Criado para ampliar o acesso de pessoas negras e indígenas à educação e ao mercado de trabalho, o Instituto GUETTO aposta em formação, tecnologia e redes de apoio como ferramentas para transformação estrutural.
O Instituto GUETTO nasceu com o propósito de democratizar o acesso de pessoas negras e indígenas à educação, ao trabalho e à tecnologia. O nome “GUETTO” é um acrônimo de Gestão Urbana de Empreendedorismo, Trabalho e Tecnologia Organizada. “A ideia era juntar palavras importantes que ajudassem na dinâmica do que queríamos construir. Trabalho, por exemplo, é uma garantia constitucional, e para nós, pessoas negras, isso é central”, explicou Vitor Del Rey, presidente e diretor executivo.
A primeira grande iniciativa foi a Ponte para PretXs, criada em 2016 como um grupo no Facebook. “Eu estudava na FGV e via que meus amigos não acessavam as mesmas oportunidades que eu. Criei o grupo para compartilhar informações, e ele rapidamente cresceu”, contou Vitor. Em 2019, o projeto se transformou em uma escola com apoio de instituições como FGV e Ibmec, oferecendo cursos presenciais em diferentes áreas.
Com a pandemia, a escola migrou para o formato online. “De 350 alunos presenciais, passamos a atender estudantes de todos os estados, chegando a mais de 10 mil pessoas”, destacou Aimê Araujo, diretora executiva. Entre os cursos mais procurados estão os de idiomas, considerados o carro-chefe, e os de tecnologia, de curta duração e rápida inserção no mercado. “O de idioma é o que mais tem disputa de vagas, mas os cursos de tecnologia têm impacto imediato”, reforçou Aimê.

Nos últimos anos, a organização também passou a incluir povos indígenas em suas iniciativas. “Reservamos vagas específicas para estudantes indígenas e fazemos pesquisas voltadas para essa realidade. Além disso, sempre que atuamos junto ao Ministério da Educação ou secretarias estaduais, levamos não apenas a Lei 10.639, sobre cultura afro-brasileira, mas também a 11.645, que trata da cultura indígena nas escolas”, explicou Aimê.
Outro destaque é o Ponte Conecta, programa que aproxima estudantes formados pelo GUETTO de vagas reais no mercado de trabalho. “Não buscamos só formar, mas incluir produtivamente essas pessoas”, afirmou Aimê. Segundo Vitor, muitas empresas chegam ao instituto já comprometidas com diversidade ou buscando apoio para estruturar políticas inclusivas. “Quando descobrimos que a empresa não tem pessoas negras em seus quadros, orientamos a preparar o ambiente antes de abrir vagas. Não basta contratar, é preciso sustentar a mudança”, completou.
As barreiras, no entanto, continuam. “Ainda existem exigências de formação em determinadas universidades, processos seletivos pouco humanizados e, claro, os vieses inconscientes. O racismo atravessa as entrevistas e faz com que candidatos negros sejam avaliados de forma injusta”, disse Vitor. Aimê reforça outro ponto: “Muitos estudantes não se sentem confiantes para se candidatar, mesmo quando cumprem quase todos os requisitos da vaga. Essa autoconfiança também precisa ser trabalhada.”

Por isso, o instituto aposta nas chamadas power skills, antes conhecidas como soft skills. “Não basta aprender inglês ou Excel, é preciso ter segurança para falar em público, resiliência no ambiente de trabalho e inteligência emocional”, explicou Aimê. “Incentivamos que os alunos passem por essa trilha, porque vai ajudá-los em entrevistas e no dia a dia profissional.”
Entre os projetos recentes está o Mapa Preto da Educação, uma plataforma interativa que reúne dados sobre desigualdades educacionais no Brasil, e o Projeto Sementes, que apoia o fortalecimento institucional de outras 20 organizações sociais no Rio de Janeiro. Há ainda a iniciativa Cenários 2050, que reúne lideranças para projetar futuros possíveis para a população negra.
Com milhares de estudantes impactados, parcerias com grandes empresas e projetos que unem educação, tecnologia e empregabilidade, o Instituto GUETTO se consolida como referência nacional em inclusão. “Não controlamos todas as variáveis — e a principal delas ainda é o racismo —, mas fazemos de tudo para que cada aluno esteja no seu melhor momento para agarrar as oportunidades”, concluiu Vitor.





