho Jovem e concluí o curso de empreendedorismo. O Instituto oferece oportunidades e ocupação para crianças e jovens da comunidade.”
Para Tainara, de 14 anos, participar do projeto teve impacto direto em sua saúde física e mental. “A capoeira, o karatê e o letramento racial mudaram muito minha saúde física e mental e a minha forma de pensar. O letramento racial me fortalece. Hoje sei quem eu sou e o que mereço e posso ser. Não devo abaixar a cabeça porque alguém diz: “Você é negra”. Eu sou eu.”
Por fim, Luiz Carlos, de 15 anos, conta que o Atletas de Ouro o ajudou a desenvolver a disciplina. “Para mim, o Instituto representa família e educação. Quando entrei aqui, eu era um menino que quase não respeitava ninguém na rua. Depois que comecei a participar, aprendi mais sobre disciplina. Para a comunidade, isso representa oportunidade para as crianças treinarem e mudarem de vida.”
Gostou dessa iniciativa? Quer ser voluntário?
O Instituto Atletas de Ouro busca voluntários para atuar em áreas como Psicologia, Serviço Social, captação de recursos, elaboração de projetos, reforço escolar, empreendedorismo, formação profissional para jovens, instrução de capoeira e outras oficinas que possam fortalecer o currículo e ampliar as oportunidades de emprego dos participantes.
A instituição também aceita o apoio de pessoas que possam contribuir de forma remota.
Quer apoiar o Instituto Atletas de Ouro?
Além das atividades e oficinas oferecidas, o Instituto precisa de apoio para garantir itens essenciais para os participantes, como alimentos para o lanche das crianças e jovens, camisas para as meninas, uniformes de capoeira e quimonos de karatê e judô.
Também são necessárias doações de equipamentos, cestas básicas, alimentos para os lanches e recursos financeiros recorrentes para a manutenção das atividades.
Empresas ou apoiadores que contribuírem com a produção das camisas podem ter o nome ou a marca incluídos nas peças, como forma de contrapartida.
Para saber como ajudar, siga o Instituto Atletas de Ouro no Instagram.
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A Coluna da Neuza faz parte do Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.




