Entre a desigualdade e o sonho: o retrato da juventude brasileira

Juventudes brasileiras

Pesquisa nacional Next Generation Brasil 2025 mostra que os jovens querem ser ouvidos, confiam nos professores e reivindicam mais oportunidades, educação e políticas de permanência

A Coluna da Neuza esteve presente no lançamento do Relatório da Pesquisa Next Generation Brasil 2025, realizado em São Paulo pelo British Council, organização internacional do Reino Unido voltada para relações culturais e oportunidades educacionais. O estudo, inédito no país, ouviu mais de três mil jovens de 16 a 35 anos em todas as regiões do Brasil.

O evento aconteceu no dia 20 de outubro e apresentou a pesquisa mais abrangente já conduzida pela instituição no país. O objetivo foi compreender como as juventudes brasileiras enxergam o futuro, abordando temas como educação, renda, desigualdade e perspectivas de vida.

“A incrível diversidade torna o Brasil complexo. Para realmente compreender o que os jovens pensam e sentem, precisamos de mais do que números, precisamos conversar com eles e ouvir com atenção”, afirmou Tom Birtwistle, diretor do British Council no país.

E foi exatamente isso que o Next Generation Brasil  se propôs a fazer: entender a juventude a partir da sua própria voz. Essa escuta é essencial para construir políticas e projetos que reflitam os sonhos e desafios reais dos jovens brasileiros.

Confira abaixo um panorama dos resultados e depoimentos de pessoas envolvidas na pesquisa.

Desigualdade e identidade

O estudo revelou fortes disparidades de renda e raça entre as juventudes brasileiras. Jovens brancos ganham, em média, 19% mais do que a média nacional, enquanto jovens pretos recebem 31% a menos.

Mais da metade dos jovens pretos relatou viver com menos de um salário e meio por mês e, embora 56% sejam os principais provedores da casa, quatro em cada dez afirmaram não conseguir cobrir as despesas básicas.

A desigualdade também se reflete na educação. Metade dos jovens de 19 a 24 anos não possui diploma universitário nem estuda atualmente e, entre os que não concluíram o ensino médio, quase dois terços são pretos ou pardos.

O território é outro fator determinante: 55% dos jovens em grandes centros urbanos têm ensino superior, contra apenas 14% em favelas e 10% em áreas rurais.

Surpreendentemente, os professores surgem como a fonte de informação mais confiável para 69% dos entrevistados, à frente de jornais, sites de notícias, redes sociais e até da própria família.

As múltiplas realidades das juventudes

Entre os principais desafios apontados pelos jovens estão salários abaixo das expectativas (66%) e longas jornadas de trabalho. Muitos veem no empreendedorismo uma alternativa para alcançar autonomia financeira e realização pessoal, ainda que reconheçam os obstáculos e inseguranças desse caminho.

Entre a juventude indígena, as barreiras de acesso à educação e a condições dignas de vida seguem marcadas por desigualdades estruturais e processos históricos de exclusão.

Ainda assim, muitos jovens indígenas têm assumido papéis de liderança em suas comunidades, defendendo territórios, meio ambiente e direito à educação de qualidade.

Gênero e diversidade

A desigualdade de gênero também aparece de forma contundente: 78% dos jovens acreditam que o Brasil ainda possui uma cultura profundamente machista, e 73% reconhecem que as mulheres sofrem discriminação no ambiente de trabalho.

Entre os jovens da comunidade LGBTQIAPN+, 64% relataram já ter sido tratados de forma diferente por causa da orientação sexual.

“O Brasil continua a reforçar estereótipos raciais e de gênero que raramente são enfrentados pelo Estado”, comentou Larissa Fontana, do Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE).

“Isso sustenta narrativas que rotulam jovens negros como ‘suspeitos’ e mulheres negras como hiper sexualizadas e desumanizadas”, acrescentou

Olhar para o futuro

Apesar das dificuldades, o sentimento predominante entre os jovens é de orgulho e pertencimento. A cultura brasileira (48%), a culinária (46%) e a família (45%) aparecem como as principais fontes de orgulho nacional. Quando questionados sobre o que esperam dos governos para um futuro melhor, as respostas foram diretas e práticas:

  • 29% querem mais oportunidades de emprego e estágio;
  • 28% pedem políticas para reduzir desigualdades e discriminação;
  • 26% querem uma educação mais conectada ao mercado de trabalho;
  • 23% defendem programas de saúde mental nas escolas.

Vozes que constroem o amanhã

Durante o lançamento do relatório, jovens de diversas regiões compartilharam experiências e reflexões sobre o estudo. Confira alguns depoimentos:

Paula Moraes, de Belém (PA), coordenadora do projeto Amazônia Digital, contou que foi ao evento para “falar sobre educação e juventude. Achei muito importante a pesquisa trazer as dificuldades e o que os jovens pensam para o futuro. É uma escuta necessária.”

Mariana Nadaleto, coordenadora de mídias sociais da Sherlock Communications, explicou como sua equipe colaborou com o relatório: “Nosso time ajudou na tradução e na criação dos infográficos. Foi um aprendizado entender o que os jovens esperam do país — e ver esses dados ganhando vida em ações concretas.”

Já Waleska Queiroz, da periferia da Terra Firme (Belém), afirmou que participou “da mesa de debates e foi muito especial, trouxemos recortes de raça, gênero e território, mostrando como a juventude enxerga o presente e o futuro.”

Milan, 17 anos, estudante da rede pública de Santo André (SP), disse que se sentiu representada pela pesquisa: “Ela mostra a realidade dos jovens de diferentes contextos, não só os da periferia. Foi inspirador perceber que todos nós queremos ser ouvidos na construção de políticas públicas.”

Amanda Soares, mais conhecida como PCD Perigosa, relatou que foi um prazer contribuir com a pesquisa. “Estou aqui no evento da British Council, que marca a finalização e a apresentação dos resultados da pesquisa Next Generation”

“Estar presente foi muito importante para mim, tanto pela minha colaboração na pesquisa, integrando a equipe consultiva, quanto pela oportunidade de conhecer outras pessoas envolvidas em movimentos ligados à juventude, espaços dos quais também faço parte como pessoa com deficiência e como ativista.”

Sarah O’Sullivan, diretora da SOS Education, empresa independente que conduziu o estudo no Brasil, destacou a importância de ouvir a juventude de forma ampla e diversa: “Foi fascinante ouvir tantas experiências diferentes de jovens de todas as regiões do país. O aspecto mais marcante foi perceber como a desigualdade educacional e de renda continua profundamente determinada pela raça e pelo território. 

“As políticas de cotas têm gerado impacto, mas os resultados ainda não são plenamente visíveis, há um longo caminho pela frente.”

Segundo ela, as conversas com grupos específicos revelaram demandas consistentes: “Os jovens foram firmes ao pedir não apenas acesso ao ensino superior e ao mercado formal, mas também políticas que garantam a permanência nesses espaços. Isso ficou muito claro entre jovens com deficiência e jovens trans, que enfrentam barreiras extras para permanecer estudando ou trabalhando.”

Sarah também chamou atenção para o perfil dos jovens trabalhadores informais: “Muitos relataram jornadas longas e rendas baixas, mas também o desejo de autonomia. Esse equilíbrio entre sobrevivência e independência diz muito sobre o espírito empreendedor dessa geração.”

Apesar dos desafios, ela se disse otimista: “O projeto me encheu de esperança. Os jovens brasileiros não são espectadores passivos, são proativos, engajados e querem ser ouvidos. Com base nos dados, elaboramos recomendações para que instituições públicas e civis possam responder melhor às demandas da juventude. Há um potencial enorme a ser fortalecido.”

Por fim, Bárbara Cagliari, head de Relações Governamentais do British Council no Brasil, contou que “o Next Generation é uma série global de pesquisas, e foi emocionante ver a versão brasileira ganhar forma. Buscamos mapear os anseios, dificuldades e visões de futuro das juventudes. O processo foi longo, mas muito transformador.”

“Foi enriquecedor compreender um pouco das dificuldades e das facilidades que cada trajetória apresenta, para que eu possa contribuir de forma mais efetiva. Também foi fundamental essa abertura de portas, que me permitiu trocar experiências e aprender com pessoas que já trilharam caminhos anteriores ao meu. Isso fortalece meu percurso nas áreas da educação, da saúde e da comunicação”. 

“Além disso, a pesquisa tem uma importância enorme por transversalizar a questão da deficiência, não apenas sob a ótica da acessibilidade, mas considerando a presença da pessoa com deficiência em todos os campos da vida: educacional, profissional e cultural”

Um retrato de urgência e esperança

O resultado do Next Generation Brasil 2025 revelou um país de contrastes, cheio de desafios, mas também de energia transformadora.

Entre as linhas do relatório, emerge um recado claro: os jovens brasileiros não são espectadores, são protagonistas. Querem participar das decisões, propor caminhos e ver suas vozes realmente consideradas na construção do futuro que desejam

A Coluna da Neuza é parte do portal Lupa do Bem, projeto de Responsabilidade Social Corporativa da agência de comunicação Sherlock Communications.

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